Coronel Sapucaia
Luz afasta onças e reduz ataques a animais em assentamento no Pantanal
Tecnologia solar e manejo ajudam família a conviver com felino sem expulsar espécie da área
INARA SILVA / CAMPO GRANDE NEWS
Uma tecnologia simples, baseada em luz intermitente, tem ajudado moradores do Pantanal a reduzir conflitos com a onça-pintada sem afastar o animal de seu habitat. No Assentamento 72, na PMP (Paisagem Modelo Pantanal), em Ladário (MS), o uso do equipamento conhecido como fox light tem mudado a rotina de uma família e diminuído ataques a animais domésticos.
“A onça passou antes de ontem à noite. Mas não subiu até em casa', relatou a moradora Maria Aparecida Cavalheiro, em depoimento publicado na rede social da Ecoa (Ecologia e Ação). Segundo a publicação, há um ano as onças não atacam mais os cachorros da família. O felino, no entanto, continua circulando pela região. “A diferença é que agora para na luz', descreve.
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Coordenador da PMP e diretor científico da Ecoa, André Nunes explica que a necessidade de testar o fox light surgiu após relatos recorrentes sobre a presença de onças no assentamento. “No caso específico de uma das famílias, havia ocorrência de ataques a cães, o que gerou preocupação e motivou a busca por alternativas de manejo', disse.
Conforme Nunes, os resultados iniciais são positivos e têm contribuído para reduzir a aproximação dos animais da propriedade. Segundo ele, houve mudanças na rotina dos moradores. “Hoje, a família está mais tranquila em relação à presença da onça-pintada e vem conseguindo conviver de forma mais segura com a espécie', disse. Ele atribuiu o resultado ao uso do equipamento aliado a orientações de manejo.
André Nunes afirma que, além de a área reunir registros frequentes de proximidade entre onças e criações domésticas, o assentamento está situado no entorno da APA (Área de Proteção Ambiental) Baía Negra. “É uma área estratégica', afirma.
Redução de conflitos - Pesquisador que acompanha a iniciativa, Diego Viana acompanha o projeto desde a implementação, que ocorreu ao longo de 2024 como parte de um projeto piloto de curta duração. Segundo ele, a redução dos ataques foi percebida logo após a instalação dos equipamentos, pois os flashes atuam como estímulos visuais que aumentam a percepção de risco pelos predadores.
Os dados do projeto são baseados em registros locais e relatos dos moradores. Ainda que não haja um experimento controlado, Viana diz que foi observada “uma mudança clara no padrão de ocorrência de ataques' após a adoção das medidas. O objetivo, segundo ele, não é eliminar a presença da onça-pintada. “As onças continuam utilizando a paisagem, porém evitam áreas específicas onde há maior risco percebido', explica.
A Luz - Considerado um repelente luminoso, o fox light funciona com energia solar e emite flashes aleatórios durante a noite, simulando presença humana. A estratégia parte do comportamento cauteloso da onça-pintada, que tende a evitar áreas com sinais de atividade. Diante de um cenário ativo de conflitos, o equipamento não provoca danos, não captura e não afasta a onça de forma permanente.
Combinação de Estratégias - Viana ressalta que a redução dos ataques não pode ser atribuída apenas ao fox light. “Houve uma combinação de estratégias, incluindo melhorias no manejo dos animais domésticos, especialmente o recolhimento noturno e a redução de atrativos', ressalta.
Para o pesquisador, a iniciativa “pode induzir evasão espacial temporária', mas alerta que não há solução única. “Existem indivíduos que se adaptam com mais facilidade a esse tipo de estratégia, apresentando habituação ao estímulo ao longo do tempo', afirma ao lembrar que esse padrão já foi observado em outras regiões do Pantanal, onde já aplicou estratégias semelhantes.
Viana complementa que “não existe solução única para conflitos com grandes carnívoros, sendo essencial adaptar as estratégias às condições ecológicas, sociais e econômicas de cada propriedade'.
O início - Ele conta que o trabalho começou com uma visita técnica inicial para diagnóstico da propriedade, identificando fatores de vulnerabilidade como ausência de manejo noturno adequado e disponibilidade de presas domésticas desprotegidas.
A participação da comunidade é parte central da estratégia. Os moradores são responsáveis pela manutenção dos equipamentos e pelo registro das ocorrências.
Atualmente, esta é a única iniciativa do tipo na área da Paisagem Modelo Pantanal. A proposta, segundo André Nunes, é ampliar a experiência para outras áreas onde haja conflitos, mantendo a articulação entre organizações e comunidades locais.
Paisagem Modelo - Segundo André Nunes, a PMP integra a International Model Forest Network, uma rede presente em mais de 30 países que atua em mais de 70 milhões de hectares no mundo, com foco na gestão sustentável de paisagens por meio da articulação entre diferentes atores locais. No Pantanal, a iniciativa busca conciliar conservação ambiental, produção rural e a presença de comunidades que compartilham o mesmo território, com a construção conjunta de soluções e definição de prioridades locais para o uso sustentável dos recursos naturais.
A área da PMP tem cerca de 76 mil hectares que abrangem os municípios de Ladário e Corumbá. A proposta é expandir a iniciativa para outras áreas com registro de conflito com onças, por meio de parcerias entre a Ecoa, Ampara, WWF-Brasil (Fundo Mundial para a Natureza) e a Rede Pantaneira pela Coexistência Humano-Onça.
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