Coronel Sapucaia
Diabete levou parte do pé, mas não calou o samba de Serginho
Aos 49 anos, músico alerta sobre os riscos silenciosos da doença e se apoia na fé para recomeçar
NATáLIA OLLIVER / CAMPO GRANDE NEWS
Há mais de 20 anos, o músico Sérgio Lopes da Silva, conhecido como professor Serginho ou Serginho de Prima, descobriu que tinha diabetes. Na época, a vida seguiu, a rotina de shows 'engoliu' a preocupação com a saúde e a doença ficou em segundo plano. Anos depois, aos 49 anos, ela cobrou duas vezes o preço por ele ter se esquecido dela.
Hoje, Serginho perdeu parte do pé para uma necrose causada por uma infecção que acabou caindo na corrente sanguínea. O problema começou sem dor, na parte interna de uma joanete.
Na varanda da casa da mãe, ele conta que a amputação foi necessária para preservar o resto do pé. 'Não dei a atenção merecida que a doença pede. Diabetes age com sintomas silenciosos. Ela vai te minando por dentro. Chega um ponto da nossa caminhada biológica que o corpo já não tem a mesma imunidade para reagir a alguns problemas de saúde. O que aconteceu comigo foi isso.'
Antes da amputação, há cinco anos, o músico já viveu um episódio de medo com a diabetes, mas, na época, tudo acabou bem. Ele teve um pequeno machucado no peito do pé que cresceu e ficou muito grande. Foi preciso uma internação de 30 dias no Hospital São Julião.
'Graças a Deus conseguimos recuperar. Não podemos negligenciar o poder de destruição que o diabetes tem. Ela age sem, muitas vezes, a gente sentir. Eu tentava tomar os medicamentos da maneira correta, mas a minha vida noturna era ruim. Madrugada afora, trabalhando e viajando, tudo isso atrapalhava muito manter a rotina médica exigida. Chega um certo ponto que a gente acaba se enganando, achando que está tudo bem, e segue a vida.'
Segundo ele, o que ajudou a não parar a rotina de músico foram os filhos. Pai solteiro, era preciso alimentar três crianças na época. Hoje, Serginho é pai de quatro, e a última tem 8 meses.
'Minha preocupação era trabalhar para não faltar nada para eles. Deus foi muito bom que eu consegui. Depois que entra no tratamento médico não pode parar. Se vacila, acontece o que aconteceu comigo. Eu deixei a desejar na parte que merecia mais respeito e atenção, a minha saúde.'
Desta vez, o machucado foi interno, na joanete, e, pela imunidade muito baixa, quando descobriu já tinha infeccionado. O estrago era uma necrose circular do tamanho de uma moeda de R$ 1.
'Comecei a ir aos médicos limpar o tecido necrosado, a ferida abriu, ficou grande e, nesse trabalho de cuidar dessa ferida, contraí uma bactéria externa e violenta. Em 40 dias ela se proliferou e, mesmo com tratamento, não teve jeito. Tive uma sepse, quando a bactéria vai para a corrente sanguínea.'
Foi um dos irmãos que viu a situação do pé e correu com Serginho para o hospital. Era preciso retirar o chamado antepé, mas, durante a operação, o médico constatou que a infecção óssea estava só no dedão e no metatársico do dedão. Então, preservou os quatro dedos do pé e retirou o dedão e o osso do dedão.
'Não existe prótese para o meu caso, só calçados apropriados para haver o encaixe agora no formato que ficou meu pé. Agora eles precisam ser bem almofadados. O diabético perde a sensibilidade da sola do pé. Qualquer machucado que a gente tem, não sente. Quando assusta, aquilo já inflamou e infeccionou. O cuidado é muito específico.'
Hoje ele está bem e tenta se readaptar à nova rotina. Não sabe quanto tempo vai demorar e o que precisará fazer. Sabe que o caminho vai ser longo, mas se ampara na fé para poder seguir. O músico pega o violão, um dos ganha-pães dele, e toca uma canção do repertório. O tema? Esperança.
A carreira de Serginho começou em 1999, nos palcos noturnos, quando a música ao vivo e os DVDs ainda eram o principal registro de shows locais. Em 2008, ele lançou um DVD e marcou um feito simbólico: foi o primeiro grupo de pagode da cidade a registrar esse tipo de produção.
Ele se define como músico completo, com domínio de percussão, bateria, piano, guitarra, baixo, violão, cavaquinho e banjo. Além de tocar, atuou como compositor, cantor, arranjador e professor. Durante todos esses anos, Serginho diz ter formado mais de 50 músicos que hoje circulam pela noite campo-grandense.
A origem musical vem de antes da carreira profissional. Ele cresceu no berço do samba e das escolas de samba. Um tio participou da fundação da Acadêmicos do Samba, considerada a primeira escola de samba de Campo Grande. Gostar daquilo e aprender os instrumentos não foi difícil para ele.
'Fui criado em berço evangélico, filho de pastores. Esse é um dos fatores que me fazem ter a força que tenho para viver e encarar essa nova perspectiva de vida. Ninguém quer perder uma parte do corpo, usar prótese. A minha força se deve à minha fé. Muitos amigos se mobilizaram, me mandando energias positivas e orações. Foi isso que me fez conseguir aceitar.'
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Como Serginho não consegue trabalhar desde que ficou internado, amigos e familiares resolveram fazer uma feijoada com muito samba. O evento será realizado no dia 12 de julho, às 12h, e foi batizado de Samba do Bem, Todos pelo Serginho. A realização é da família Corrêa e de Diogo Miranda.
A entrada custa R$ 25 para prestigiar os artistas Xandão do Cavaco, Toninho, Juninho Canhoto, Robertinho Meneses, Juci Ibanez, Maninho Gomez, Daran Júnior, Zé da Vila, PC, Rajiv, Mestre Paulinho, Walcleber, Pegada de Macaco, Valú e Samba Trio. A festa será na Rua Armando Holanda, 230, no bairro José Abrão. Mais informações pelo contato (67) 99258-0859
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