Coronel Sapucaia
Em 4 anos, 12 municípios compraram, sem licitação, livros de editora investigada
Os contratos foram firmados entre 2022 e este ano e somam R$ 22,1 milhões; o mais recente é com Nova Alvorada
LUCIA MOREL / CAMPO GRANDE NEWS
Ao menos 12 prefeituras de Mato Grosso do Sul compraram, sem licitação, livros paradidáticos da Souza & Fanaia Comércio de Livros e Serviços, também chamada de Editora Avante. Nelas, os contratos entre 2022 e este ano somam R$ 22.179.312,80. O mais recente foi firmado com a Prefeitura de Nova Alvorada do Sul, no valor de R$ 256,2 mil, assinado em maio.
A compra foi de materiais paradidáticos, coleções temáticas e kits pedagógicos destinados aos alunos do 1º ao 9º ano do ensino fundamental da rede municipal de ensino de Novo Horizonte do Sul, com a finalidade de apoiar práticas pedagógicas interdisciplinares, fortalecer a formação cidadã, ampliar repertórios de leitura e promover o desenvolvimento de competências leitoras, socioemocionais, ambientais, inclusivas, preventivas e de convivência escolar.
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A empresa é alvo da Operação Gutenberg, do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado), que investiga grupo que cooptava servidores públicos para fraudar e direcionar procedimentos de compras públicas, sem licitação, para a aquisição de livros paradidáticos. Os valores recebidos dos cofres públicos pela organização criminosa, conforme o Gaeco, chegam a R$ 27 milhões.
Campo Grande também comprou publicações da editora, que é responsável por um projeto e um livro de mesmo nome, chamado Craque na Vida. A ideia foi levar ações e capacitações para escolas municipais em várias cidades. Na Capital, as atividades ocorreram em maio de 2024 e custaram R$ 3,2 milhões.
Material do município publicado no site da prefeitura na época indicava que o projeto iria alcançar 29 mil alunos do 6º ao 9º ano da Reme (Rede Municipal de Ensino). Houve inclusive lançamento com apresentação a coordenadores de 70 escolas municipais.
Na prática, o projeto educacional utiliza-se de livros, suporte pedagógico e ferramentas tecnológicas que vão facilitar a identificação das habilidades e dos tipos de inteligências dos alunos. O levantamento também mapeia o ambiente escolar e identifica as ameaças, como violências verbais e físicas. A partir dos dados coletados, a escola vai traçar ações para melhorias, que vão desde ação de prevenção ao uso de drogas, à violência e ao bullying, até o aprimoramento nas relações sociais e interpessoais.
Mais cidades - Maiores do que esses são os contratos com a Prefeitura de Dourados, que juntos somam R$ 13 milhões. O primeiro é de setembro de 2023, no valor de R$ 4,3 milhões. O outro, de julho de 2024, teve o custo de R$ 8,6 milhões.
A primeira compra foi de quatro kits pedagógicos paradidáticos para alunos e professores: Coleções Cores, Formas, Letras, Número e Contrários, Defensores da Vida Saudável, Cada um com seu Jeito, e A menina que não queria comer. O segundo lote dos livros incluiu: Mosquito aqui não!, Droga, o que é? Atenção aos perigos, Que lixo é esse?, Pra ter uma boca Saudável, e outros dois sobre obesidade infantil.
Outras contratações foram feitas com as prefeituras de Bonito, São Gabriel do Oeste e Miranda. No primeiro município, em dezembro de 2024, a editora foi contratada sem licitação para a compra de livros por R$ 357.618,00. A aquisição de São Gabriel do Oeste ocorreu em abril de 2024, no valor de R$ 640,1 mil. Já em Miranda, o custo foi de R$ 1 milhão.
Ivinhema também contratou a editora por meio de dois acordos em julho de 2022 que somam R$ 874,1 mil, assim como Sonora, que pagou R$ 302,2 mil à empresa entre novembro de 2024 e março de 2025. Anaurilândia firmou pacto de R$ 207,6 mil em abril deste ano, além de São Gabriel do Oeste com contrato de R$ 640,1 mil em 2024 e também Miranda e Deodápolis, que compraram os kits por R$ 1 milhão e R$ 474,8 mil, respectivamente.
Em dezembro de 2025, Caarapó pagou R$ 589,3 mil à editora e Porto Murtinho, R$ 249,9 mil em contrato de agosto de 2023.
Por fim, há as contratações com Ladário entre dezembro de 2022 e agosto de 2024, totalizando quatro no período nos valores de R$ 459,2 mil, R$ 350,2 mil, R$ 149,2 mil e R$ 249 mil, respectivamente. A soma é de R$ 1,2 milhão.
Operação - Foram cumpridos 16 mandados de prisão preventiva e 43 mandados de busca e apreensão nas cidades de Campo Grande, Dourados, São Gabriel do Oeste, Caarapó, Corguinho, Porto Murtinho, São Paulo (SP) e Abadiânia (GO).
Além do esquema com os livros, é investigada na ação a possível atuação de funcionários públicos em um esquema relacionado à regulação de consultas, exames, cirurgias e leitos da rede pública de saúde.
No Core (Complexo Regulador Estadual), em Campo Grande, a equipe do Gaeco permaneceu por cerca de duas horas e deixou o local levando um malote com materiais apreendidos. O órgão é responsável pela regulação do acesso de pacientes do SUS a leitos, consultas, exames e procedimentos especializados.
Durante a operação também foram apreendidos R$ 69.795 em espécie e 907 dólares. Parte do dinheiro estava acondicionada em cédulas ainda lacradas pelo Banco Central.
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