• Terça, 18 de Agosto de 2026

"Devia estar na passarela, não aqui": a advogada que enfrenta o machismo e os cartolas no futebol

Marcada por acidentes na vida e nos tribunais, Mariju Maciel teve ex-marido jogador como primeiro cliente e se tornou defensora do topo à base da pirâmide: "Para alguns, eu adoro que me odeiem"

GLOBOESPORTE.COM / CAHê MOTA E RAPHAEL ZARKO


Mariju Maciel, advogada gaúcha enfrenta clubes e SAFs por proteção aos atletas — Foto: ge e arquivo pessoal

Uma fratura grave na coluna. Cirurgias com risco de vida e sequelas. Uma carreira que virou do avesso mais de uma vez. Mariju Maciel atravessou acidentes pessoais e no trabalho para chegar aos mais de 20 anos de atuação entre tribunais e gabinetes do futebol.

Advogada do técnico Felipão, do goleiro Cassio, do ex-atacante Rafael Sóbis, mas também de jogadores de todas as divisões e daqueles sem divisão, a gaúcha que desafia cartolas e os ambientes machistas do futebol se acostumou a enfrentar as adversidades desde que viu seu então marido, o centroavante Gilson "Cabeção", preso a um clube mexicano, sob contrato e sem receber salário.

— Eu escrevi uma carta à mão e mandei por fax para o reitor da universidade de Tigres. Eu disse que era esposa de um jogador, estava grávida no México e tinha um filho em casa já. Mas estávamos sem ter do que viver, sem ter o que comer e que eu pedia que ele fosse humano de, pelo menos, permitir que ele jogasse — conta Mariju.

— Dois dias depois ele mandou a liberação. E aquilo, assim, me estimulou: "Cara, dá para fazer".

A liberação do "passe" — o regime trabalhista do futebol ainda era outro no início dos anos 1990 — permitiu que o hoje ex-marido de Mariju voltasse a jogar profissionalmente. E deu empurrão na futura transição de carreira da professora de educação física e de ginástica para o Direito.

Mariju conciliou a faculdade de Direito com as andanças na carreira de Gilson. Mas um acidente em 2002, ainda como treinadora de ginástica, a transformou. Uma atleta caiu em cima dela, que tentou segurar e levou uma "chicotada" no pescoço.

— O médico me chamou e me disse que eu tinha 5% de chance de sobrevivência. E eu me lembro perfeitamente de ter pedido para chamarem meus filhos, porque eu queria, entre aspas, vê-los, porque se eu fosse morrer, eu queria me despedir. Ainda tinha muita chance de tetraplegia — recorda Mariju.

Com muita fisioterapia e sequelas depois, em 2019, depois de sentir reações estranhas do corpo — deixou cair um garfo na mesa, tropeçou na rua —, consulta com o médico Joaquim Grava, do Corinthians, atestou a medula da coluna 70% rompida. Era o desgaste da cirurgia de 17 anos antes.

— Eu fui para outra cirurgia com risco de vida, com risco de tetraplegia e estou aqui hoje. Então, assim, não pode ser em vão. Eu vim para a vida para jogar, eu não vou assistir na arquibancada. Não vou assistir na arquibancada — enfatiza.

Intimidação

Em 2009, num julgamento para defender Jefferson, jogador do Vasco que teria sido escalado de maneira irregular no Campeonato Carioca, Mariju ouviu de um auditor no Tribunal de Justiça Desportiva do Rio de Janeiro aquela que considera uma das grandes ofensas da carreira.

— Fiquei quatro dias dentro de um hotel, trancada, devorando aquele processo. Fiz a sustentação oral e um auditor me olhou e disse: "Doutora, a senhora devia estar numa passarela, não tinha que estar aqui". Aquilo foi um desrespeito tão grande comigo. Se ele estava debochando ou não, era inaceitável que ele me tratasse daquela forma.

No dia a dia, Mariju vê o machismo aparecer muito mais no tratamento dos cartolas que a tentam intimidar — "isso sim acontece, de muito presidente, de elevar a voz, mas também eu viro uma chave que eu elevo mais ainda". Ou nas redes sociais quando tem casos de grande repercussão.

Ela esteve envolvida em três deles: em 2009, no acidente de ônibus do Brasil de Pelotas, com três mortes. Em 2016, com a queda do avião da Chapecoense, com 71 mortes. E com os 10 garotos do Ninho do Urubu, no centro de treinamento do Flamengo . Mariju defendeu diversas famílias nos três trágicos casos — e não trata os casos como acidentes.

— Quando você vai ver, foram três negligências dos clubes — aponta, contando que precisou fechar o Instagram por ofensas diversas quando cobrava os dirigentes do Flamengo por melhor tratamento para a família de Pablo Henrique.

Com aprendizado da força da mãe professora, ela brinca que se transforma em leoa para defender os seus atletas e peitar dirigentes país afora. É crítica contumaz das mais de 30 recuperações judiciais de clubes de futebol — em todas, com clientes —, da lei das SAFs, que vê como diminutivo de "safado" e do sistema que permite deságio superior a 90% em dívidas trabalhistas ao longo de muitos anos.

As brigas pelos tribunais refletiram na carreira de treinador do ex-marido e no desgaste do casamento de mais de 30 anos que terminou e na tentativa do filho seguir carreira de jogador. Muitos presidentes e diretores de clubes se recusavam a seguir negociações ao descobrirem a relação com Mariju.

"Esse garoto que vamos contratar é filho da Mariju? Está louco. A mulher coloca oficial de Justiça em todo jogo", relata a advogada.

— Para alguns (dirigentes), eu adoro que me odeiem. Porque o cara que é safado, o cara que é desonesto, o cara que é corrupto vai encontrar uma resistência muito grande comigo e eu vou fazer de tudo para conseguir receber do clube. Então, tenho uma gama bem grande de inimigos, mas esses que me odeiem. O que eu vou ficar triste se o correto não gostar de mim, aí vou ver o que fiz de errado — diz Mariju Maciel.

"Pobres meninos ricos"

Mariju tem mantra de quem viu de perto a ascensão e as dificuldades da vida de jogador. O ex-marido foi artilheiro da Copa do Brasil de 1993 e vendido por alto valor ao México. Lá, sofreu para seguir a carreira. Depois, pulou de clube em clube. Hoje, ele segue a carreira de treinador.

— Entrou ali (no escritório) para mim é Pelé. Não me interessa se ele está no menor clube do Brasil ou no maior. Se ele é o Pelé ou se é o João das Couves, vai ter o melhor tratamento. E como eu vim do esporte, eu era ginasta, eu quero ganhar. Não me interessa se é R$ 1 ou se são 10 milhões. Porque eu treino todo dia para ganhar — diz Mariju.

Na sala onde trabalha, além de fotos dos filhos e do atual marido Rodrigo Heffner, Mariju estampa orgulhosamente — bem próximo da frase "a sorte favorece os ousados" — citação de um ministro do Tribunal Superior do Trabalho a um artigo dela:

"...o país conta atualmente com cerca de 22 mil jogadores de futebol... por volta de 3.500 estão empregados e 18.500, desempregados. Dentre aqueles, empregados, 85% ganharam salários de, no máximo, 3 salários mínimos, 13% ganham até 20 salários mínimos apenas 2% ganham acima disso", diz o trecho de acórdão com citação à Mariju no TST.

Cassio, em abril de 2019, dedicou vitória nos pênaltis pelo Corinthians contra o Santos para Mariju, a quem trata como quase como mãe. Foi em seguida à segunda cirurgia de Mariju. A advogada percebe as lacunas na formação dos garotos, mas não só nos meninos que conheceu no esporte.

— Eles não tiveram essa proteção ao longo da vida. Não é um, não são dois. A maioria, do mais pobre ao mais rico. Eu brinco que eles são pobres meninos ricos. Os que chegaram à riqueza financeira continuam sendo pobres meninos ricos. Mas o quanto da vida é tirada? Eles não têm fim de semana, não têm vida social. E aí diz assim: "mas quando vai para a noite se perde". Mas eles não viveram o que todo adolescente vive. A maioria está lutando por salário atrasado, por reconhecimento, por contratos de três meses. O que mais me entristece é exatamente a visão que o povo tem dessa profissão. A ponto de ser a profissão mais escolhida de todos os meninos do país. E ninguém sabe que a realidade ela não vai ser de glamour. Ela vai ser de sofrimento, de resiliência.

Sem citar o nome de um caso em discussão na Justiça ainda, Mariju conta que um atleta que joga num time do Nordeste pediu rescisão depois de pedra atravessar o vidro do carro e quase atingir sua filha na saída de um estádio. O juiz deu ganho de causa ao clube e indenização de R$ 2 milhões — ou seja, o jogador teria que pagar ao clube. O caso ainda está em discussão na Justiça.

— É inaceitável isso. Qualquer outra profissão, essas empresas seriam fechadas pelo Ministério Público. Seriam interditadas, mas no futebol nada acontece.



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