• Quarta, 26 de Agosto de 2026

Com ritmo de interior e preço de capital, Campo Grande convence quem chega

Cidade se destaca pela qualidade de vida e infraestrutura, mas exige contas na ponta do lápis para equilibrar

MAURíCIO AGUIAR / CAMPO GRANDE NEWS


No centro de Campo Grande, as ruas se dividem entre quem vai às compras e quem se desloca para o trabalho (Foto: Henrique Kawaminami)

Com suas avenidas largas, ruas arborizadas e um ritmo que mistura a calmaria do interior com a infraestrutura de capital, Campo Grande surge como uma opção atraente para quem busca um recomeço no Centro-Oeste. No entanto, quem desembarca na Cidade Morena logo se depara com um dilema financeiro: manter a qualidade de vida exige contas na ponta do lápis para equacionar os gastos.

Segundo a instituição CustoDeVida.org, Campo Grande possui um dos menores custos de vida entre as capitais do Centro-Oeste, apesar da média mensal de gastos ser superior à média nacional: R$ 4,5 mil por pessoa, contra R$ 3,2 mil da média brasileira.

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A diferença coloca Campo Grande em um paradoxo: a capital sul-mato-grossense é menos cara para se viver em comparação com suas companheiras do Centro-Oeste, mas nem por isso se torna barata. Cuiabá, por exemplo, ex-companheira de Campo Grande quando tudo ainda era Mato Grosso, tem custo de vida de R$ 5,6 mil. Nessa comparação, a diferença populacional chama atenção. Segundo estimativas, Campo Grande possui 962 mil habitantes, contra 691 mil de Cuiabá.

O custo de vida campo-grandense aproxima-se do de Várzea Grande, segunda maior cidade de Mato Grosso. O que explica a Capital sul-mato-grossense ter valores levemente inferiores aos de praças vizinhas, mesmo concentrando uma população maior, são as particularidades de sua dinâmica econômica local.

De acordo com o CustoDeVida.org, “a moradia é acessível, as carnes têm preços competitivos pela proximidade com o polo pecuário, e o custo de serviços é moderado'. Já segundo o economista Eugênio Pavão, a dinâmica em Campo Grande é diretamente influenciada pela localização do município e sua centralidade, concentrando grande parte da população sul-mato-grossense.

“A dinâmica de preços é mais local do que nacional, sendo influenciada pelos costumes, hábitos e pela demanda regional. Campo Grande reflete bem isso: por concentrar boa parte da população de Mato Grosso do Sul, sendo a terceira maior capital do Centro-Oeste, a cidade acaba gerando uma forte pressão interna sobre o consumo e os preços desses serviços essenciais'.

Quem se mudou recentemente para a Capital sente esse equilíbrio delicado entre serviços essenciais e o supérfluo. Enquanto carnes e hortaliças se mostram ligeiramente mais baratas em relação ao estado vizinho, produtos de limpeza e passeios culturais pesam excessivamente no orçamento.

Isabelli Pinheiro teve experiências em diferentes cidades e estados. Natural de Cruz Alta, no Rio Grande do Sul, a jovem de 22 anos se mudou para Tangará da Serra, em Mato Grosso, para cursar a faculdade na Unemat (Universidade do Estado de Mato Grosso). Agora, no mestrado da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), escolheu Campo Grande como sua nova casa.

Apesar da proximidade dos estados, Isabelli observa diferenças entre as localidades, principalmente em bens essenciais, como comida e moradia. “O mercado aqui é muito parecido com o do Mato Grosso, mas tive boas surpresas em certos alimentos. Sinto que a carne é um pouco mais barata e acabo comprando muito mais verduras aqui, porque lá achava caro demais', completa.

No entanto, a percepção sobre a precificação dos alimentos em Campo Grande pode estar relacionada à comparação direta com as demais capitais do Centro-Oeste. A Capital sul-mato-grossense é a quinta mais cara do Brasil no quesito alimentação, com uma média de gasto mensal de R$ 1,2 mil por pessoa, ficando atrás de Brasília, Cuiabá, São Paulo e Rio de Janeiro.

Além disso, Campo Grande possui a oitava cesta básica mais cara do Brasil, com uma média de R$ 841. O preço dos alimentos na Capital de Mato Grosso do Sul, estado marcado pela produção agropecuária e hortifrutigranjeira, chama a atenção, mas o economista Eugênio Pavão explica que os alimentos produzidos em Mato Grosso do Sul não são destinados ao consumo local, mas sim aos mercados externos.

“O destino da produção do agronegócio é para regiões como a China, Europa, Oriente Médio, dentre outros, gerando dólares que ajudam a balança comercial do país, mas que tem parte dos lucros destinados a empresas estrangeiras. Ser o celeiro do mundo não propicia as benesses da produção, sendo os preços internacionais fator principal para decisões de investimentos por grupo do agronegócio', ressalta.

Com a alimentação sendo o principal foco de quem vive em Campo Grande, gastos considerados supérfluos, como lazer e cultura, acabam ficando em segundo plano. Ir ao cinema era uma das atividades favoritas de Isabelli quando morava em Tangará da Serra, mas, quando se mudou para Campo Grande, assistir a um filme na telona se tornou um “evento'.

“Eu e meu namorado gostamos muito de cinema, mas todas as vezes a gente falava: 'Meu Deus, vai dar quase 40 pila para ir num cinema!'. Quando você soma os ingressos e a comida, fácil, fácil vai R$ 200 numa única saída. Tem que se reestruturar financeiramente, porque se a gente vai um dia, já pensa: 'Pronto, esse mês não dá mais, não vamos sair mais nenhum dia'', completa.

A dor no bolso descrita por Isabelli ao planejar uma ida ao cinema reflete a mecânica da inflação sobre o orçamento das famílias. O economista Eugênio Pavão explica que os índices inflacionários são medidos a partir da POF (Pesquisa de Orçamento Familiar), que mapeia o peso de grupos como alimentos, habitação, transporte e lazer conforme a renda da população.

Em famílias de menor renda, os itens essenciais abocanham quase a totalidade dos recursos, deixando uma margem extremamente reduzida para despesas pessoais e entretenimento. “A estrutura de custos da Capital tem mais peso no consumo de bens e serviços mais essenciais, enquanto que lazer, cultura e outros bens mais supérfluos, tendem a terem peso inferior e portanto, menos gastos das famílias do que bens como saúde, custos de habitação e despesas pessoais', enfatiza.

Essa conta se reflete diretamente nos índices de acesso à cultura em Campo Grande. Segundo levantamento do Datafolha, em parceria com a consultoria JLeiva Cultura e Esporte, a cidade figurou na última posição entre as capitais brasileiras no acesso a atividades culturais. A pesquisa avaliou o engajamento da população em 14 modalidades, incluindo cinema, teatro, shows, museus e feiras literárias, e a Capital Morena registrou avaliação negativa em todas as categorias pesquisadas.

Apesar dos custos e dos desafios do cotidiano, a mestranda ressalta que a Capital se destaca pelo acolhimento. Ela conta que os familiares e amigos que vieram visitá-la em Campo Grande elogiaram a estrutura da Cidade Morena e demonstraram o desejo de voltar.

“Nunca conheci ninguém que dissesse 'odiei Campo Grande'. As pessoas sempre têm essa surpresa de encontrar uma capital tranquila, e todo mundo fica com vontade de voltar. Eu gosto muito disso, porque além de morar aqui, Campo Grande é uma cidade que eu posso trazer pessoas que elas vão gostar', destaca.

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