• Sexta, 24 de Julho de 2026

Carta escrita por avô há 15 anos emociona família ao ser aberta por neto

Militar deixou carta em 2011 e pediu que fossem lidas apenas no futuro

GENIFFER VALERIANO / CAMPO GRANDE NEWS


Envelope que guardava a carta tinha a data em que ela devia ser lida (Foto: Arquivo Pessoal)

Quinze anos após ser escrita, uma carta atravessou o tempo para emocionar uma família em Campo Grande. O gesto partiu de um avô que, sem alarde, decidiu transformar em palavras tudo o que gostaria de dizer ao neto, mesmo sem saber se estaria presente para vê-lo crescer.

Viúva do militar aposentado Basmarto Tupikin, Maria das Graças guarda na memória a dimensão de quem era o marido. “Ele era uma pessoa diferente, humilde, sem vaidade. Muita gente nem sabia que ele era militar. Entrou no Exército como soldado e morreu como major', conta.

Sem que ninguém soubesse, ele começou a escrever cartas para os netos. Os textos eram feitos aos poucos, entre pausas e retomadas, como se cada linha precisasse do tempo certo para existir. “Eu só descobri quando fui viajar para Brasília, quando o Davi ia nascer. Antes de eu ir, ele me entregou e pediu para guardar e entregar no futuro', relembra.

Uma das cartas era destinada a Davi, que ainda nem havia nascido quando o avô terminou de escrevê-la. O pedido era claro: o envelope só deveria ser aberto quando o neto completasse 15 anos. E assim foi feito.

Em maio deste ano, no dia do aniversário, o adolescente reuniu a família na sala e decidiu que era hora de conhecer as palavras deixadas anos antes. “Ele chamou todo mundo e disse: ‘agora está na hora de eu abrir a carta do meu avô’', conta Maria.

O momento foi carregado de emoção. Segundo ela, ao terminar a leitura, o neto disse que sentiu como se o avô estivesse ali, presente. “Ele falou que era como sentir a alma do avô com ele', descreve.

O militar morreu em 2016, após enfrentar problemas cardíacos. Chegou a conhecer apenas cinco dos oito netos. Mesmo assim, tentou deixar um pouco de si para cada um. Em outra carta, escrita após o nascimento de Gabriel, ele descreve a expectativa de ser avô novamente, com detalhes simples e afetivos, como as cócegas na barriga da filha, imaginando que o bebê poderia sentir.

Entre os objetos guardados, um detalhe chamou ainda mais atenção da família: dentro de uma das cartas, havia um fragmento de munição. O item havia sido dado pela filha, que serviu às Forças Armadas de Israel e trouxe o objeto como lembrança de um treinamento. Ao incluir o fragmento na carta, o avô parecia também passar adiante a história da família.

Para Maria, o gesto do marido vai além de uma lembrança. É um exemplo de afeto que poderia ser replicado. “É um amor muito grande. Eu acho que as pessoas deveriam escrever mais, deixar palavras para o futuro. Isso é um presente para a vida toda', afirma.

Depois de ler a carta, Davi resumiu o impacto em uma frase que a avó não esquece: “queria ser alguém melhor, mais respeitoso e carinhoso, como o avô desejava'. Para a família, ficou a certeza de que, mesmo ausente, ele encontrou uma forma de permanecer.

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