Esportes
Brasileiro supera vício em drogas, aprende a nadar e garante vaga em Mundial de triatlo aos 61 anos
Valmor Machado foi internado mais de 10 vezes para tratar a dependência química e, mesmo com só 70% da capacidade pulmonar, encontrou no esporte uma maneira de transformar a vida
GLOBOESPORTE.COM / LUCAS ESPOGEIRO
Valmor Machado participará de um Mundial amador de triatlo pela sétima vez.
Hoje aos 61 anos, o atleta já viveu várias vidas em uma só. Na adolescência e no início da fase adulta, foi internado mais de 10 vezes para tratar o vício em drogas.
O catarinense encontrou no esporte uma maneira de mudar sua própria realidade e passou por diferentes experiências até se encantar com o triatlo.
Valmor Machado já viveu várias vidas em uma só. Durante a adolescência e o início da fase adulta, encarou o vício em drogas. Foram mais de 10 internações, que o afastaram da família e prejudicaram o corpo. A cura veio com ajuda de terapias e do esporte. Nas últimas décadas, o catarinense se tornou frequentador assíduo de academias, instrutor de Educação Física, corredor de curtas distâncias, atleta de mountain bike e até ultramaratonista. Aprendeu a nadar para conhecer uma nova paixão: o triatlo. Hoje, aos 61 anos, se prepara para disputar um Mundial amador da modalidade pela sétima vez. O evento, cujas categorias são divididas por idade, ocorrerá em Hamburgo, na Alemanha, em 2027.
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– A minha história não é igual, mas lembra a de tantas outras pessoas que passaram por dificuldades. Encontrei muita gente que descobriu no esporte uma nova maneira de viver, superando algum drama pessoal. Fui dependente químico por muito tempo e, quando consegui superar o vício, lá em 1993 (aos 28 anos), acabei diagnosticado com transtorno de personalidade borderline (caracterizado, entre outras coisas, por humor instável). Frequentei terapias em grupo, mas sentia que precisava de mais alguma coisa para complementar isso. Sempre fui muito ativo – disse Valmor, em entrevista ao ge.
Começou, então, uma busca por atividades que ajudassem o catarinense, natural de Rio do Sul, a encontrar a sensação de plenitude. Primeiro, vieram caminhadas e corridas curtas, mas o início trouxe também algumas dificuldades. Pelos anos de dependência química, Valmor tinha problemas de saúde. Até hoje, os pulmões são comprometidos, atingindo apenas 70% da capacidade de funcionamento.
Com uma mudança completa de estilo de vida, a atividade física foi ganhando espaço. Valmor se dedicou à musculação e, funcionário público concursado, também passou a dar aulas em academias. Junto a isso, entrou em grupos de corrida, sempre com destaque nas provas das quais participava.
– Descobri que era bom em correr. Subi ao pódio em provas de 5 e 10km. Participei da São Silvestre. Comecei a ficar famoso e enturmado. Aquilo me trouxe um entusiasmo, e me tornei um ultramaratonista. Fui correr 100km, porque já não estava mais contente com outras distâncias – contou Valmor.
Quando se deu conta, o catarinense tinha trocado as drogas pelo vício em atividade física, como ele mesmo diz. Aí, entre 2011 e 2012, já com mais de 40 anos, teve o primeiro contato com o triatlo. Recebeu convite para participar do Ironman, uma prova de longa distância. A resposta, porém, foi "não". Havia um problema: apesar de correr bem e competir no mountain bike, Valmor não sabia nadar.
– Falei que assistiria ao Ironman e pensaria sobre a possibilidade de disputar no futuro. No dia da prova, um outro conhecido dos tempos de corrida me disse que o triatlo era a minha cara. Já fiquei impressionado com o fato de duas pessoas comentarem a mesma coisa. Então, comecei a pesquisar, ver alguns vídeos e achei que a modalidade ainda estava muito longe para mim – comentou, no papo com o ge.
Mesmo sem tanta confiança, Valmor começou a fazer aulas de natação em um clube de Florianópolis. Admite que, no primeiro dia, não conseguia nem entrar na piscina ou colocar a touca. Precisou partir bem do início, agarrado a uma prancha e aprendendo os movimentos básicos na água.
Aos poucos, tomou gosto e progrediu. Começou a nadar distâncias maiores – ainda distantes das necessárias para uma prova de triatlo. Mesmo assim, se inscreveu em um Ironman, marcado para maio de 2013.
Em janeiro daquele ano, o clube no qual treinava paralisou as atividades, por causa de férias dos funcionários. Com o Ironman à vista, Valmor não queria parar as aulas de natação e invadia as instalações durante a noite para usar a piscina. A estratégia arriscada não trouxe problemas, e o catarinense conseguiu finalizar a preparação.
A primeira prova longa foi concluída com sucesso, em 11h36min. A partir daí, Valmor se dedicou apenas ao triatlo, deixando de lado as competições de corrida e mountain bike. Ao todo, o atleta disputou 10 Ironmans, e a última participação ocorreu em 2025, aos 60 anos.
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Os Mundiais de triatlo
Com as habilidades aquáticas aprimoradas, Valmor começou a participar de cada vez mais competições de triatlo – não só Ironmans. A maioria dos eventos era em Santa Catarina, mas também havia provas nacionais. E bons resultados no Brasileiro levaram o atleta ao Mundial amador – a primeira participação veio na edição de 2018, em Gold Coast, na Austrália.
Na estreia, Valmor participou apenas do sprint, uma prova de curta duração, com 750 metros de natação, 20km de bicicleta e 5km de corrida. Mas, nas edições posteriores do Mundial, o catarinense também competiu no standard, conhecido como triatlo olímpico, por ter as distâncias adotadas nos Jogos: 1,5km na água, 40km pedalando e 10km correndo.
As duas primeiras aparições de Valmor em Mundiais, em 2018 e 2019, foram na categoria de 50 a 54 anos. Depois, em 2022, 2023 e 2024, competiu com homens da faixa etária de 55 a 59 anos. Já na última edição, em 2025, passou a concorrer com atletas de 60 a 64 anos.
– Nunca fui um esportista virtuoso. Sou um amador que gosta muito mais de treinar do que de competir. O meu entusiasmo está no esporte como essência. Quando nado, não tenho com quem conversar. Então, na água, é o momento em que mais me aproximo de Deus. Percebi que o triatlo era uma coisa maravilhosa, porque inclui três esportes em um só e me leva a uma vivência espiritual muito profunda – afirmou Valmor.
De fato, o catarinense não parece se preocupar muito com resultados. Tanto que abriu mão do Mundial de 2026, porque o evento foi realizado em Pontevedra, sede também da edição de 2023. Como já tinha visitado a cidade espanhola, Valmor escolheu não viajar. Ele brinca que só quer competir em lugares que não conhece, para passear com a esposa, Carla Carolina, e unir o esporte ao turismo.
Hamburgo, palco do Mundial de 2027, está na lista de desejos de Valmor. Por isso, o brasileiro participou da seletiva nacional, em Brasília, no fim de agosto. Ficou em sexto lugar na sua categoria e carimbou o passaporte para a Alemanha.
– A história do Valmor evidencia o poder transformador do esporte. É uma mudança de vida que inspira e mostra que nunca é tarde para encontrar novos caminhos – relatou Valcides de Araújo, diretor regional do Sesc-DF, palco da seletiva brasileira de 2026.
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Na preparação para Mundiais e outras competições, Valmor nada dois mil metros, três vezes por semana. Uma dessas sessões de treino ainda é acompanhada por atividade na bicicleta. Nos outros dias, o triatleta faz musculação e corre distâncias que variam de sete a 15km.
– O meu entusiasmo é a longevidade. Vejo senhores e senhoras mais velhas do que eu, com 70, 80, 90 anos, ainda fazendo o que faço. Quero ser assim também. Quero ser um dos atletas mais longevos da história do triatlo catarinense. E espero não estar sozinho. Recordes, tempos, marcas acabam. Ficam as nossas experiências, pessoas que conhecemos, momentos que vivemos – refletiu Valmor.
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