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Conheça o ex-jogador por trás do sucesso de SAFs e com três acessos em quatro anos no Brasileirão
Ex-atacante Fábio Mineiro lidera transição de quatro clubes de Minas para o modelo de SAF e projeta investimento milionário para levar o Uberlândia à elite nacional
GLOBOESPORTE.COM / LUíS FELLIPE BORGES
Em menos de uma década, dois times de Minas Gerais se tornaram SAF e subiram de prateleira no futebol nacional. O Athletic se profissionalizou em 2018 após quase meio século e saiu da última divisão do Estadual para chegar à Série B. No Triângulo Mineiro, o Uberlândia deixou a fila após 23 anos e conseguiu o acesso à Série C na primeira temporada sob o novo modelo de gestão.
O que a trajetória das duas equipes tem em comum? A presença do empresário Fábio Mineiro como investidor. Ex-atacante com passagem pela base do Cruzeiro e com gol em Libertadores, Fábio se tornou um dirigente influente e, aos 38 anos, já atuou na transição de quatro clubes mineiros para SAF - todos eles estão na primeira divisão do estadual.
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No Uberlândia, Fábio conta com outros três acionistas majoritários no comando da SAF, que tem expectativa de investir até R$ 150 milhões para o clube chegar à Série A do Brasileirão pela primeira vez desde 1985.
Em entrevista ao ge, o empresário falou sobre os "segredos" para conquistar tantos acessos e destacou que a experiência como jogador o ajudou a entender as necessidades dos atletas e a desenvolver uma forma de gestão eficiente para as SAF.
— Eu era muito observador por onde passava, e essa experiência de cada cidade, de cada país, me agregou muito. Essa experiência que eu vivi dentro e fora do campo me fez perceber que é preciso colocar um setor profissional muito mais abrangente.
"O Brasil tem um potencial gigantesco, mas muitos clubes eram administrados com amadorismo".
Nos bastidores, Fábio Mineiro é um dirigente de personalidade forte e intenso no trato com jogadores, treinadores e com a torcida. Ele não costuma ter "papas na língua" em entrevistas e chegou a criticar torcedores que vaiaram o Uberlândia em determinado momento da temporada. Ao longo do ano, também trocou o comando técnico do time em três oportunidades até atingir o nível desejado com Danilo.
O empresário destacou que a presença em todos os processos do clube faz parte do estilo dele como dirigente. Ele também ressaltou que preza pela autonomia nas decisões e que não se esconde quando precisa tomar atitudes rápidas que julga necessárias.
"O futebol também é muito estressante, ele é uma máquina de triturar pessoas. Eu estou dentro do CT todos os dias, viajo com o time, estou participando de tudo".
— Enquanto alguns estão passeando, a gente está trabalhando com foco e disciplina. Eu aprendi a trabalhar no financeiro, na administração e no futebol. Eu sei que, com o financeiro bom, eu não vou atrasar salário, vou pagar um prêmio bom, um bicho melhor, eu vou trazer um bom jogador. As decisões são feitas por mim, e muitas decisões do futebol não se tem que ficar esperando. Por mais que você tenha um planejamento financeiro e tenha que executá-lo, tem decisões que tem que ser feitas na hora. Se toda hora você tiver que ficar fazendo reunião, chamar conselho para tomar essa decisão, você perde o timimg. O sucesso do Fábio está atrelado a esse timing — afirmou.
Atacante de Libertadores
Natural de São João del Rei, Fábio Ernesto Lima de Campos começou a jogar futebol na cidade-natal. Na base, teve uma passagem rápida pelo sub-15 do Cruzeiro antes de retornar a São João del Rei. Depois, assinou com o Pogon Szczecin, da Polônia, e deu início a uma peregrinação por vários países.
Em 2011, ele foi contratado pelo Jorge Wilstermann, da Bolívia, para jogar a Libertadores e marcou um gol contra o Jaguares, da Colômbia. Naquela edição, enfrentou o Internacional no Beira-Rio e em Cochabamba.
Na carreira, Fábio também atuou em Chipre, Moldávia, Irã e Coreia do Sul. No Brasil, jogou na Paraíba, no Rio de Janeiro e em São Paulo, com passagens por clubes como Macaé, Cabofriense e Desportivo Brasil.
A última experiência como jogador foi no futebol da Grécia. No país europeu, o ex-atacante enfrentou problemas com salários atrasados, deixou o clube em que atuava e, ao retornar ao Brasil, encerrou a carreira de atleta.
De volta à cidade de São João del Rei, Fábio Mineiro passou a trabalhar nos empreendimentos da família na região do Campo das Vertentes. O grupo familiar administra um hotel e restaurantes, e ele também montou lojas para venda de doces e açaí. Nessa época, o futebol deixou a cabeça de Fábio - mas não por muito tempo.
Athletic
Em 2018, o futebol voltou a chamar Fábio Mineiro, mas para uma nova função. O ex-atacante assumiu o cargo de gerente de futebol do Athletic Club, time de São João del Rei que não disputava o Campeonato Mineiro desde 1969. A meta era recolocar a cidade no cenário do futebol mineiro, e a equipe se inscreveu na Segunda Divisão do Estadual, que equivale ao terceiro nível de Minas Gerais.
Logo na primeira competição profissional em cinco décadas, o Athletic ficou com o vice-campeonato, atrás do Coimbra, e subiu para o Módulo 2. Esse foi o primeiro acesso da carreira de Fábio Mineiro como dirigente e o passo inicial da reconstrução do Esquadrão.
Após permanecer no Módulo 2 em 2019, o Athletic foi vice-campeão da competição em 2020 e subiu para o Módulo 1 do Mineiro.
No ano seguinte, o time chamou a atenção no cenário nacional pela primeira vez ao anunciar a contratação do atacante uruguaio Loco Abreu, aos 44 anos. Na reta final da carreira, Loco atuou em apenas quatro partidas pelo time alvinegro e se despediu em março de 2021.
Mesmo assim, a repercussão atingida pela contratação demonstrou uma das marcas do trabalho de Fábio Mineiro: a busca por colocar o clube em evidência. Após Loco, nomes como Ricardo Oliveira e Sassá também passaram pela equipe.
Em dezembro de 2021, o Athletic anunciou a transformação do clube em uma Sociedade Anônima do Futebol. Fábio Mineiro seguiu à frente do clube no comando de 51% das ações, enquanto os outros 49% foram vendidos para a empresa V2 Participações. A divisão do quadro societário se modificou ao longo dos anos, mas manteve o ex-atacante no controle do futebol até 2025.
O investimento ajudou o Athletic a se desenvolver dentro e fora do campo. Uma das prioridades da nova gestão foi reformar o estádio Joaquim Portugal, que tinha capacidade para menos de quatro mil pessoas. O clube ainda anunciou a busca por um novo espaço para treinamentos - o CT foi finalizado em 2024 em uma pousada em Santa Cruz de Minas.
A partir daí, a ascensão do Athletic foi meteórica. O clube subiu da Série D para a Série B de forma consecutiva entre 2023 e 2025, igualando feitos de CSA, Juventude e Cuiabá. No ano passado, o time escapou do rebaixamento na última rodada e permaneceu na segunda divisão nacional.
Ao mesmo tempo em que comandava o Athletic, Fábio auxiliou na constituição de SAFs em outras cidades de Minas Gerais. Fundado em 2022, o Itabirito surgiu já como clube-empresa, enquanto o Pouso Alegre assumiu o novo modelo em 2024, após ser rebaixado da Série C para a Série D. Hoje, ambos os clubes estão na elite do Mineiro.
O conto de fadas entre Fábio Mineiro e Athletic começou a ruir em fevereiro de 2025. A F&P Gestão Esportiva, empresa ligada à Fábio, acertou a venda da maioria das ações da empresa para Thássilo Soares, um dos agentes do atacante Vini Jr que se tornou o novo controlador do clube mineiro.
A chegada de Thássilo diminuiu a influência de Fábio Mineiro no clube e levou a divergências internas entre a antiga e a nova gestão. O dirigente afirmou que chegou a tentar recomprar as ações para retomar o controle da SAF, mas a proposta foi negada pelo agente de Vini Jr.
O conflito durou até o dia 9 de maio de 2025, quando Fábio assumiu de vez a insatisfação e anunciou a renúncia do cargo de gerente de futebol do clube.
— Tomei a decisão no momento certo. Quando você não tem mais aquele tomada de decisão que você sempre teve, com as suas ideias, é hora de sair. (...) Foi muito rápido. Houve muitas mudanças que me mostraram que era o momento de não continuar — disse o dirigente na época.
Uberlândia
Mesmo com a saída conturbada do Athletic, o sucesso de Fábio Mineiro fez com que ele recebesse convites de outros times de Minas Gerais e do Brasil, interessados em repetirem a ascensão meteórica do clube de São João del Rei.
Segundo o empresário, o Pouso Alegre era o destino mais provável por conta da proximidade com a diretoria do clube do Sul de Minas, com quem havia trabalhado na constituição da SAF no ano anterior. No entanto, um contato da diretoria do Uberlândia mudou os planos de Fábio.
— Eles me ligaram e perguntaram se eu tinha interesse de avaliar a SAF do Uberlândia. Era um projeto que eu sempre vi com bons olhos. Quando eu vinha jogar em Uberlândia, eu me perguntava por que esse time e essa cidade não vão para frente no futebol — revelou Fábio ao ge.
Campeão da Taça CBF, atual Série B, em 1984, o time do Triângulo Mineiro vivia crise esportiva e financeira desde o início deste século. A última participação do clube na Série C havia sido em 2003, e o clube acumulou cinco rebaixamentos no Estadual desde então.
Apesar do desempenho esportivo ruim, o endividamento baixo e a estrutura do clube - que já contava com o Estádio Parque do Sabiá e o CT Ninho do Periquito - chamaram a atenção do empresário. A notícia do interesse de Fábio Mineiro em adquirir o clube animou a torcida, desmotivada pelas décadas sem resultados expressivos.
Antes mesmo de concretizar a compra da SAF, o ex-atacante investiu em reforçar o elenco do Uberlândia para a Série D do ano passado. A aquisição oficial de 90% das ações ocorreu no dia 23 de junho de 2025, com apenas um voto contrário entre 119 sócios.
Com outros quatro acionistas, Fábio Mineiro assumiu a presidência da SAF com a promessa de investimento de R$ 100 milhões em 15 anos - o valor pode chegar a R$ 150 milhões se o clube chegar à Série A.
A gestão do futebol do Uberlândia foi conduzida de forma conjunta entre associação e SAF até agosto de 2025. Após a eliminação do clube na primeira fase da Série D, a nova administração assumiu de vez o comando do clube.
Os investidores definiram a reforma do Centro de Treinamento Ninho do Periquito e o fortalecimento das categorias de base como prioridades do trabalho. A primeira promessa foi cumprida ainda em 2025, com a realização de diversas melhorias no CT.
No mesmo ano, o clube promoveu seletivas para preencher as categorias de base, que estavam desativadas havia três anos por questões financeiras. Atualmente, o Uberlândia disputa competições oficiais da FMF do sub-13 ao sub-20, e conquistou o primeiro título da SAF em julho deste ano: o time sub-15 levantou o troféu da Copa Brasileirinho, vencendo o Atlético-MG na final.
A marca do clube ainda ganhou um impulso fora do campo. Em abril de 2026, o time anunciou que mudaria de nome após vender os naming rights para o aplicativo de mobilidade urbana Uber. A parceria aproveitou a coincidência no nome da cidade, do clube e da empresa, e o Uberlândia passou a estampar o logotipo do aplicativo no uniforme dos jogadores.
Uma camisa comemorativa também foi lançada e fez sucesso entre os torcedores. A campanha de marketing foi reconhecida internacionalmente e acabou premiada com o Leão de Ouro no festival internacional Cannes Lions, uma das principais premiações da publicidade mundial.
Dentro de campo, a temporada 2026 do Uberlândia conta com jogadores conhecidos no futebol nacional. O tripé ofensivo que comandou o time na campanha do acesso é formado pelo meia Tomas Bastos, campeão da Série B pelo Botafogo em 2015 e artilheiro do Uberlândia na Série D; o ponta Marcos Calazans, ex-Fluminense e São Paulo; e o atacante Kayke Moreno, que tem passagens por Flamengo, Fluminense e Santos.
Com o elenco reforçado, o Uberlândia cumpriu a meta e subiu à Série C. O confronto do acesso contra o CSA ainda começou de forma histórica: mais de 21 mil torcedores encheram o Parque do Sabiá para acompanhar a vitória do time alviverde por 1 a 0, no que foi o maior público do clube em casa na década.
Depois da vitória no Parque do Sabiá, o Uberlândia não se intimidou com a torcida do CSA no estádio Rei Pelé e mostrou o motivo de ser o melhor visitante da Série D do Campeonato Brasileiro. Em uma partida irretocável, o Verdão resolveu a parada ainda no primeiro tempo. Com gols de Da Silva e Max Miller, venceu por 2 a 0 e confirmou o acesso.



