• Sábado, 20 de Junho de 2026

"Quero faltas, não gols:" veja como os árbitros da Copa do Mundo se preparam durante o torneio

Jogadores contratados para simular pênaltis, revisão de lances e cuidados em viagem fazem parte da rotina de juízes e bandeirinhas; ge passou um dia na concentração em Miami

GLOBOESPORTE.COM / LEONARDO LOURENçO


Mapa com indicações dos centros de treinamentos das seleções da Copa e do "Team One" dos árbitros — Foto: Leonardo Lourenço

Colada na parede de um quarto transformado em escritório, num luxuoso hotel à beira-mar, em Miami, uma ilustração da América do Norte tem a bandeira das 48 seleções desta Copa do Mundo para indicar o local escolhido por cada uma delas para treinar. Escrito à mão, com uma seta apontando para a cidade no sul da Flórida, aparece “Team One'.

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É a equipe mais numerosa do torneio, talvez a que sofra maior pressão – está na mira de todas as torcidas –, mas que vive uma rotina quase incógnita quando seus representantes não estão no campo.

O “Team One' é formado pelos 169 árbitros, assistentes e árbitros de vídeo responsáveis por comandar as 104 partidas da competição – seriam 170, mas o somali Omar Artan foi barrado pela imigração americana.

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Reunidos em Miami desde o dia 31 de maio, eles têm uma rotina de treinos diários – que incluem atividades com atletas semiprofissionais da região contratados para simular lances de jogos –, alimentação sob controle e preparada por um chef italiano, estrutura de fisioterapia e uma área de recreação.

O ge passou um dia com os árbitros do Mundial a convite da Fifa, na última quarta-feira, dia seguinte a duas das principais polêmicas desta Copa: o pênalti não marcado no atacante francês Mbappé no jogo contra Senegal – apesar de o VAR ter sugerido a revisão do lance – e a falta de Messi no zagueiro argelino Mandi que provocou pedidos de expulsão do argentino.

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Café e escala de trabalho

O dia começa cedo no hotel em Miami Beach onde estão instalados árbitros e assistentes – os 30 árbitros de vídeo estão todos em Dallas, onde ficam as cabines de VAR, instaladas no IBC (Centro Internacional de Transmissões).

Às 7h30, é servido o café da manhã num amplo salão com vista para o mar. Uma hora depois, começa a primeira atividade do dia: todos se reúnem numa sala para ouvir quem será escalado para as próximas partidas. Na quarta, foram designados os árbitros que comandariam os jogos deste sábado, pela segunda rodada da fase de grupos.

Era uma cerimônia especial, já que o chefe de arbitragem da Fifa, Pierluigi Collina, revelaria quem apitaria o milésimo jogo de Copa do Mundo, Japão x Tunísia, em Monterrey. O escolhido, celebrado com aplausos e abraços pelos demais, foi o romeno Istvan Kovacs, que trabalhou na final da Liga dos Campeões da Europa no ano passado.

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Ele vestirá uma camisa única para a partida, laranja, com detalhes dourados e um patch com referência ao jogo mil.

Festa semelhante foi feita para o brasileiro Wilton Pereira Sampaio quando ele foi designado para apitar o jogo de abertura da Copa, entre México e África do Sul. O relato é de que os colegas, além dos abraços, ainda cantaram o nome do árbitro no ritmo da música "Seven Nation Army", do White Stripes, que há tempos se tornou um hino de arquibancadas: "Ô, Wilton Sampaaaiooo".

Pênalti, cartão amarelo e tiro de meta

Três ônibus deixam o hotel todo dia por volta das 9h em direção à Universidade Miami-Dade – um trajeto de cerca de 40 minutos feito com escolta policial e pista livre.

Por cerca de uma hora e meia, os árbitros ocupam quatro campos do local para treinos físicos e técnicos, acompanhados por instrutores.

Jogadores semiprofissionais da região de Miami atuam como “sparrings'. Eles são contratados para, literalmente, simular pênaltis – e outros lances de interesse dos árbitros, claro.

Num dos campos, para juízes que apitarão no dia seguinte ou no próximo, os atletas são orientados a replicar esquemas táticos das seleções dessas partidas.

No gramado ao lado, trios de arbitragem, sob o olhar de instrutores, revezam-se em atividades de cerca de 10 minutos. Ali, pênaltis são forçados, apitados e jogadores são punidos com cartão – mas as cobranças jamais são executadas. A cada marcação dentro da área, a partida recomeça com tiro de meta.

– Queremos faltas, não gols – brinca o ex-juiz suíço Massimo Busacca, número dois da estrutura de arbitragem da Fifa, ao explicar o objetivo do treinamento.

Os árbitros chegaram aos Estados Unidos em 31 de maio. Para mantê-los em atividade, a Fifa organizou a "Referees Cup", torneio com equipes da região – e premiação em dinheiro para que os times a levem a sério – para que juízes e assistentes trabalhassem à espera da abertura da Copa, no dia 11.

Pouco depois das 11h, os árbitros se livram do calor de Miami – acima dos 32 graus na quarta – e se refugiam nos ônibus climatizados da Fifa para retornar ao hotel, onde, antes de almoçar, têm outra reunião para a revisão de lances dos jogos do dia anterior com Busacca e Collina – o italiano que apitou a final da Copa de 2022 na Coreia do Sul e no Japão, quando o Brasil conquistou seu último título, sobre a Alemanha.

Foi pênalti em Mbappé? Messi deveria ter sido expulso?

A placa na porta identifica aquele espaço como "classroom" – sala de aula. Quatro telões mostram jogadas de partidas da Copa na véspera. Neste momento, não só os árbitros que estão no hotel em Miami acompanham as observações de Collina, mas também todos os que estão em Dallas e outros em viagem, conectados em videoconferência.

O chefe de arbitragem mostra lances de Áustria x Jordânia e Iraque x Noruega, nos quais faz observações sobre o posicionamento dos juízes. Em Argentina x Argélia, num gol anulado da equipe africana no primeiro tempo, é possível ouvir o alarme instantâneo do impedimento semi-automático – uma voz feminina que repete “offside' no ouvido do juiz e dos assistentes.

É dessa partida a primeira polêmica em discussão: Messi deveria ter sido expulso por pisar na perna do zagueiro Mandi? Não, segundo Collina.

– Isso é falta normal. Ver o replay em câmera lenta “aumenta' o incidente. Ele deve ser visto na velocidade do jogo. A reação foi correta – diz ele, em defesa do árbitro polonês Szymon Marciniak.

O lance seguinte é o pênalti que o atacante Mbappé pediu ao cair dentro da área numa disputa de bola com Mané no segundo tempo do duelo entre França e Senegal. Foram vários minutos debatendo a jogada.

Em campo, o árbitro australiano Alireza Faghani marcou escanteio para os europeus. O VAR, porém, sugeriu a ele que revisasse o lance: primeiro, pelo fato de que a bola não tinha sido tocada por Mané – não era tiro de canto, portanto – e depois por entender que houve contato de Mané no quadril de Mbappé.

– É um lance muito discutível. A única forma (de decidir) é levar o árbitro ao monitor. Ele tem que ter a chance ver o que aconteceu baseado em sua interpretação – afirma Collina aos demais.

Ao rever a jogada no monitor, Faghani decidiu que não houve pênalti. O contato não tinha sido suficiente para derrubar o francês, avaliou – aos árbitros em Miami, Busacca destaca que Mbappé, depois do toque, ainda coloca um dos pés no chão, um indicativo de que poderia ter continuado com a jogada, segundo ele.

Ali, não fica clara a opinião dos chefes de arbitragem da Fifa sobre o lance. O que eles defendem, porém, é que se trata de uma situação difícil, em que deve prevalecer a interpretação do árbitro principal.

Pouco depois, todos são liberados para o almoço – com exceção do trio inglês formado por Michael Oliver e os assistentes Stuart Burt e James Mainwaring.

Escalados para Holanda x Suécia, que se enfrentam neste sábado, em Houston, eles se reúnem com os analistas italianos Gianvito Piglionica e Cristiano Ciardelli. Os dois têm formação de treinadores e trabalham com Collina há mais de dez anos. Em outra sala, fazem uma detalhada análise tática das duas equipes em conjunto com os árbitros.

Numa lousa, mostram a possível formação das seleções. Na televisão, jogadas de ataque, defesa e posicionamento em cobranças de escanteio.

Trata-se de uma partida em que 25 dos atletas convocados pelas duas seleções atuam na Inglaterra:

– É um benefício, nós conhecemos todo mundo – afirma Oliver, que apitou o duelo da eliminação do Brasil pela Croácia na Copa do Catar.

Áudio do VAR a dois mil quilômetros e viagem anônimos

Quando os jogos começam, parte dos instrutores se junta em outra sala do hotel em Miami. Ali eles acompanham os confrontos, com acesso às conversas dos árbitros de campo com o VAR – mas, como reforça Collina, a comunicação é de uma mão só, sem possibilidade de que os que estão ali interfiram no trabalho dos que estão atuando na partida.

A reportagem viu parte do primeiro tempo de Portugal x RD Congo, disputado em Houston, a quase 2 mil quilômetros dali – apenas diálogos burocráticos, nada revelador.

Os monitores mostram a transmissão principal – sem narrador ou comentaristas – e as câmeras à disposição do VAR. Parte dos analistas define o corte de lances que depois serão utilizados em palestras para os árbitros

– Sabe como me preparei para a final da Copa de 2002? Eu pedi aos japoneses cópias em VHS das partidas de Brasil e Alemanha no torneio. Passei horas vendo e revendo os lances – conta Collina, ao reforçar a estrutura que atualmente é oferecida para a preparação dos árbitros.

Miami é a base da arbitragem na Copa, De lá, os juízes e assistentes saem e para lá eles voltam a cada rodada. A logística de voo não é simples, considerando o tamanho da equipe.

Os árbitros se deslocam em voos comerciais, sempre que possível em classe executiva, e são orientados a viajar sem a identificação de que são juízes ou bandeirinhas – para evitar o risco de serem incomodados por torcedores.

Numa Copa disputada em todo um continente, a data da viagem depende do local do jogo. Para sete sedes (Vancouver, Seattle, São Francisco, Los Angeles, Monterrey, Guadalaraja e Kansas City), os árbitros partem dois dias antes.

Para as demais (Toronto, Nova York/Nova Jérsei, Boston, Filadélfia, Atlanta, Dallas, Houston e Cidade do México), na véspera – além, claro, de Miami, onde permanecem concentrados no hotel do “Team One'. Há equipes da Fifa em cada cidade para recebê-los

Quando possível, retornam no mesmo dia – como no caso de Abdulrahman Aljassim, o catari que apitou Portugal x RD Congo. A intenção é que eles iniciem a recuperação na concentração dos árbitros.

O hotel tem andares exclusivos para a Fifa, que oferece estrutura de preparação física, fisioterapia e psicológica aos árbitros.

Lá estão oito brasileiros, um recorde para o país numa Copa: os árbitros Raphael Claus, Ramon Abatti Abel e Wilton Pereira Sampaio e os auxiliares Bruno Boschilia, Bruno Pires, Danilo Manis, Rodrigo Figueiredo e Rafael Alves. Em Dallas, está o árbitro de vídeo Rodolpho Toski Marques.

Com Pires e Boschilia, Sampaio dirigiu a partida de abertura, a vitória do México sobre a África do Sul por 2 a 0. Tornou-se alvo de críticas ao anunciar para o estádio uma mudança numa marcação em campo após revisão no VAR com dificuldade de se expressar em inglês.

Segundo apurou o ge, o episódio foi abordado numa conversa com a chefia, que reforçou a necessidade de árbitros de nível internacional de se comunicarem no idioma, mas a atuação de Sampaio foi amplamente elogiada – ele aplicou três cartões vermelhos na partida, todos corretos, de acordo com a avaliação dos instrutores.

O hotel de Miami tem um salão de recreação, com mesa de tênis de mesa e videogames. Os árbitros também têm liberdade para caminhar na região, perto da praia.

O “Team One' – marca criada para a Copa do Catar para criar uma identificação ao grupo – diminuirá conforme o torneio avançar. Não há uma data para os cortes, mas a expectativa é de que apenas 12 trios sejam mantidos a partir das quartas de final. O comandante da decisão só será escolhido após as semifinais, uma vez que a Fifa veta juízes dos países finalistas na decisão. Mas o processo de seleção já está em andamento.



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