• Segunda, 21 de Setembro de 2026

Análise: fim do jejum histórico da Ponte é a vitória da resiliência sobre o abandono

Voltar a ganhar após 22 jogos é demonstração de dignidade profissional em meio à grave crise que o clube atravessa

GLOBOESPORTE.COM / HEITOR ESMERIZ


Jogadores da Ponte ficam ajoelhados para agradecer fim do jejum — Foto: Igor Henrique/PontePress

Um dia depois de os associados da Ponte Preta rejeitarem a criação da SAF, em mais um capítulo da disputa política que assola o clube, os jogadores - e funcionários envolvidos no dia a dia do futebol - deram uma verdadeira lição para aqueles que decidem o rumo de uma instituição centenária afundada num colapso financeiro e administrativo.

Voltar a vencer após 22 jogos, com o 1 a 0 sobre o CRB no Majestoso, foi uma demonstração de dignidade profissional de um grupo que, mesmo diante de atrasos salariais, incertezas sobre o futuro e falta de condições de trabalho, encontrou forças para honrar a camisa da Ponte.

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O jejum encerrado no último domingo carregava um peso enorme. Eram 149 dias sem vencer, com 19 derrotas, três empates e marcas negativas que entraram para a história do clube e da própria Série B. A sequência se transformou no maior período sem vitórias da competição, refletindo um cenário de crise que ultrapassa os limites do inaceitável.

O resultado ganha um significado diferente justamente por acontecer em meio ao caos. A vitória não muda o destino da Ponte no campeonato. O time segue na lanterna, com 13 pontos, a uma distância praticamente inalcançável para evitar o rebaixamento. O contexto continua dramático, e o risco de rebaixamento de queda é tão real quanto antes.

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Mas o futebol também é feito de símbolos. E a vitória sobre um adversário que luta na parte de cima da tabela mostrou que, apesar de tudo, ainda existe uma linha entre a resignação e a resistência. A Ponte cruzou essa linha ao encontrar uma forma de competir quando quase todos os elementos ao redor apontavam para o contrário.

Os sinais de abandono estão espalhados pelo clube. Os salários atrasados (alguns casos chegam a um ano) atingem jogadores, profissionais do departamento de futebol e funcionários de diferentes setores.

O gramado do Majestoso, há muito tempo alvo de críticas, se tornou mais um retrato visível da deterioração. Até a torcida, historicamente reconhecida pela lealdade, anda sumida. Em uma manhã de domingo chuvosa, apenas 1.018 torcedores compareceram ao estádio.

Talvez por isso a imagem mais marcante tenha surgido depois do apito final. Os jogadores se ajoelharam em roda no gramado para agradecer. Havia apenas alívio. A sensação de que, ao menos por uma tarde, o esforço não foi derrotado pelas circunstâncias.

As declarações após o jogo ajudam a compreender a realidade vivida pelos jogadores, vítimas da situaçã. Rodrigo Souza resumiu o sentimento ao afirmar que era importante voltar para casa, abraçar a família e ligar para o pai para dizer que a Ponte venceu.

Danilo Barcelos foi ainda mais direto: talvez pareça algo simples para quem olha de fora, mas carregava um significado enorme para quem escolheu permanecer e seguir lutando.

E poucos traduzem melhor essa resistência do que o próprio Danilo. Capitão da equipe, identificado com o clube e uma das principais lideranças do elenco, o lateral-esquerdo se tornou um dos rostos de um grupo que decidiu continuar mesmo quando tantos motivos indicavam o contrário. Sua fala traduz o sentimento coletivo de quem permaneceu acreditando.

Outro personagem foi Vinicius Ferrari. Revelado pelas categorias de base da Ponte, o goleiro realizou cinco defesas difíceis e sustentou o resultado nos momentos de maior pressão do adversário. Em uma tarde carregada de simbolismo, coube justamente a um prata da casa assumir papel decisivo para encerrar um dos capítulos mais dolorosos da história recente do clube.

Também merece destaque Gilson Kleina. Em sua sexta passagem pela Ponte, quarto treinador com mais jogos na história alvinegra, ele aceitou o desafio quando poucos aceitariam. Conhecedor como poucos da cultura pontepretana, assumiu uma equipe emocionalmente abatida e encontrou meios para mantê-la competitiva mesmo diante de limitações que vão muito além de questões táticas.

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Nem mesmo o autor do gol escapou do enredo confuso desta temporada. Brandão deixou o clube durante a Série B após surgir a possibilidade de transferência para o futebol da Bulgária.

A negociação não avançou, ele retornou e acabou sendo o responsável por marcar o gol que encerrou o maior jejum de vitórias da história da competição. Em uma Ponte marcada pelo improviso e pela instabilidade, dificilmente haveria roteiro mais simbólico.

A vitória sobre o CRB não apaga os erros que colocaram a Ponte nessa situação. Não resolve os problemas financeiros, não encerra as disputas políticas e muito menos altera o cenário esportivo da temporada.

Mas representa algo igualmente importante: a prova de que, em meio ao abandono institucional que se espalha pelos corredores do clube, ainda existem pessoas dispostas a lutar. E foi exatamente essa resiliência que venceu neste domingo.

Foi a vitória do campo sobre os bastidores. Do esporte sobre os desmandos de engravatados. Uma lição de quem mais sofre com a crise para quem deveria lutar contra ela - e não alimentá-la por ego ou orgulho.

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