Esportes
Elano detalha desafios na base do Santos, revela visita a Robinho e diz: "Neymar não está feliz"
Hoje dirigente, ex-jogador afirma que ficou ferido por experiências como treinador e não quer voltar à função; ao Abre Aspas, ele conta por que deixou o Flamengo e revela bastidores da Copa de 2010
GLOBOESPORTE.COM / ANA CANHEDO, BRUNO CASSUCCI E JOSé EDGAR DE MATOS
Elano coleciona incontáveis histórias no futebol e não esconde o prazer em relembrá-las. Participou de duas gerações de Meninos da Vila, fez gols em Copa do Mundo, rodou por diversos países – da Ucrânia à Índia – e dividiu vestiários com lendas da bola: Adriano, Cafú, Ronaldinho, Kaká, entre tantos outros.
Porém, ele não se contenta em somente olhar o passado e mostra gana de escrever novos capítulos nesta trajetória. Primeiro, tentou ser treinador, mas diz ter ficado ferido com as experiências que teve e não pensa em voltar à função. Mais recentemente, há pouco mais de um mês, assumiu um novo desafio: comandar as categorias de base do Santos.
No clube, encontrou problemas, mas também uma nova motivação. Ao voltar para casa, reviu velhos amigos, como Neymar, a quem pede mais carinho e proteção:
– Temos que cuidar um pouco mais do Neymar, porque ele não está feliz – disse Elano, defensor da convocação do camisa 10 para a Copa.
Ficha técnica
Nome: Elano Ralph BlumerNascimento: 14 de junho de 1981 (44 anos anos), em Iracemápolis, São PauloProfissão: ex-jogador de futebol, ex-treinador e atualmente gerente de futebol das categorias de base do SantosClubes como jogador: Guarani, Inter de Limeira, Santos, Shakhtar Donetsk, Manchester City, Galatasaray, Grêmio, Flamengo e ChennaiyinClubes como treinador: Santos (interinamente), Inter de Limeira, Figueirense, Ferroviária, Náutico e Guarani (interinamente)Na Seleção: 50 jogos, 9 gols e duas conquistas (Copa América de 2007 e Copa das Confederações de 2009). Disputou a Copa do Mundo de 2010.Títulos: Copa Libertadores (2011), Campeonato Brasileiro (2002 e 2004), Recopa Sul-Americana (2012), Campeonato Paulista (2011, 2012, 2015 e 2016), Campeonato Carioca (2014), Campeonato Ucraniano (2004/05 e 2005/06), Supercopa da Ucrânia (2005), Copa da Ucrânia (2006) e Superliga Indiana (2015)
Outro grande amizade construída por Elano na Vila Belmiro foi com Robinho, parceiro em momentos inesquecíveis também no Manchester City e na Seleção. Pai de três meninas, o ex-jogador não minimiza a gravidade do crime cometido pelo amigo, condenado a 9 anos de prisão por estupro na Itália, mas nem por isso vira as costas para ele.
– Eu acho que cabe a ele ou a quem comete o delito que consiga restaurar isso e voltar atrás para que sirva de exemplo a outras pessoas. Mas eu não posso deixar de ser amigo.
Em quase duas horas de entrevista ao Abre Aspas, Elano falou sobre passado, presente e futuro. Repassou a carreira, revelou bastidores da Copa de 2010, contou os planos para a base do Peixe e apontou a necessidade de um “novo Elano' para a Seleção.
Abre Aspas: Elano
Como tem sido a experiência como dirigente? Sente-se mais realizado do que como treinador? – Nos dois ou três primeiros dias, nunca tinha acontecido algo parecido comigo, pois cheguei na minha casa, sentei com a minha esposa e chorei. Falei para ela: “não sei se vou dar conta'. Eram tantas informações que eu não sabia se daria conta. Passei duas semanas observando e anotando. Foi tudo de uma forma dura, mas de um aprendizado absurdo. Aí resgato minha vida, porque tive que gerir a minha vida, tive que tomar decisões imediatas. Saí de casa com 12 anos, e passei a tomar minhas decisões. Não tinha como ligar para o meu pai. Meus pais cortavam cana. Quando falo do lado gestor, ser treinador me ensinou muito, principalmente para tomar decisões. Quando você é treinador, se não tem o que falar, fique quieto. Se não, você vai atrapalhar. Para não ofender, você se silencia para entender.
– Acredito que sou um bom gestor, primeiro por ter uma família maravilhosa. Erros e acertos a gente tem ao longo do tempo no trabalhou ou na vida pessoal. Tenho uma vida organizada e o que me move é a credibilidade que tenho, pois entro nos lugares em que chego. Assim é na TV que trabalhei, nos clubes que joguei e nos que trabalhei. Tem que ser transparente, e consigo ser transparente por ter uma vida limpa. Sou amigo de todo mundo, empresários, jogadores... Sento em qualquer cadeira e converso de igual para igual com todos. Essas são as virtudes para gerir uma das maiores categorias de base do mundo.
Como foi a transição de treinador para o cargo de direção? – Estava ferido quando deixei o cargo de treinador. Quando saí do último trabalho (Ferroviária), estava machucado por trabalhar quatro meses longe de casa e não conseguir cuidar da minha família. Não me sentia completo. Amo o campo, amo falar de tática e modelo de jogo. Joguei em várias funções e modelos de jogo. Amo entender os treinadores. Mas sentei em casa depois do último trabalho e disse que não voltaria para o campo. Fiquei dois anos em casa e voltei a estudar.
– Aí veio o convite do Guarani para ser coordenador, entra a barreira de que você era o treinador e todo mundo acha que você... O futebol é muito errado. O cara acha que você vai derrubar um para entrar no lugar. No Guarani poderia aparecer uma oportunidade, mas não me senti assim para voltar. Coincidentemente, tudo isso aconteceu e veio o convite do Santos. Muito rápido. Quando se fala de Santos é como abrir a porta da casa, independentemente do momento. Casou tudo: a preparação, minha formação e meu tempo de treinador para chegar preparado para essa missão, que não é mole.
Você reconsideraria essa decisão para voltar a ser treinador no futuro? – Não sei, hoje não voltaria para o campo. Nem comissão técnica eu tenho mais. Estou tão feliz no que venho fazendo. Não sou do dinheiro, mas preciso do dinheiro. Lógico que todo mundo tem que ganhar bem pelo que faz, ainda mais se faz bem, mas prezo pela minha paz de espírito, sabe? Chego no dia com 50 documentos para resolver, dez lugares para ir e oito reuniões, mas acabo no fim da tarde em casa, jantando com a minha esposa e filhas, e falo: “estou feliz'.
Como treinador isso não acontecia mais? – Não, porque não sou muito de ficar sozinho. Outra coisa, você fica três meses em cada lugar e não consegue fazer um trabalho no Brasil, sendo que demora dois para contratar o time. E você não vai ganhar. A chance de perder é maior. Eu tenho o Santos como exemplo. Trabalhei um ano no Santos, fiquei nove jogos no Brasileirão e ganhei seis. Tinha um time top, que eu conhecia e tinha trabalhado com os treinadores que haviam saído. Acredito muito no meu trabalho como treinador, mas hoje tenho zero vontade. Acho que hoje eu consigo muito mais ajudar os treinadores como gestor, ajudar os treinadores a melhorar, e eu evoluo também. Minha intenção também é formar treinadores no Santos.
Você citou ter “paz de espírito'. Consegue tê-la mesmo neste momento do Santos, que vive turbulências administrativas e um momento político complicado? – Tenho. Em 2000, quando cheguei ao Santos, era muito pior. Nós, que vivemos 2000 e 2001, muitos não vão lembrar: acabava meu treino, e eu tinha um Palio 1.0, sem ar-condicionado, e ia embora para Limeira, pois minha família morava lá. Vi uma frase em um caminhão que nunca mais saiu do meu coração, da minha mente e da minha vida: “não há crise que resista ao trabalho'. Acho que é isso. Quando você se dispõe a fazer alguma coisa, precisa fazer bem. Para fazer bem, precisa estar em paz.
– O Santos me dá paz. Em qualquer momento, falo para os meninos, que agora eu tenho 430 filhos. Tenho três filhas e a esposa, mas agora brinco que tenho 430 "boys" lá. São meninos que trato como minhas filhas, sabe? Com amor e carinho. Eu me vejo neles. Brinco com eles que tem o portalzinho da Caverna do Dragão, e eles ficam dentro. Quando entram, não saem mais. Falo isso: imagina que quando entra no CT, todo problema que temos, deixamos para fora. Temos que viver um ambiente de família, alegre. Ele (companheiro) é teu amigo, o treinador é seu professor. Temos que estar felizes para fazer o treino de corrida, o treino de finalização.
– Procuro passar as experiências sobre as durezas, mas também sobre o que precisamos fazer para estarmos melhores para sermos um profissional de nível em todos os aspectos. O respeito, por exemplo. Temos as meninas, e devemos esse respeito ao futebol feminino. Meu primeiro treino que vi foi do futebol feminino. Tem as meninas que jogavam aqui quando voltei. Algumas até me ligaram. A Aline trabalha com a gente hoje. Assim, estamos falando do Santos. O Santos é um só. É muita coisa. Tenho essa paz.
Na nossa conversa antes desta entrevista, você falou brevemente que seu maior objetivo neste início na base do Santos é resgatar o DNA do clube. O que seria isso e como fazer? – Posso dizer hoje que estou à frente de uma das melhores bases, uma das mais formadoras do mundo. É um compromisso gigantesco. Eu me preparei e sou preparado para estar nessa função. Não estou lá porque é uma situação, uma questão de amizade. Fiz meus cursos, trabalhei e sou formado. Sou da base do Guarani, um clube formador pela essência, e o Santos nem se fala.
– Entendo como identidade, como DNA, um Santos ofensivo. Para criar esse DNA, essa cartilha, renovar e recolocar essa identidade, passa pelos processos. Primeiro, curar algumas feridas para colocar novos processos. Entendo que o Santos tem a sua ética de DNA um pouco ferida. Em dois anos, eles tiveram alguns objetivos alcançados, mas entendo a base como uma metodologia, um conceito de trabalho. Será que isso é feito de acordo com o que é o Santos e com a essência do Santos? Essa foi a minha pergunta para os líderes do clube e da base. Estamos aplicando a essência e a ética que sempre foi do Santos?
Algo na linha de “estamos ganhando, mas estamos ganhando do jeito que o Santos tem que jogar?'. É por aí? – Por exemplo, uma pergunta (que faço) para eles: quantas vezes vocês treinam a parte ofensiva na semana? Responderam que treinam duas ou três, ou que treinavam a defesa quatro vezes. Não! A partir da minha chegada, vamos treinar cinco vezes na semana o ataque e uma vez a defesa. Vocês já treinaram por dois anos a defesa. Consequentemente, juntando parte de academia e campo, claro.
– A gente tem produzido os treinamentos integrados com todas as comissões das bases, desde o futsal até o sub-20, para que eles possam escrever para mim e me entregar modelos de trabalho, e a identidade do Santos que eles entendem. Consequentemente, faço as correções com a equipe que eu trouxe. A gente busca colocar as bandeiras do Santos nas captações pelo Brasil e na Baixada Santista, especificamente, para que a gente resgate atletas com perfis que a gente entende que é o Santos.
– Esse é um dos grandes objetivos da minha gestão, resgatar os atletas com esses perfis. Hoje os moleques voltaram a treinar na praia, e isso é uma novidade que tem sido muito positiva, porque acho que é um pouco do resgate que, em pouco tempo, tenho colocado para que a gente consiga. Falamos muito de saúde mental, e acho que treinar na praia ajuda um pouquinho na saúde mental.
E há um aspecto lúdico em treinar na praia, né? De incentivar o drible, pegar um campo que não é aquele “tapetinho', que a bola vai variar... – Sim, além da questão do improviso, fazer as coisas com a cabeça livre. Sempre achei isso pelo que convivi e entendi como base, com muito amor, que é cumplicidade. Base é entendimento, ouvir o menino. Ele vai chegar com dor, com as dores pessoais, as dores da saudade. Foi o que vivi no alojamento por cinco anos. Não é só um resgate profissional, é de identidade, de ética. É um lado humano que pesa muito. Em tão pouco tempo, pela minha relação com o clube, posso ver hoje ou funcionários felizes, engajados e se esforçando para entregar essa ideia. É uma ideia geral, e os jogadores estão se esforçando para aplicar.
– A gente fala que em nenhum momento vai parar de treinar a defesa, mas a grande defesa do Santos, por muitos anos e conquistas, foi no ataque. Então tenho que aplicar o que vivi. As grandes formações do Santos foram do quê? Foram com 10 e os extremos. Brinco com eles: se nós temos os extremos e não formamos, deixa eles em cima da linha e faz a bola chegar para eles de um para um. E aí a gente vai potencializar o cara para criar isso. Se o lateral chega no fundo, ele cruza três ou quatro bolas por jogo, agora ele vai passar a cruzar dez. Não estamos formando para perder, estamos formando para ganhar, e para entregar para o profissional uma melhor qualidade daquilo que a gente acha que é o Santos.
Como funcionam os treinos na praia? – Temos treinos individualizados para cada categoria. E muitos desses treinos são os mesmos aplicados de formas diferentes por categoria. Por exemplo, refino de finalização. Então eu tenho que montar treinos das categorias menores até as maiores com o mesmo conceito. E isso acontece semanalmente nas categorias, todas elas. A praia é uma questão de refino e improviso da parte técnica. Evoluir o menino descansado, mas também aplicando um treinamento. Fazemos o mesmo jogo do 5 contra 5, 2 contra 2, e por aí vai.
Há aproximadamente dez anos, o Santos era uma referência na base do Brasil, com revelação de jogadores e utilização no profissional. Por outro lado, clubes que antes não tinham tenta tradição nesse cenário ultrapassaram o Santos, como o Palmeiras, por exemplo. Como explica isso? – É uma junção de coisas, né? Quando deixa de fazer uma situação, ela vai acumular outras funções e outros processos. Posso dizer que o Palmeiras, que foi onde fiz minha licença B (de treinador) em 2018, criaram os processos e financeiramente conseguiram ter o aporte. Assim, conseguiram reestruturar todos os setores com a capacidade dos profissionais, que realmente são grandes profissionais. O Cícero (Souza), hoje na seleção brasileira, e o João Paulo Sampaio, que até hoje está no Palmeiras... E estou falando de 2018, e estamos em 2026.
– Passei isso para o Marcelo (Teixeira, presidente do Santos), precisamos melhorar essa estrutura. O Santos é muito maior do que tem hoje. Temos que acompanhar essa grande marca e a grande formação que o Santos tem ao longo do tempo. E a gente vai aumentar também as bandeiras de captação agora ao longo do Brasil: São Paulo, Baixada Santista e Brasil todo. Não tenho dúvida que a gente vai deixar essa galera de cabelo em pé, porque a marca Santos é muito forte. Mas a gente tem que vir com os processos desenhados, os processos humanos, de trabalho de campo, treinamento, conceitos de treinos e modelos que achamos a cara do Santos. Vamos ter que melhorar um pouco de tudo: desde a estrutura fora até a estrutura dentro.
É mais difícil lidar com os técnicos, com o jogador, com o pai ou as pessoas do próprio clube? – Os pais, né? Respeito e entendo os pais também, sabe por quê? Porque depende muito como chega a informação. É o que falo: vocês trabalham com comunicação, e eu com gestão, com gerência, mas também tenho que me relacionar com os pais, pois o sonho está nos pais. Os pais precisam entender que hoje, no Santos, não é uma escolinha de futebol, é um time de alto rendimento. Mas nunca posso deixar o respeito pelo pai, pela mãe, porque querem sempre o melhor para o filho. Toda vez que me relaciono bem com o filho e a minha mensagem do filho para o pai é positiva, o pai vai conseguir conversar comigo de uma forma mais tranquila. É o que vem acontecendo.
Temos a impressão de que mudou a postura dos pais na comparação de quando você jogou. Hoje, os pais muitas vezes querem ser agentes da carreira do filho. É um desafio gerir isso? – É um desafio grande. Mas temos que ter uma conduta ética do clube. Não uma conduta, mas regras. Regras de entrada, de saída, para que em algum momento a gente consiga sentar e explicar tudo para as pessoas.
– Desde a minha chegada, meu relacionamento com o Cuca, com o Alexandre Mattos e com o Léo (Bastos, coordenador de futebol) tem sido maravilhoso. Cara, preciso empurrar os moleques do sub-20 para a frente, para subir os sub-17, para subir os 16, para que os 15 joguem no 16, os de 14 anos e de 13, consequentemente. Dependo muito das relações, das conexões com as comissões, pais e jogadores, para fazer um pouco de cada coisa. São muitas coisas, mas vamos criando as regras para que o clube tenha um rumo, né? Se um dia eu sair, o clube pode seguir com as mesmas regras. Hoje o clube tem várias formas, contratos de planilhas, uma organização que o clube tem e não preciso contratar. Vou pegar esses relatórios que temos e que vão ficar no computador do clube, todas as captações.
Hoje os garotos são muito mais conectados e expostos. Como lidar com essa diferença geracional Um dia cheguei no auditório e tinham uns 20 jogando um contra o outro. Tudo online. Eu já tenho uma relação com eles por ir aos treinos, e em algum momento quero treinar com eles, fazer o treino deles, de cada categoria, pois gosto de criar relações. Entrei gritando nesse dia: “pô, e esses videogames aí, meu?'. Todos os moleques ficaram assustados, e falei: “para aí, parem aí'. Perguntei em qual momento a gente conseguiria trocar o videogame para jogar um futmesa ou comer uma pizza. Todo mundo vem para o relacionamento. Não adianta conflitar muito com essa geração. É mais o diálogo, mais um carinho para conseguir criar uma afinidade.
No Santos há o caso do Kauan Basile, jovem e com milhões de seguidores. Como que você vê essa megaexposição e como lidar? – Tento ajudar. Temos que nos adaptar, e por isso falo do preparo. Em 2006 não fui para a Copa, porque meus jogos na Ucrânia não eram transmitidos. Agora, não. Tudo o que a gente faz é online. O menino faz um gol, e o pai já posta na rede social. Assim, muitas coisas eles trazem como pressão também, e procuro falar: quanto mais exposição, mais pressão vai receber.
– O Kauan, por exemplo, é difícil, porque é um menino que vende muita imagem, tem uma projeção absurda e uma entrega de contratos que precisa ser feita. Quando cheguei, o Andrezinho (pai de Kauan Basile) foi o primeiro pai que convidei para vir à minha sala. Eu me coloquei à disposição para ajudar, estou aqui para isso com todos os meninos. Quanto mais exposição dos pais e de rede social, mais pressão o menino irá sofrer. Quando menos se expor, mais concentrado estará para conseguir fazer um bom trabalho. Assim, ninguém quer fazer um trabalho no anonimato, e costumo dizer que a base é uma preparação para você ser um bom profissional. Foi assim na minha carreira.
– Nem todo mundo quer ser o Elano, todo mundo quer ser o Neymar. Ninguém quer ser o Elano, todo mundo quer ser o Cristiano Ronaldo ou o Messi. Só que ser o Elano é duro, brinco com eles. Tenho mais de 50 convocações, mais de 20 títulos. Fiz minha palestra, que é “a arte de ser essencial sem precisar de holofotes'. Nunca fui estrela no meu time. Não fui estrela no Guarani. Meus times subiam para treinar no profissional, e eu ficava dando volta no gramado. Corria 40 minutos em volta do gramado e não treinava. Só que meu foco estava em jogar no profissional. A base era para eu treinar chutar com a direita e com a esquerda, cabecear bem, melhorar a parte mental, a inteligência tática. Para aplicar quando precisassem de mim.
Neste sentido, o Santos acelerou a promoção do Robinho Jr. ao elenco profissional? – No Santos tudo é acelerado. O Robinho conquistou pelo trabalho dele, tem o passado e graças a Deus conseguiu renovar o contrato. Confesso que tenho conversado com ele para, em alguns momentos, descer para jogar no sub-20, assim como o João Ananias, que pediu para jogar, e o João Pedro, goleiro da seleção, que está descendo para jogar. Passei para o Juninho: “não pode ficar seis meses sem jogar'. Isso seria prejudicial para ele e para o Santos. Descer para o sub-20 não é menosprezo, é uma forma de você se preparar para estar com o hábito de jogar quando for chamado para o profissional. Assim como o Mateus Xavier foi agora, o Samuel Pierri... Isso é uma adaptação, não um prejuízo. É uma coisa natural de um clube formador.
– O Santos sempre foi uma coisa assim: apareceu, jogou e coloca. Não acho errado, não. Acho que, ao longo do tempo, a base é quem salva sempre o Santos.
Muitos clubes usam o Santos como exemplo deste sentido, já que outros clubes podem ter até um cuidado excessivo para lançar os garotos... – Vou falar algo, não sei se vai dar polêmica ou confusão, então não vou citar nomes. Há sete anos, quando saí, falei para terem cuidado, porque ia desencadear um processo perigoso contra o Santos. O Santos perdeu duas gerações de sub-20. Com esse processo, o clube passou a ter que contratar, e isso gera um conflito. Quando voltei, quando o Robinho voltou, quando o Ricardo Oliveira voltou, o Renatinho, os torcedores aceitam pela história que temos. Não que os jogadores não tenham culpa, mas sabe por que estou falando deste período de sete anos? O Santos precisou fazer tudo mais acelerado e passou a subir menos jogadores para o profissional. Acumulou jogadores e passou a contratar mais. Isso é perigoso.
– Hoje temos seis Meninos da Vila como titulares do Santos: Gustavinho, Neymar, Gabigol, Veríssimo, Bontempo e Igor Vinicius. Temos o Juninho (Robinho Jr.) no banco. Há mais opções, mas é isso. Veja o time do Flamengo campeão da Libertadores em 2019, do Jorge Jesus: “metade' era o time do Santos, pô. Se me deixarem ficar aqui bastante tempo, esse é um objetivo que tenho: ter um time formado pela base, porque acho possível.
Parece uma questão de reter mais esses jogadores no profissional. É isso? – Isso precisa, mas acho que temos que começar a fazer negócios na base também. Nem todo mundo joga no profissional. Há uma cultura no Santos de olhar apenas para quem estoura, só para o cara de 50 milhões de euros. Temos alguns milhões mais baratos aqui. Há outros Elanos mais baratos, que trazem coisas positivas para a base e para a carreira do menino. É muito fácil subir um Rodrygo. Todo mundo sabia que ele estava pronto para jogar no profissional com 17 anos. E os outros dez que ninguém vê ou sabe quem é? Será que não temos uns cinco ou seis que possam ter a carreira desenvolvida em outros lugares e render um bom negócio para o Santos? Acredito que sim. Isso passa por uma nova cultura.
Você fala com a convicção de um gestor. Esse é o foco decidido para o futuro no futebol profissional? – Confesso que meu objetivo hoje é ficar na base. Estou feliz e completo. De coração, não é meu objetivo. Se o profissional precisar de mim, como estão me dando a liberdade, posso ajudar em alguns quesitos. Mas não é meu objetivo.
Você tem autonomia do presidente? – Eu sempre digo ao Marcelo que tenho grande respeito e carinho por ele. Porque eu sempre fui grato a ele e disse isso. No Santos, eu nunca pedi um aumento. Ele sempre veio e me deu. E quando eu recebi a ligação dele agora, eu só pedi uma coisa: 100% de autonomia para tomar as decisões da forma que eu acho correta, se ele acredita em mim. A resposta foi que sim, eu tenho 100% de autonomia. Lógico que eu também não sou nenhum imbecil, nenhum ignorante, que eu tenho que conviver com as pessoas, que todo mundo faz parte do Santos. Só que eu preciso de regra. Um CT não pode ser qualquer um entrando. Imposição e carteirada não vão funcionar. Não estou dizendo se isso acontecia ou não, não posso afirmar, mas já estou adiantando, como falei para ele, porque terei de tomar decisões.
Parte do seu trabalho é a integração com o profissional. Como que tem sido a relação com o Cuca e a comissão técnica do time profissional? – Tem sido 100% positiva. O Cuca chegou e fez treino contra o sub-20. Já relatei para ele alguns jogadores, e um desses era o Samuel, logo quando eu cheguei vi projeção nele. E nós temos outro, que é o Fabre, também é o 10. O Nadson, infelizmente, se lesionou agora. O Alencar. Enfim, há projeção de evolução. A minha intenção é entregar cada vez mais jogadores para o Cuca, para que eu posso ajuda-lo, o Santos é um só. Mas tem sido bem positivo
O Santos está muito atrasado? – Confesso para você que assumi esse compromisso neste momento porque é o Santos. São quase sete anos e meio como treinador. Fiz meus cursos, minhas licenças e tenho uma experiência de 21 anos de carreira. Muitas pessoas falam que “você é gerente de base, coisa que nunca foi', mas eu tenho gerência da minha vida: faço contrato, cuido da minha família e tenho meus negócios. Basicamente, tudo o que tenho que fazer é o quê? Gerir 430 atletas e mais 120 funcionários. Tudo isso passa por uma gestão de relacionamento, de confiança e de transparência. Foi isso que passei para eles, que não vejo o Santos atrasado, mas que o Santos tem um acúmulo de dois anos que foi ficando de coisas pequenas, que se tornaram muitas coisas.
– Essas muitas coisas interferem no processo de formação, e aí estamos falando de identidade, modelo, ética de jogo. Ou até da formação que atrasa ou é tardia, que perde situações por causa desses acúmulos que ocorreram nesses sete anos, período que eu estou fora. É uma luta agora: meio período do dia passo resolvendo os pequenos problemas para aplicar os novos projetos.
E estruturalmente? O que o clube tem hoje atende às necessidades? – Atende, mas precisa melhorar. A chegada do Neymar é extremamente importante. Por exemplo, precisava de uma sala de comissão. O Neymar pai fez em dois dias para mim. Hoje, a sala da comissão tem duas mesas com três painéis com todas as fotos dos atletas de todas as categorias. A gente sabe hoje quem sai e quem entra. Os treinadores, diariamente, sentam na mesma sala para discutir treinamentos e como foi o dia. Tem horário para sair e para chegar. Graças ao Ney pai, com toda essa estrutura, com outras coisas que estão no projeto também para ser construída no CT, uma melhoria que precisamos. O Santos é feito de várias mãos, e mãos importantes, para que consiga fazer o trabalho.
– Hoje a estrutura atende para o que temos, mas confesso que precisamos evoluir, porque, com tudo o que estou falando, as situações vão se acrescentando, como o alojamento, que vai precisar aumentar, porque as captações vão aumentar. Os campos, com o tempo, queremos criar as avaliações, principalmente na Baixada Santista. O polo de Santos é a Baixada. Temos regiões fantásticas de formações de atletas. Vamos ter que crescer para que a gente consiga colocar a bandeira do Santos e captar cada vez mais meninos.
Como funciona a parceria com Neymar pai que você mencionou? Trata-se de doação ou empréstimo de recursos? – Não tem me cobrado nada. Eu vou ser bem sincero para você e, de coração, não falei sobre isso com eles, mas jamais eles vão fazer mal para o Santos. Esses caras não vão fazer mal. Toda essa confusão, repercussão, esquece. Esses caras querem o bem do Santos. O santista pode ficar em paz. Eu acho que a gente precisa cuidar deles, sabe?
– Temos que cuidar um pouco mais do Neymar. Porque ele não está feliz.
– Estou falando por mim, olho para ele, o tanto que eu gosto dele. Eu fico triste. Eu sei o tanto que esse cara é maravilhoso. Eu nem ia falar sobre isso, mas eu acho que a gente tem que cuidar dele. O santista precisa cuidar dele, independentemente do que aconteça. Acho que ele não merece ser vaiado. Não merece ser xingado. Às vezes, o time perde. Ele não é maior do que o clube, ninguém é, mas ele é uma joia nossa. É Pelé, Robinho e Neymar. Tem uma galera que vem atrás, mas os principais são esses. São patrimônios. Eu acho um pouco pesado o que está acontecendo com ele.
Você não acha que passa um pouco pelo santista estar ferido pelos maus resultados no últimos anos? – Eu entendo, eu também sofri esses sete anos. Eu sofro duplamente. Porque eu sofro com o Santos e sofro também com o Guarani. Mas eu digo, no caso do Santos, no caso do Neymar, ele não pode pagar por isso. Pelo contrário. O rebaixamento que poderia acontecer no ano passado e isso era claro, ele, sem joelho, jogou 50% do que é capaz e ajudou demais. Então, a gente não pode crucificá-lo. Eu sei que a gente vive uma cultura do tumulto, questões políticas envolvidas. Mas ele é patrimônio do Santos. Não sou puxa-saco, sou amigo e vou sempre defendê-lo. O meu sentimento é que o santista precisa cuidar dele.
E você acha que está faltando um pouquinho disso? Por parte da torcida? – Ele tem o carinho da maioria. Às vezes, acontecem situações isoladas quando acaba o jogo, algo que também é normal. Um vai embora mais feliz, outro vai mais triste. Um está puto com algo, outro com outra coisa. Mas não podemos deixar de ver a realidade da situação.
Consegue diagnosticar os principais motivos que não deixam o Neymar feliz? – Estão pegando pesado com ele. Acho que em todos os aspectos. Sabemos que ele tem uma visibilidade absurda. Tudo é muito grande. Mas, atrás de tudo, é um ser humano. E ninguém consegue sobreviver tomando tanta pancada todo dia. Chega uma hora que você se deprime. Não está relacionado a dinheiro, ao que ele tem. Ele conquistou jogando futebol. Ele é vencedor, maior artilheiro da Seleção. Ninguém fala mais disso. E a gente bate nele por coisas pequenas. Não é legal pegar tão pesado.
E isso reflete no campo? – Tem um monte de jogador que se comporta como ele e não acontece nada. Com ele, tudo é maior. Agora, se a gente for levantar os jogos, manda alguém fazer uma avaliação das assistências que ele dá, os passes livres que ele coloca alguém para definir uma jogada. Só que essas estatísticas não aparecem. Quando o time perde, o Neymar não rendeu. Quando ele voltou da cirurgia para agora, já respondendo, pode levar para a Copa do Mundo. Pode levar. Em 30 dias, ele vai mudar o espírito, vai mudar o astral, vai se sentir feliz, vai se sentir preparado e do lado daquela galera, ele vai dar resultado.
Conversou com ele sobre isso? – Não converso. Eu tento ajudá-lo, quando encontro. Não tenho nenhum relacionamento fora de campo com ele. Devido a correria de trabalho, família, as coisas dele. Mas, cara, eu acho que seria um desperdício para o país não ter o Neymar na Copa. O Brasil pode perder ou ganhar a Copa com ele ou sem ele, mas, para a imagem do futebol brasileiro, não seria bom sem ele.
Você acha que hoje ele apresenta futebol para justificar a convocação? – Ele veio de uma cirurgia de joelho. Não é simples. Agora sim, agora está ficando. Ele não conseguiu seguir o seu cronograma, porque o Santos passou por uma situação de quase rebaixamento que não era simples e ele precisou jogar. Só jogou por necessidade. Jogou pouco, mas fez até demais por aquilo que estava pronto para fazer. Quando ele chegou no Santos, era outro. Teve que acelerar tudo porque o Santos precisava dele. Agora, fez jogos em sequência. E de alto nível. Construiu jogadas, deu passes, assistência. Às vezes, vocês começam a analisar o Neymar como extrema. Ele fazia 15 jogadas de feito por jogo e três eram gol. Agora, ele é camisa 10. Toca pouco na bola, coloca os caras na cara do gol e vai se adaptando na função.
– O Ganso não fazia isso de buscar a bola fora da área? O Luciano? O Ganso ia buscar a bola no pé do Arouca. Só que quando ele dava a bola para frente, quem recebia? Chegava lá para fazer o gol. Fala para mim um (camisa) 10 que fica apenas dentro ou perto da área? Vamos falar do Matheus Pereira, do Cruzeiro, ele não vai buscar a bola atrás? Eu era o meia, virava a bola para o Neymar na ponta, ele vinha driblando e fazia o gol. Agora, ele dá a bola. Alguém tem que, dessas beiradas, fazer também ações boas. Porque, se não, o que ele faz? As ações começam a acontecer, ele está sempre imprensado. Não pega a bola livre. As ações têm que ser conjuntas e assertivas. Para pensar em marcar o Neymar, mas lembrar que se deixar a direita ou esquerda livres, vai dar jogo.Não pode marcar dois ele e saber que se abrir a bola, não vai dar em nada. Em 2011, era 11 contra 11 ou 10 contra 10, porque são dois goleiros. Se sobrasse alguém, você ia tomar o gol. Vamos dar a camisa 10 da Seleção, colocar o Vini Jr, Raphinha, os nomes. A hora que ele der a bola, você acha que vai acontecer algo bom ou não? São questões táticas. Antes, ele chegava driblando, agora chega tocando.
Você acha que Neymar fez uma boa adaptação do jogo dele? – Eu não acho 100% isso, eu acho que ele já está há muito tempo em uma adaptação, mas que o problema para se adaptar de verdade é uma lesão. Não é a posição em si. São duas lesões no joelho, ligamento e menisco. Isso para um cara que gira em torno de si mesmo. Hoje, ele já está mais solto, começando a dar uma caneta, coisa que ele não fazia. Já está começando a chapar. Antes, ficava com medo porque estava inseguro. Ele nunca me falou isso, mas eu percebia. É uma análise minha, conhecendo ele. Então, ele já está fazendo coisas. Sobre a Seleção, ele tem um período de preparação de 30 dias junto com os caras para jogar. Não vai jogar, só vai treinar. Vai melhorar sua parte física, vai estar com a cabeça melhor.
– Eu sou defensor dele porque ele é um dos últimos talentos que temos nesse momento. Se Deus quiser, virão outros. Mas a gente não pode descartar um talento tão maravilhoso como o do Ney. Não podemos dar tanta pedrada num cara sem analisar o contexto geral. Ele tem resultados positivos. Temos que entender o momento da dor dele e respeitar isso.
É o melhor atleta com quem você jogou? – Eu coloco Neymar e Ronaldo, o fenômeno. Eu só não joguei com Romário, né? Apenas peladas. Joguei com Ronaldinho Gaúcho, Rivaldo, Roberto Carlos, Cafu, Kaká, Robinho, mas Neymar está uma prateleira acima. Pelé dispensa comentários, mas Ronaldo para mim é fora de série. Se eu fosse escolher um atleta, seria Ronaldo Fenômeno. E o Ney triunfa ali entre Cristiano Ronaldo, Messi, Ronaldinho. Depois vem Rivellino, e toda uma galera. Eu sou apaixonado pelos mais velhos. A galera do passado me encanta muito.
Quem é seu ídolo de infância? – Meu pai me dava um DVD, sabe? Aqueles de alugar e assistir, do Zico, Tostão, Rivellino, os meias que meu pai colocava para mim e ficava falando para eu ver como o cara domina a bola, como o cara chuta. Eu tive muita gente boa. Eu me lembro do Guarani, de ver o Edu Lima na minha frente, meu sonho era chutar igual esse cara. Coisas marcantes para mim.
Brasil hoje tem dificuldade em formar meias? – Os meias hoje estão virando beiradas, e os volantes acabam ficando com a função de camisa 10. O volante precisa ser o 5, e o 10 precisa ser o 10. Nem todos os 5 têm qualidade para ser o 10. Eu gostava muito do Gilberto Silva pela simplicidade do seu jogo. Aquela bola rápida para o 10, que quebrava uma linha em dois ou três segundos. E aí vai da genialidade do cara do meio. Hoje, os 10 vão para a beirada pela qualidade do drible, de repertório, principalmente quando o cara é rápido, na transição e recomposição. Mas eu vejo muito a questão dos 5 também. Dessas bolas, hoje também se joga muito no 4-3-3, com às vezes um volante e dois meias. Então, muitas vezes, o 10 vira o terceiro homem. Hoje, eu vejo Neymar, Matheus Pereira e Ganso. Hoje, está tudo mais encurtado, centralizado.
E você pegou durante a sua carreira essa, talvez, diminuição do espaço no futebol. O Elano que jogava em 2002 tinha talvez mais espaço do que o Elano que jogava na Europa, no Manchester City, em 2010. O futebol mudou muito nesse sentido. – Eu ganhei o Brasileirão de 2002 como extremo. E aí em 2004 eu ganhei como 10 porque o Diego foi vendido para o Porto. Então, eu me adaptei. Eu tinha um poder de adaptação muito rápido aos esquemas e atletas. Essas adaptações me fizeram ter uma carreira boa. Eu joguei na Inglaterra e nenhum time joga tão bem com duas linhas de quatro como lá. Parece que tem espaço, mas você está encaixotado a todo momento. E lá eu só jogava de 10. Eu tinha liberdade. E quando a gente fala de encurtar os espaços, precisa de mais qualidade. Você precisa ser mais ágil, pensar rápido, articular as pernas rápido.
– Hoje, os treinadores defensivos encurtam muito o campo e, às vezes, o jogo não fica bonito. Os caras não conseguem sair do espaço tão curto como está. O Guardiola, por exemplo, já joga com quatro caras de cada lado, o centroavante e o volante. Basicamente, eles estão na mesma posição. O volante por trás e o 9 pela frente. E ataca sempre com os meias, então ele amplia a sua qualidade de jogo pelas beiradas. São várias formas de você construir o jogo num espaço curto, só que precisa de qualidade para sair desses espaços, e coragem, né? Treinar, executar para aplicar, porque se você erra, acaba sofrendo um perigo de gol. E muitas das vezes, nós, cultura brasileira, não aceitamos muito isso. Começou a tocar ali, o cara já começa, tira, tira! Tem que ter o equilíbrio, né? A construção e a pressão, tirar da pressão, tudo isso.
Qual foi o auge da sua carreira? – Qual momento foi ruim? Eu sei, perder o pênalti (Copa América de 2011). De restante, desde quando eu comecei, foram jogos bons e jogos ruins, digamos, menos bons. Agora, de olhar uma sequência muito ruim, não teve.
Houve uma oscilação em 2012... – Quando eu saio para o Grêmio, depois de ter voltado para o Santos, era porque já estava me condicionando para parar. Foi bom sair, respirar novos ares. Quando fui para o Flamengo, fico só seis meses e peço para ir embora porque não estava mais 100% da cabeça. Cansado.
Muito se falava de questões extracampo, como seu relacionamento com a atriz Nivea Stelmann. – Problemas no extracampo afetam também. Isso requer um tempo, mas, graças a Deus, tudo foi reconstruído. Hoje estou melhor por tudo aquilo lá.
E o auge? – O auge posso dizer que foram os dois gols da Copa do Mundo. Não tem como algo ser melhor que isso. O momento mais marcante, mais maravilhoso, mas também o mais triste pela lesão. Quando eu chego no estádio, recebo uma mensagem que o executivo do Real Madrid iria me ver. Era para jogar contra Costa do Marfim. Aquilo me trouxe mais alegria. Mais motivação. E faço o gol. Já estava na minha cabeça que teríamos mais três jogos e que eu entraria na seleção da Copa, iria ganhar como revelação se fizesse mais gols, as coisas acontecendo. Feliz da vida. Como se fosse um filme. Aí, quando eu tomo a pancada, pensei que fazia parte, que estava tudo bem. Vou botar o pé no chão e não consigo. Dou uma falseada. Já me deu aquele frio na espinha. Um calafrio por dentro. Fiquei nervoso. Vou para o vestiário e a lógica inverte: o positivo passa a ser negativo. Será que eu não estava concentrado? Por que eu fui pensar assim?
– Então, eu converso com o médico e peço para tentar me recuperar sem eu fazer exame, porque sabia que o exame daria algo. Falei para tratarmos. Eu estava bem, também estava com moral, né? Eu tratei uma semana e ia para o campo. E eu conseguia correr, dava uma mancada, mas estava melhorando. E é uma expectativa mentirosa. Então, houve muitas críticas naqueles momentos ao departamento médico, mas na verdade foi um pedido meu, que eles respeitaram.
– Passa ali dez dias, dois jogos, acho que foi Portugal e Chile, e aí eu estou treinando. Falei: quero tentar. Eu queria definir mesmo, se ia conseguir jogar ou não. E aí veio o momento que eu estou fazendo a tração. O cara está me segurando. Quando firmo o pé para poder arrancar, eu caio. Eu perco um pouco a força da perna, porque, estava com um edema ósseo no tornozelo. Eu não conseguia correr, principalmente para a esquerda. Não falei nada para ninguém, comecei a chorar, o Dunga e a comissão ficaram parados. Eu caí, comecei a chorar e fui embora para o quarto. A galera foi lá e falei: "só quero continuar aqui, está tudo bem, só me deixa sozinho um pouco".
– Eu falo nas minhas palestras que eu aprendi o valor dos bastidores também, o tanto que você é importante às vezes mesmo sem jogar. E aí é uma dor, né, cara? É um sonho de criança jogar uma Copa do Mundo. Eu nunca sonhei em fazer um gol na Copa. São dois jogos, dois gols. Mas eu prefiro ficar com as coisas boas. Acho que sempre na vida tem muito mais coisas boas do que ruins. As ruins são para a gente aprender, crescer e não fazer de novo. E as boas acho que são os grandes legados, as grandes coisas boas que a gente deixa ao longo do tempo. É isso que me impacta. Mas foi dolorido.
O Brasil ganharia a Copa com você em campo? – Não tem como eu afirmar. Seria injusto da minha parte. Não combinaria nem comigo se eu afirmasse um negócio desse. Mas eu posso dizer para vocês que estou torcendo para que encontre alguém agora que faça o que eu fazia.
Se passasse pela Holanda e também na semi, acha que o Brasil conseguiria derrotar a Espanha na final? – Nós ganharíamos. Vou dar um exemplo para vocês do 3 a 0 do Brasil x Espanha no Maracanã. A Espanha encaixa no jogo que o brasileiro gosta. Se dá espaço para a gente, vai perder. Se dá espaço pra qualquer time do Brasil, vai perder. E eles sabem disso. Podem perceber, agora é a Copa do Mundo e os caras se preparam. É fechadinho pra contra-atacar o Brasil, porque é essa forma que eles acham que o Brasil não vai ganhar. Eles não vão ficar em cima, pressionando. E, ao longo do tempo, todo time que pressionava o Brasil, a gente tinha muito repertório. A gente parava dentro do gol. A Holanda foi uma forma diferente. Eles fizeram um gol em duas bolas, e aquela bola do Kaká que ele dá a chapada, se entra, era 2 a 0, matava. Mas são coisas do futebol.
Faltaram Neymar e Ganso? – A gente vê muito quem entra. Mas eu também olho quem sai. A gente estava junto há quatro anos e meio, né? E conquistando, com mérito. Tem o talento, e os meninos estavam voando. Se a gente for falar de tudo isso, também vai falar do Adriano. Eu acho que seria antiético um pouco da minha parte afirmar, ou quem entra ou quem sai, por respeito mesmo.
O Elano, hoje torcedor da seleção brasileira, acredita no hexa? – Sempre acredito no Brasil. Quando o Brasil chega os outros outros times olham e não é mais um que chegou. Falam: "rapaz, se esses caras passarem bem aí, se eles encaixarem dois, três jogos, nós vamos ter problema. Não deixem". Os caras se falam entre eles, "ó, os amarelinhos chegaram". Lógico que a situação que a gente olha para hoje sente uma desconfiança natural. Mas eu acho que é sempre assim. Nós temos bons jogadores. Eu acho que alguém vai ter que... Acho que um, dois, três ali vão ter que tentar fazer a função do Elano.
Tem alguém capaz disso? – Todo mundo é capaz de fazer qualquer coisa, porque eles são bons. Mas eu digo fazer a função do Elano, que é a função no anonimato. Para frente, todo mundo corre. Quero ver correr para trás. Eu vou dar um exemplo do Valverde no Real Madrid. O Ancelotti usava muito ele, e no Brasil hoje a gente não tem esse cara.
Você fala das dores, e eu queria saber se aquele pênalti perdido contra o Paraguai, na Copa América de 2011, foi uma das suas maiores dores no futebol. – Todo erro que acontece, toda a derrota, principalmente para quem tem muito compromisso com si mesmo, pesa. Mas é o que eu digo: o choro tem que durar uma noite só, porque a vida tem que seguir. O que não dá é para fazer de novo. Porque, o (pênalti) da Seleção foi um erro de contexto, não dá para desculpar, mas o campo interferiu na forma de acontecer. Eles fizeram os gols, e nós não fizemos. E fizeram no mesmo campo.
– Eu assumo o meu erro. Poderia ter sido diferente. O (pênalti de cavadinha) contra o Flamengo, por exemplo, foi uma irresponsabilidade. Aquilo é um aprendizado. São coisas que não deve-se fazer. Não que não se deva fazer, porque o Djalminha, por exemplo, era uma arte. Mas comigo foi uma irresponsabilidade, porque não era daquele jeito que eu fazia.
– Então, tudo é aprendizado. Eu costumo dizer que só quando você faz umas melecas desse tamanho que você entende o tamanho que você tem. E eu, muitas das vezes, não entendi o tamanho que eu era. E nesses acontecimentos entendi o tamanho que eu era. De passar na rua, o cara de moto gritar do outro lado. Aí eu falava: "rapaz, não sabia que eu era tão grande assim".
Depois do pênalti pela Seleção? – Seleção, Flamengo, tudo. Porque juntou tudo, né? Aí eu começo a dar risada, porque parece que é irônico da pessoa, mas não é. Eu achava engraçado, e falava: "caramba, velho, eu acho que minha carreira é boa mesmo, porque está todo mundo me xingando". E não tem jeito, você vai tomar porrada. Aprende por bem ou aprende por mal. Você quer ser exposto? Então tudo bem, não tem problema nenhum. Só que a hora que acontecer um erro também, você se prepara, porque a enxurrada de pancada é grande.
Era um momento de crescimento das redes sociais, o seu pênalti perdido acabou virando um meme. – Até hoje. Virou meme. Hoje eu brinco em casa, né? Acontece alguma coisa e eu falo: "é Elano que você aprende". Não tem problema. Você tem que entender que o seu tamanho é o tamanho da pancada que vai sofrer. Aí você tem suporte, tem coragem, tem culhão pra segurar o negócio? É isso aí, você vai ter que retomar. E ao longo do tempo eu retomei.
Você falou: "o choro tem que durar uma noite só". Mas eu imagino que ali não tenha sido só uma noite em que isso ficou na sua cabeça, né? – É para a vida, mas tem que seguir com a dor, tem que fazer, produzir. Empresa é resultado. Futebol é resultado. Seu trabalho é resultado. Se não, trazem outro. Você tem que trabalhar na pressão todo dia. Eu brinco com o Kaká, e falo: meu, vocês nasceram prontos para ser jogador, pô. Eu não. Eu me formei um jogador. Você é melhor do mundo, Neymar tem talento, Robinho tem talento, Ronaldinho, Ronaldo. Eu fui formado. Eu fui aprendendo a chutar com uma, chutar com a outra, dominar bem, passar bem, cabecear bem. E eu fui inteligente. Para jogar, eu posso dizer que fui inteligente. Acho que estive no nível em que joguei por muito tempo, em alto nível, porque fui inteligente.
Sem falar que, apesar de ter ficado a marca desse pênalti, você tem títulos pela Seleção e números excelentes. Você não sentia o peso de vestir a amarelinha? – Eu nunca falei sobre isso que eu vou te falar agora. Eu só parei de jogar porque não queria disputar as divisões inferiores, em estádio vazio, campo ruim, lugar que não tinha público. Eu gosto do bicho pegar. Eu gosto da pressão, não consigo viver sem adrenalina. E brincava com as duas gerações do Santos, falava para Diego e Robinho, e falava para Ney e Ganso. Quando chegava nas finais, eu falava: "olha, agora é a minha vez, hein?". Porque eu sabia que ia sobrar para mim, entendeu? Eu gostava. Seleção era isso. Seleção, para mim, era um teste de sobrevivência.
– Quando cheguei na Seleção era Kaká, Ronaldinho, Robinho e Adriano. Falei comigo: vou ter que arrumar um jeito de jogar. Não sei onde o treinador vai me colocar, porque não sou melhor do que esses caras, mas vou dar um jeito, ele vai ter que me colocar. Eu acredito muito naquilo que eu faço, sabe? E treino! Não é acreditar e ficar sentado. Eu treinava muito no anonimato. Era o último a sair, ficava chutando de direita, cruzando, batendo falta de direita, batendo escanteio de esquerda... A rodinha (de aquecimento), o "dois sem coxa", para mim era treino, nada era brincadeira. Porque eu não era igual aos caras. Eles eram melhores do que eu. Só que eu precisava estar a ponto de bala. Saiu uma falta, preciso bater bem. Saiu um escanteio, preciso bater bem. Se tiver uma oportunidade, eu tenho que fazer o gol. Se eu perder, eu não volto.
– Eu me preparava para os grandes momentos. Eu nunca me preparei para jogar um jogo pequeno. O jogo pequeno, para mim, era obrigação. Eu falava: se eu quero ser grande, se quero ter uma carreira boa, preciso ganhar dos grandes. Eu tenho isso aqui comigo. Isso aí está enraizado, isso é meu. Eu entendo que os caras são melhores. Eu entendo que o Palmeiras hoje é referência. Mas eu quero que o Santos chegue lá. E é assim que eu penso como ser humano, como fui como atleta e como sou agora. Por isso que eu estou cheio de gás.
Sobre o "bicho pegar", logo no começo da sua carreira você teve uma final de Campeonato Brasileiro contra o Corinthians, num Morumbi lotado, com o Santos vivendo uma pressão enorme pelo jejum de títulos... O que aquele time tinha de mais especial? – A gente não sentia o peso da pressão. Mas tem alguns pontos importantes. A torcida do Santos estava com as bandeiras de cabeça para baixo, só que em nenhum momento ela nos xingava. Eles entenderam que aquele momento era de protestarem sem afetar o campo. Então, nós tínhamos uma forma leve de conduzir aquele momento, e as coisas foram se desenrolando. Vou dar um exemplo: na final, quando o Corinthians faz 2 a 1, e a gente vem com a bola do gol para o meio, eu olho para trás e nosso time está normal. Não está aquela coisa, "ferrou". Não, tava tudo normal, "bora", tá 2x1. O título é nosso, pô.
– A gente tinha uma convicção de time, uma leveza, que a gente ganharia o campeonato. Mesmo sabendo que os três times que nós enfrentamos nessa fase eram duríssimos. O time que mais nos preocupava era o Grêmio. Porque Corinthians e São Paulo nos enfrentariam. O Grêmio esperaria. Quando o time nos enfrentava, dava o que a gente gostava: espaço e contra-ataque, transição. Foram assim o segundo e o terceiro gols. Então, a hora que sai a bola eu toco no Robinho, o Anderson, do Corinthians, dá um carrinho, o Robinho vem com a bola e eu venho gritando já. A hora que ele veio eu estava quase com a camisa na cabeça (risos).
Quando vocês criaram essa convicção de que o time seria campeão? – Quando o Gama ganhou do Coritiba de 4 a 0 (na última rodda da primeira fase) e nós classificamos. Falamos: agora esquece. A atmosfera de Santos, né, cara? As bandeiras, os prédios, a cidade muda. Vocês conhecem lá, vocês sabem. Estava bonito de ver. Lógico que você não tem certeza, porque o São Paulo era um puta time. O Grêmio, o Corinthians. Eram dois, três times que, meu Deus do céu. Só que a gente estava num momento tão mágico, que falamos: é nosso, não tem jeito. Agora esquece. E aí a gente começa com o São Paulo lá, três. Aí vem no Morumbi, três. Aí o Grêmio, três. Aí chegamos na final 2 a 0 o primeiro. Foram várias coisas: a leveza, a organização, a molecada, nossa forma de ser, o Leão. Acho que o Leão foi um ponto. A braveza do Leão nos organizou. Ele foi extremamente importante pra essa conquista.
Aquele elenco ainda mantém contato? – Opa, temos um grupo (no WhatsApp). Tem o de 2002 e 2004.
E quem é o mais ativo lá, que manda bom dia, figurinha...? – Ah, tem os caras que mandam todo dia. Pô, sempre todo dia. Tem o Mateus, que era o terceiro goleiro, contador de piada. Conta piada até hoje. E conta as mesmas. Desde 2002 e 2004, as mesmas piadas (risos). Pô, Matheus, você não mudou a piada, pô. Não dá pra ouvir mais essa. Mas a galera é boa.
Estamos falando de 2002 e é impossível não te perguntar sobre o Robinho, um grande e velho amigo seu. Você manteve contato com ele após a prisão? Chegou a visitá-lo? – A minha relação com ele é normal. Eu não posso... Da mesma forma que eu não o condeno e outras causas... Eu já até tive amigos que cometeram outros delitos, que passaram pela mesma coisa, e quando sai, e quando tem a sua família, eu tenho uma relação.
– Eu tenho 21 anos de carreira, desses 10 ou 11 anos com o Robinho. Eu não posso compactuar e aceitar a situação. Eu acho que é triste para ele, para a família, principalmente eu tendo três filhas em casa. Mas o meu amor por ele, a família dele, o Juninho, o Gianluca, a filha (Giulia), a Vivian (esposa). Eu falo com a Vivian. O Gianluca está na base do Santos também. Então, eu tentei, fui no presídio em Limeira, confesso para você que fui para tentar vê-lo, não consegui. Deixei o meu recado. Porque quem sou eu pra condenar alguém?
– Eu acho que cabe a ele ou a quem comete o delito que consiga restaurar isso e voltar atrás para que sirva de exemplo a outras pessoas. Mas eu, como amigo, não posso deixar de ser amigo. Principalmente falando de famílias, eu peguei os filhos dele no colo. Então eu tenho quatro anos de Santos (com Robinho), tenho quatro anos de Seleção e tenho dois anos na Inglaterra, com ele e com a família. E eu posso dizer que a maioria dos gols que fiz quem me deu o passe foi o Robinho. Ele faz parte da minha vida. Costumo dizer que a maioria das fotos que eu tenho na minha casa é com ele. Seria injusto da minha parte se eu não (mantivesse contato). Respeito.
– Depois ele vai sair de lá com a dívida paga. Não acho legal tudo o que aconteceu. Quem mais tem a perder disso tudo é ele. Porque ele era um cara extrovertido, era um cara alegre, com talento maravilhoso. Era um cara que estaria até hoje brilhando com seus dribles, com a sua alegria, com a sua descontração. Costumo dizer que tem dois caras que eu conheci na minha vida de profissional que alegra o vestiário como ninguém: Denílson e Robinho. Esses dois caras fazem falta em ambiente de futebol.
– Quando se fala de Santos, às vezes não se fala de Robinho, isso me entristece, sabe? É o que eu digo sobre prejuízo, porque ele construiu isso. Se não fala, é porque ele errou. Então, cabe a gente respeitá-lo, e as consequências (do crime), ele está pagando. Acho que a gente não precisa ficar dando facada. Acho que ele está lá, já está pagando as suas dores, a ausência da família, tudo que a gente sabe. Mas, historicamente, falando de futebol dentro do campo, não tem como você deixar ele fora do contexto entre os maiores que eu vi jogar no Santos.
Você comentou que tentou visitá-lo e não conseguiu. Você ainda pretende visitá-lo? – Se for autorizado, porque eu também não posso trazer nenhum tipo de problema para ele, porque só é autorizada a família visitá-lo. Claro que se alguém ver essa entrevista e deixar, eu quero. Como eu já fui em outras situações também, de amigos do interior que aconteceram alguns delitos, que eu também já consegui encontrar. Eu acredito muito que também não fui um cara perfeito. Graças a Deus, não cometi coisas desse tamanho, para eu pagar por isso. Mas eu cometi erros que me trouxeram prejuízo também, que fui resgatado por alguém. Mas a consciência de deixar de falar a verdade para ele ou para qualquer um, eu nunca vou deixar.
E como você lida com essa situação com o Robinho Jr no dia a dia? – Eu procuro ser um amigo para ele. Eu nem toco muito nesse assunto. Com ele eu falo mais a questão profissional mesmo. Eu tenho uma relação de ajuda também, mas bem profissional para que eu possa ajudá-lo, né? Que é o meu objetivo com o Juninho também, formá-lo. Mas ele está no profissional. Se ele vier para cá, eu cuido dele direitinho. Lá os meninos tão cuidando também.
Quem são os seus maiores amigos no futebol? – Rapaz, eu tenho amigo, hein? O Renatinho é um cara que eu conheço desde 1997 no Guarani. Posso dizer que é o meu melhor amigo em todos os aspectos. Não o encontro direto também, mas a gente tem afinidade, amizade, cumplicidade. É um dos caras que eu mais falo, mas eu falo com muita gente dentro do futebol. Eu sou amigo do Rivellino, do Careca, do Zé Sérgio. Nós somos todos vizinhos. É maravilhoso isso. E o Kaká é o que eu mais falo. A gente demora, às vezes, uma semana, dez dias, mas está sempre em contato. E no aniversário das crianças a gente se encontra.
Você também teve sucesso fora do Brasil, jogou no Shakhtar Donetsk, da Ucrânia, Manchester City, da Inglaterra, Galatasaray, da Turquia... Qual foi o país mais legal de viver e qual foi o mais difícil? – O mais difícil foi a Ucrânia. Não foi ruim, foi difícil. O centro de treinamento que o Shakhtar oferecia era absurdo, maravilhoso. Mas o dia a dia é muito difícil. Depois, através da Seleção, eu consegui ir para a Inglaterra. Os jogos (do Brasil) em Londres, por exemplo, me abriram o mercado inglês. Eu tive uma proposta para ir para o Arsenal, acabou não saindo, e eu fui para o Manchester City. E aí nós fizemos uma campanha maravilhosa lá em 2007, que foi quando o sheik comprou, em 2008, e aí se tornou o Manchester City de verdade.
Você pegou o começo dessa trajetória de sucesso do clube, né? – Eu posso dizer que eu coloquei o primeiro tijolo ali. Porque eu fiz 14 gols no ano, nós acabamos a Premier League em sétimo. Classificamos o time para a UEFA e ganhamos dois Clássicos do United. Ganhamos no Old Trafford e ganhamos no Etihad, que ainda tinha outro nome. Nós viramos a chave dessa geração para depois se tornar o que é hoje. Meu capitão era o Kompany, que chegou um mês depois de mim.
E no fim da carreira, você vai para a Índia também. – Sim, eu vou para a Índia. Saio do Santos, vou para o Grêmio, depois Flamengo. Aí o Flamengo, uma confusão danada. Ganhei o Carioca, estava jogando Libertadores, o time desclassificado, eu falei: "cara, não aguento mais, estou cansado. Não vou conseguir me entregar". No Flamengo, o bicho pega, é tumulto. Na churrascaria, o cara ia cortar um pedaço de carne e falava: "e aí, Mengão, vai ou não?". Pô, irmão, corta a carne primeiro (risos).
– Aí eu estou há três meses na praia jogando futevôlei, aparece um cara de bicicleta, coisa de Rio de Janeiro: "vamos para a Índia?". Estou no Rio de Janeiro, morando na Barra, você quer me levar para a Índia por dois meses e meio?". Falei: "pera aí, deixa eu ir para casa e vou falar com a minha esposa". Fui em casa, falei a situação, só que eu tinha que ir sozinho, porque morava todo mundo em hotel.
Mas quem era essa pessoa que chegou de bicicleta? – Era o Marcelo Sander, um cara que jogou no Fluminense. E o Beto, um outro cara que jogou futebol e estava morando fora. Aí falei: "cara, me explica por que você apareceu aqui do nada?". Ele falou que o Ronaldinho ia, só que ele tinha os compromissos dele e acabou não conseguindo ir um mês, precisava levar alguém para o time, o Chennai. E foi uma época que estava o Roberto Carlos, o Trezeguet, Del Piero, Anelka, eu... E o meu time tinha Materazzi de treinador, o Nesta, um ex-zagueiro do United, o Silvestre, e o Mendy, francês. E aí precisava, precisava do "marquee player", o principal do time.
– Cara, foi maravilhoso. Foi um puta campeonato de dois meses e meio. E aí depois perdemos a semifinal. A dona do time tinha uma ligação com os atores da cidade, usava isso para levar pessoas ao estádio. Tinha média de 25 a 30 mil pessoas. Perdemos a semifinal, e aí voltei.
Você mencionou que a braveza do Leão ajudou aquele Santos de 2002. E a braveza do Dunga? Como foi trabalhar com ele? – Baita cara. Eu não sei se outro treinador teria me levado tantas vezes para a Seleção igual ele fez. Ele me levou e me colocou em oito jogos no início, oito jogos de titular que me colocaram na Copa do Mundo. Gratidão ao Dungão. Seria injusto da minha parte se eu falasse qualquer coisa diferente.
Mas tem um lado bravo ou isso é só com quem está do lado de fora? – É um cara bem firme nas suas posições, né? Acho que o treinador tem que ser, tem suas posições firmes, faz parte, mas o dia a dia ali era de resenha, de história, contar as coisas, ele e o Jorginho, o Paixão, a comissão toda era muito parceira. Muito bacana, foi um trabalho bacana.
Qual o seu maior orgulho na carreira? – Meu maior orgulho é olhar pra trás e saber que os dias de futebol no meio de um canavial em Iracemápolis, com os meus pais, me ensinaram tanto para ser o que eu fui. Da mesma forma que eu joguei futebol no canavial, foi a forma que fiz na Copa do Mundo, com a mesma essência, com a mesma seriedade, com os mesmos sonhos. Eu acho que isso conta demais. Você não pode parar nunca de sonhar. Eu acho que é isso que dá o frio na barriga, que te motiva. E eu agradeço a Deus pelo dom de jogar futebol e de ter sido um cara muito quisto pelas pessoas. Acho que fui um cara justo, e as pessoas me tratam com muito respeito também. Acho que isso é o maior legado que eu tenho na minha vida. Acima de todas as conquistas que tive.
Frustração ficou alguma? – Frustração? Acho que eu tive acidentes. Foram acidentes de percurso devido às situações que o futebol te proporciona. Eu acho que é isso. Mas um peso, uma coisa que eu carrego sem cura, não tem. Graças a Deus.
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