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Lembra dele? A história improvável do brasileiro que lutou contra a balança e virou ídolo na Alemanha
Fenômeno no Guarani dos anos 90, Aílton fez história no Werder Bremen, foi artilheiro da Bundesliga e transformou brincadeiras com o peso em motivação: "Querem diferente? Contratem um modelo"
GLOBOESPORTE.COM / GUILHERME XAVIER
Uma das histórias mais improváveis de um jogador de futebol brasileiro é pouco conhecida e envolve a luta contra a balança. Revelado pelo Mogi Mirim e um dos destaques do Guarani nos anos 90, Aílton Gonçalves foi campeão e artilheiro da Bundesliga em 2004 pelo Werder Bremen, desbancando até mesmo o intocável Bayern de Munique, mesmo estando acima do peso.
Aílton viveu décadas atrás um calvário que nomes como Walter, ex-Goiás e Fluminense, viveram recentemente. Em entrevista ao ge, ele revelou que perdeu oportunidades de brilhar nos mais diferentes mercados por causa da sua estrutura corporal.
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O sobrepeso serviu como motivação para Aílton. De acordo com o ex-jogador, sempre que se sentiu preterido por isso, transformou a frustração em gols para suas equipes.
E não foi só no Werder Bremen que ele teve problemas. Aílton rodou por diversos mercados e contou que também teve que se explicar no Besiktas, da Turquia, clube pelo qual atuou em apenas 18 jogos justamente por causa dos problemas com a balança.
— Eu fui bastante criticado na época, porque eles não aceitavam um jogador de futebol com uma estrutura corporal igual a minha, mas acabou se tornando uma motivação enorme para dentro de campo, eu demonstrar quem eu era. Quando eles falavam, eu ficava com mais raiva e demonstrava mais ainda dentro de campo — disse.
A longa entrevista exclusiva de Aílton ao ge reuniu outros assuntos, como a passagem histórica pelo Werder Bremen, uma dívida que quase leiloou seu troféu de artilheiro da Bundesliga e a oportunidade frustrada de vestir a camisa da seleção do Catar, algo que renderia 1 milhão de dólares ao jogador na época.
O início de tudo
Aílton começou a carreira no Estudante de Timbaúba, clube modesto de Pernambuco em cidade que fica a 100 quilômetros de Recife. Um bom estadual levou o atacante de apenas 16 anos para o Mogi Mirim, onde conviveu com jogadores importantes da época.
Naquele momento, o Mogi Mirim era o “Carrossel Caipira' que encantou o futebol paulista no início dos anos 90, com nomes como Rivaldo, Valber e Leto. Depois, Aílton foi artilheiro do Campeonato Gaúcho pelo Ypiranga de Erechim, chegou a ser treinado por Abel Braga no Internacional, embora fora de posição, e integrou o elenco do Santa Cruz.
Mas ele só voltou a sorrir, como centroavante, no Guarani. Foi em Campinas que Aílton reencontrou a sua melhor versão e desandou a fazer gols no Campeonato Brasileiro de 1997. Aí sim, começou a trilhar o caminho que o levaria para o Werder Bremen, onde viveria seu auge.
Antes de desembarcar na Alemanha, contudo, a vida de Aílton teve uma parada no México. Mesmo que o clube alemão tivesse apresentado proposta ao Guarani, o Tigres fez proposta antes e levou o atacante, diante do rebaixamento do Bugre e da necessidade de vendas.
Ele ficou seis meses no México e, depois, foi vestir a camisa do Werder Bremen. O negócio se concretizou por conta de uma "paixão", durante o período de recesso entre o Apertura e o Clausura.
— Eu fui parar no Bremen porque o treinador se apaixonou por mim. Coisa do destino mesmo. Eu acho que Deus fala assim, ó, teu caminho é esse, não importa o tempo, mas tu vai seguir. Teve um pouco de estresse, o clube não queria liberar, o presidente gostava muito de mim, a torcida também. Eu estava bem no México, mas eu queria algo mais, queria crescer um pouquinho mais profissionalmente — explicou.
Fazendo história em Bremen
Foram seis anos na equipe de Bremen. Nesse período, poucos jogadores marcaram mais gols que Aílton na Bundesliga. Isso atraiu a atenção de outros clubes europeus, como o Parma, que contava com nomes como Buffon e Hernán Crespo. Todas as propostas, no entanto, foram recusadas. O atacante alinhou com a diretoria que não deixaria o clube.
Ele tinha o peruano Cláudio Pizarro como dupla no início da caminhada, uma parceria que se formou e rapidamente deu frutos. Ao contrário de Aílton, no entanto, o companheiro foi vendido ao Bayern de Munique e se tornou um rival. Ou seja, a partir de 2000, o brasileiro se tornou a grande referência do ataque do Werder Bremen.
Demorou três anos para que Aílton vivesse o seu auge. A temporada 2003/04 teve o Werder Bremen ganhando corpo ao longo da competição.
No confronto direto contra o Bayern, em Munique, com o Werder Bremen em vantagem na liderança por seis pontos, Aílton pediu a palavra e disse que ia balançar as redes e decidir o jogo. Dito e feito: com um tapa de rara felicidade com a perna esquerda, o atacante encaminhou a vitória por 3 a 1 e o título alemão.
— Quando a gente chegou em Munique, no hotel, a gente se reuniu com os jogadores, pediram para eu falar e eu falei: "Amanhã eu vou fazer um gol e vou decidir o jogo". Eu decidi toda a temporada, por que eu não vou decidir amanhã? Então esse gol foi especial porque eu já tinha esse gol antes do jogo — disse.
Além da Bundesliga, Aílton conquistou a Copa da Alemanha naquela temporada, sua segunda pelo clube — a outra foi em 1998, logo no primeiro ano em Bremen. Com a magia e os títulos, o atacante se tornou ídolo incontestável.
Porém, os caminhos da carreira poderiam ter estremecido a relação. Aílton foi para o Hamburgo, rival do Werder Bremen. O ex-jogador conta que só percebeu o tamanho do carinho dos torcedores dez anos depois, em 2014, quando participou de um jogo de despedida na cidade.
— Antes do meu jogo, eu fui participar da despedida do Frings, um outro alemão lá do Bremen. Quando eu entrei no campo, me anunciaram, o estádio quase cai. A emoção dos torcedores estava ali. Aí a mesma empresa que organizou o jogo me procurou depois, falaram que eu tive mais aplausos do que o próprio jogador que estava se despedindo. Queriam fazer o meu jogo de qualquer jeito.
Conseguiram, e Aílton teve a sua despedida. Emocionado, ele contou que recebeu a renda do jogo, que contou com mais de 40 mil pessoas no Weser Stadium. Mesmo aposentado e fora de forma, ele se despediu em grande estilo e marcou três gols na vitória do seu time, para delírio da torcida.
— Marcou demais, não só pela parte financeira, mas pelo respeito, pelo carinho que a torcida teve por mim e compareceu no estádio. Não podia deixar de fazer os gols. Tá louco? Na minha casa, vieram pro estádio só para me ver.
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Presente especial
Em meio à grande fase na Alemanha, Aílton vivia a expectativa de ser convocado pela Seleção treinada por Carlos Alberto Parreira para a Copa América de 2004, vencida pelo Brasil em jogo épico contra a Argentina, que terminou nos pênaltis. No fim das contas, o atacante não foi chamado e se sentiu preterido.
Em meio a isso, recebeu uma proposta inusitada da Federação de Futebol do Catar: se naturalizar e defender as cores cataris por 1 milhão de dólares, cerca de R$ 3 milhões na cotação da época e quase R$ 9 milhões corrigidos pela inflação. Aílton aceitou, viajou para Doha e se encontrou com o sheik, que lhe deu um presente especial.
— Eu ainda tenho o Rolex que eles me deram. Tivemos uma reunião, acertamos as bases de contrato, que era quatro anos para a Copa, se classificasse ou não.
O problema é que a Fifa vetou a naturalização, alegando que Aílton não havia jogado no Catar por determinado tempo. A decisão chateou o jogador e também abriu o precedente para discussões sobre sua situação financeira.
A discussão aumentou quando, três anos mais tarde, um empresário ameaçou leiloar o troféu de artilheiro da Bundesliga de Aílton para quitar uma dívida de comissão de transferências. A história dominou as manchetes da imprensa alemã. Aílton diz que tudo não passou de um mal entendido.
Quando se transferiu para o Hamburgo, em negociação que estremeceu um pouco a relação com a torcida do Werder Bremen, na época, Aílton diz ter confiado em um empresário que, mais tarde, traiu a parceria e cobrou uma dívida de 300 mil euros do jogador.
— Esse empresário recebeu uma comissão de 100 mil euros do Hamburgo, mas também queria receber uma comissão minha, pelo contrato que eu tinha no Hamburgo, que era um contrato alto que daria pra ele também uma margem de 100 mil euros. Mas não era meu representante, ele foi contratado pelo Hamburgo, não por mim. Ele usou essa má fé. Quando eu fui embora do Hamburgo, publicou uma nota dizendo que eu estava devendo, algo que não era verdade.
A situação foi resolvida na Justiça, e Aílton frisou que não vive problemas financeiros. Pelo contrário, manteve o troféu, as glórias e tudo que conquistou com o suor deixado dentro de campo.
— Como eu estava fora da Alemanha, e um advogado começou a falar que seria complicado, porque perdi os papéis. O cara apareceu com um documento dizendo que era seu empresário na época, mas eu neguei. E esse documento demorou bastante para ser entendido de outra forma. Então ele passou um bom tempo com esse meu prêmio, que era o artilheiro, o canhão que a gente ganha, e não conseguiu vender.
— A Justiça decidiu que a peça não poderia ser vendida e que as partes chegassem a um acordo. Ele não quis acordo, mudou de telefone, ficou um tempão sem falar comigo, não deu mais notícia, o cara desapareceu, parecia um ninja — explicou Aílton.
Hoje, Aílton alterna entre a Alemanha e a Paraíba. Ele é embaixador do Werder Bremen e também tem o sonho de agenciar alguns atletas. Recentemente, o ex-jogador indicou jovens que estão sendo aproveitados pelo São Caetano. Entre idas e vindas, o futebol segue fazendo parte de sua vida.



