Coronel Sapucaia
"Eliminado": lista com 24 nomes circula como membros do PCC com decreto de morte
Publicações atribuídas ao Comando Vermelho incluem mulheres e citam cidades do interior de Mato Grosso do Sul
BRUNA MARQUES / CAMPO GRANDE NEWS
Série de publicações em perfis que fazem propaganda do Comando Vermelho passou a circular nas redes sociais nas últimas 24 horas, em meio à guerra entre facções criminosas em Mato Grosso do Sul. O conteúdo apresenta uma lista com 24 pessoas supostamente “decretadas' para morrer, apontadas nas postagens como integrantes ou pessoas ligadas ao PCC (Primeiro Comando da Capital).
Gustavo Loschiavo Araujo, de 29 anos, incluído na lista, foi assassinado a tiros no sábado (25), em Cassilândia. Depois do homicídio, a fotografia dele voltou a ser publicada nas redes sociais, marcada com um grande “X' vermelho e a palavra “Eliminado'. A ligação entre a execução e as ameaças divulgadas ainda deverá ser esclarecida pela investigação policial.
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As publicações exibem fotografias, nomes, apelidos e cidades dos alvos, entre eles homens e mulheres, acompanhados de ameaças explícitas e mensagens de exaltação ao Comando Vermelho.
As listas foram divulgadas por mais de um perfil e fazem referência principalmente a moradores de Cassilândia, Inocência e Miranda. Em praticamente todas as imagens, o texto segue o mesmo padrão: “Quebrada: Cassilândia MS. Decretado pelo CV MS'.
Em alguns casos, os administradores das páginas afirmam que os alvos teriam sido marcados para execução porque “não teve aceitação da ideologia do CV'. Outra publicação traz a frase “Sem aceitação ao CV' como suposta justificativa para o chamado “decreto'.
A guerra entre o Comando Vermelho e o PCC em Mato Grosso do Sul, no entanto, não é recente. Ao longo de 2026, o Campo Grande News publicou diversas reportagens mostrando o avanço da disputa entre as organizações criminosas no Estado.
Em abril, a Operação Leviatã teve como alvo integrantes do Comando Vermelho investigados por tentar expandir a atuação da facção em Mato Grosso do Sul. Mais recentemente, a Sejusp (Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública) atribuiu o aumento de confrontos e mortes à disputa entre CV e PCC pelo controle de rotas do tráfico e de territórios, especialmente em regiões de fronteira.
Não há, até o momento, confirmação independente de que todas as pessoas citadas na lista tenham ligação com o PCC. Essa associação é feita pelos próprios responsáveis pelas publicações.
Domínio territorial - Além das listas com fotografias e nomes das pessoas ameaçadas, os perfis divulgaram imagens com frases que sugerem domínio territorial do Comando Vermelho em Mato Grosso do Sul.
Uma das publicações traz a mensagem: “Quem tá no comando de região MS TD2'.
O código “TD2' é empregado em conteúdos ligados ao chamado “Tudo 2', expressão usada como referência ao Comando Vermelho e a grupos aliados.
Outra publicação afirma: “Bem-vindo a Mato Grosso do Sul, terra de oportunidades. Campo Grande, Alcinópolis, Costa Rica, Inocência, Cassilândia, Três Lagoas, Dourados, Corumbá e Ponta Porã. CVRL, Urso 22. De ponta a ponta é tudo nosso'.
Na sigla CVRL, as letras RL fazem referência a Rogério Lemgruber, conhecido como “Bagulhão'. Ele foi ligado a crimes como roubos a bancos, homicídios, sequestros e tráfico de drogas, além de ter participado da formação da Falange Vermelha, grupo apontado como antecessor do atual Comando Vermelho. O nome Comando Vermelho Rogério Lemgruber é utilizado como homenagem ao criminoso.
Também foram divulgadas mensagens com teor de exaltação ao Comando Vermelho.
O termo “PCCU' aparece em publicações atribuídas a rivais do Primeiro Comando da Capital.
Outra arte afirma: “MS é tudo nosso. TD2 passa nada'.
Quinta publicação apresenta um suposto comunicado direcionado à comercialização de drogas: “Informativo: proibido vender droga se não for a nossa do Comando Vermelho MS. Se desacreditar vai ficar de exemplo. Já estamos passando a visão. CV MS. Cassilândia. Inocência.'
As mensagens representam uma reivindicação de domínio feita pelos responsáveis pelos perfis.
Os vídeos publicados junto às listas utilizam músicas com referências diretas ao Comando Vermelho, efeitos sonoros semelhantes a disparos de arma de fogo e letras com ameaças contra rivais.
Entre os trechos utilizados estão: “Se encostar na tropa vai tomar tiro na cara. Pode correr'; “Arrebenta, arrebenta tudo, meu irmão'; e “Sequência, Comando Vermelho. É o Comando Vermelho, mané'.
Outras gravações apresentam frases como: “Se você não acreditou, polícia toma na bunda'; “Deixa eles peitar pra vê que os crias aqui é tiroteio, nós é Comando Vermelho, manda eles botar a cara'; e “Último que nós tentou foi morar no cemitério'.
O conjunto das postagens combina ameaças diretas, propaganda da organização criminosa e mensagens contra integrantes de facções rivais e forças policiais.
Homicídio e atentado - Gustavo Loschiavo Araujo, de 29 anos, foi assassinado a tiros no sábado (25), na Rua Guilherme Bezerra, nas proximidades do Clube da Terceira Idade, no Bairro Laranjeiras, em Cassilândia.
Conforme o boletim de ocorrência, a Polícia Militar foi acionada para atender ao homicídio. Testemunha informou que conduzia um Volkswagen Gol e que Gustavo estava dentro do veículo.
Segundo o relato, o motorista desembarcou, enquanto a vítima permaneceu no automóvel. Nesse momento, um homem em uma motocicleta de cor escura, vestindo camisa branca, aproximou-se e efetuou vários disparos contra Gustavo.
Depois do ataque, o atirador fugiu pela Rua Adaias Marques Moreira e não foi localizado.
A companheira e a mãe da vítima disseram à polícia que Gustavo já havia cumprido pena no sistema prisional, mas que, após deixar a prisão, não voltou a se envolver em práticas criminosas.
As familiares também relataram que ele vinha sendo ameaçado de morte por integrantes de organizações criminosas.
A imagem de Gustavo foi publicada no perfil, nesta segunda-feira, dois dias depois de ele ter sido assassinado. Na postagem, a fotografia aparece marcada com um grande “X' vermelho e a palavra “Eliminado'.
Ainda nesta segunda-feira, outro homem que afirmou ter visto seu nome entre os alvos divulgados nas redes sociais sofreu um atentado a tiros, também em Cassilândia.
A Polícia Militar foi acionada depois que uma família relatou ter sido alvo de disparos em sua residência. Conforme o boletim de ocorrência, o morador estava no imóvel com familiares quando percebeu a presença de alguém na varanda.
Ao se aproximar da porta para verificar quem havia chegado, ele viu um homem apontando uma arma de fogo em sua direção. O suspeito efetuou um disparo, que atingiu a parede da varanda.
O morador correu para o interior da residência para se proteger. Durante a fuga, ouviu o autor gritar: “Não corre não, volta aqui!'.
Segundo o registro policial, o suspeito entrou no imóvel e chegou até a sala, onde encontrou a mãe do alvo. Diante da reação da mulher, ele desistiu da ação e fugiu na motocicleta utilizada no ataque.
A testemunha descreveu o atirador como um homem de estatura mediana, usando roupas pretas, capacete com a viseira aberta e um curativo na região do supercílio esquerdo.
Questionado sobre uma possível motivação, o alvo contou aos policiais que, por volta de 2020, teria sido “batizado' no PCC. Por esse motivo, acredita que o atentado esteja relacionado à disputa entre organizações criminosas.
Ele também afirmou que, dias antes do ataque, soube, por meio de publicações no TikTok, que seu nome aparecia em uma lista de pessoas marcadas para execução em Cassilândia.
Durante a vistoria, a equipe policial constatou uma marca compatível com impacto de projétil de arma de fogo na parede da varanda. O projétil e eventual estojo de munição, entretanto, não foram encontrados.
Para preservar a segurança dos moradores, as vítimas foram levadas para passar a noite em um hotel. Nenhuma delas apresentava ferimentos aparentes.
Em diligências conjuntas, equipes da Polícia Militar e da Polícia Civil analisaram imagens de câmeras instaladas nas proximidades da residência. Os registros indicaram que dois homens participaram da ação. Um deles usava camiseta bege e o outro vestia camiseta preta.
Os policiais também procuraram informações no hospital da cidade para verificar se alguma pessoa havia recebido atendimento recente por ferimento na região do rosto, devido à descrição do curativo no supercílio do suspeito. A informação não havia sido confirmada até o registro da ocorrência.
Foram realizadas buscas nas imediações, mas os autores não foram localizados. O boletim foi encaminhado à delegacia para investigação e adoção das medidas cabíveis.
A eventual relação entre o atentado, o assassinato de Gustavo e as listas divulgadas nas redes sociais ainda é apurada pelas autoridades.
A reportagem solicitou posicionamento à Sejusp (Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública), à Polícia Militar e à Polícia Civil sobre a circulação das listas, a possível guerra entre facções criminosas e as medidas adotadas para identificar os responsáveis pelas ameaças e proteger as pessoas citadas. O jornal aguarda retorno.
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