Coronel Sapucaia
Dentro da Máxima, canos e vazamentos viram chance de recomeço
Episódio mostra curso de encanador para internos e desafio da ressocialização no sistema prisional
KAMILA ALCâNTARA / CAMPO GRANDE NEWS
Dentro da Penitenciária de Segurança Máxima Jair Ferreira de Carvalho, no Jardim Noroeste, em Campo Grande, o som que costuma marcar a rotina de grades, portões e regras rígidas ganhou companhia. Entre canos, registros e chuveiros, internos começaram a aprender uma profissão: encanador.
É a partir desse cenário que o Entre Áudios lança o terceiro episódio do podcast narrativo produzido pela repórter Kamila Alcântara, com edição e direção de Elvis Corrêa. Com o título “Dentro da Máxima', o episódio mostra como um problema simples, mas caro e persistente, abriu espaço para uma iniciativa de capacitação dentro do presídio.
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A história começa antes da sala de aula. Durante visitas às unidades prisionais de Campo Grande, equipes identificaram pequenos vazamentos, chuveiros com defeito, válvulas quebradas e torneiras pingando. Isolados, os problemas parecem pequenos. Somados, aumentam o consumo de água e afetam a estrutura das unidades.
No episódio, Gabriel Buim, diretor-presidente da Águas Guariroba, concessionária responsável pelo abastecimento na Capital, explica que o aumento no consumo chamou atenção e levou a empresa a visitar as unidades por cerca de dois meses. A partir daí, surgiu a ideia de juntar material, capacitação e mão de obra interna.
A parceria envolve a Águas Guariroba, o Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial) e a Agepen (Agência Estadual de Administração do Sistema Penitenciário). A concessionária entra com os materiais, o Senai com a formação e a Agepen com os internos selecionados para participar.
Mas o curso não é aberto a todos. Segundo Milson da Silva Caetano, diretor da unidade, os participantes precisam ter conduta ótima ou boa e fazem parte de um pavilhão de reabilitação de drogas. O episódio também mostra que, dentro de uma unidade marcada pela influência de facções criminosas, a seleção dos internos é parte central do projeto.
A proposta é que os próprios participantes façam pequenos reparos nas unidades, como consertar vazamentos, reduzir desperdícios e cuidar da estrutura que eles mesmos utilizam. Ao mesmo tempo, o curso oferece experiência prática e certificação, o que pode ajudar na busca por trabalho após o cumprimento da pena.
Entre os participantes está Alisson, que cumpre pena há três meses. No relato, ele diz ver no curso uma chance concreta de mudança. O filho, de 12 anos, aparece como principal motivação. “A vida errada não leva a lugar nenhum. Agora eu quero viver outra história', afirma no episódio.
O podcast também ouve Luciano da Silva, psicólogo que atua na unidade. Ele explica que, em um contexto de falta de perspectiva, estudar, trabalhar e aprender uma função podem mudar o comportamento dos internos. Além disso, no sistema prisional, a cada 12 horas de curso, um dia de pena pode ser reduzido.
Hoje, o sistema prisional de MS (Mato Grosso do Sul) tem mais de 18 mil internos. A maioria responde por crimes ligados ao tráfico de drogas. Em 2026, cerca de 2 mil vagas em cursos profissionalizantes estão previstas no sistema.
“Dentro da Máxima' mantém a proposta do Entre Áudios: transformar entrevistas feitas para reportagens do Campo Grande News em narrativas sonoras, com mais espaço para ambiente, pausa, voz e detalhes que nem sempre cabem no texto escrito.
O episódio está disponível no Spotify.
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