• Terça, 12 de Maio de 2026

Tocas de tatu-canastra viram refúgio para rãs durante seca no Pantanal

Pesquisa identificou anfíbios em quase 90% das cavidades analisadas, usadas como abrigo e alimento no bioma

INARA SILVA / CAMPO GRANDE NEWS


O biólogo Mateus Yan durante o trabalho a campo (Foto: ICAS)

As tocas escavadas pelo tatu-canastra no Pantanal funcionam como abrigo para rãs durante os períodos de seca e ajudam os anfíbios a sobreviverem em condições extremas do bioma. A constatação é de um estudo recente que identificou a presença frequente desses animais dentro das galerias subterrâneas abertas pelo maior tatu do mundo.

A descoberta ocorreu durante uma pesquisa conduzida pelo biólogo Mateus Yan, que investigava a presença de artrópodes nas tocas do tatu-canastra (Priodontes maximus). Segundo o pesquisador, os anfíbios começaram a aparecer repetidamente nas armadilhas instaladas dentro das galerias. “Foi uma surpresa, porque até então não havia relatos de anfíbios utilizando essas tocas', afirmou Yan.

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Publicada na revista científica Studies on Neotropical Fauna and Environment, a pesquisa inédita revela que as tocas desempenham um papel muito mais crítico para a biodiversidade do Pantanal do que se imaginava.

Segundo os pesquisadores, as galerias oferecem condições favoráveis para os anfíbios enfrentarem os períodos de seca intensa, pois, como possuem pele permeável e são sensíveis à perda de água, esses animais dependem de ambientes úmidos para sobreviver.

“As tocas mantêm temperatura e umidade relativamente constantes ao longo do ano, independentemente das mudanças do clima no Pantanal. Quando associamos a biologia dos anfíbios com as características dessas estruturas, faz muito sentido que eles se refugiem ali durante períodos de temperaturas extremas', explicou Yan.

Anfíbios - Durante o estudo, os pesquisadores analisaram 36 tocas no Pantanal e encontraram anfíbios em 31 delas, o equivalente a quase 90% das amostras. Foram registradas 4 espécies, com predominância de rãs do gênero Physalaemus, conhecidas popularmente como rãs-choronas.

Em média, os cientistas encontraram cerca de seis indivíduos por toca, mas em um dos registros aproximadamente 30 rãs ocupavam a mesma estrutura subterrânea.

Embora já se soubesse que mais de 370 espécies de vertebrados e invertebrados utilizam esses espaços como abrigo, esta é a primeira vez que o uso por anuros (sapos e rãs) é documentado e quantificado.

Durante o estudo, os pesquisadores registraram mais de 300 espécies de invertebrados vivendo nas galerias, especialmente formigas, que fazem parte da dieta de muitas rãs.

“Eles encontram ali não só proteção contra a seca, mas também alimento. Isso reduz a necessidade de deslocamento em busca de recursos, o que economiza energia em períodos críticos', destacou o pesquisador.

Engenheiro do ecossistema - Conhecido como um 'engenheiro de ecossistemas', o tatu-canastra pode atingir 50 kg e 1,5 metro de comprimento. Segundo o coordenador do Projeto Tatu-canastra Pantanal, Gabriel Massocato, essas tocas podem atingir até cinco metros de comprimento e 1,5 metro de profundidade, formando micro-habitats utilizados por diversos animais.

“Quando ele cava uma toca, cria um micro-habitat que pode ser usado por várias espécies. Já registramos mamíferos, répteis e aves utilizando essas estruturas. Agora vemos que os anfíbios também se beneficiam delas', afirmou.

Pesquisas de longo prazo realizadas pelo ICAS (Instituto de Conservação de Animais Silvestres), responsável pelo Programa de Conservação do Tatu-canastra, indicam que essas tocas podem permanecer ativas no ambiente por anos, servindo de abrigo para diferentes espécies em diversos períodos de seca intensa, calor extremo e até incêndios.

O artigo ressalta que, no cenário de mudanças climáticas e aumento das queimadas no bioma pantaneiro, a manutenção dessas 'casas naturais' pode ser o diferencial entre a sobrevivência e a extinção local de diversas espécies de anfíbios. Por isso, o estudo reforça a necessidade de integrar a conservação do tatu-canastra em estratégias mais amplas de proteção da fauna brasileira.

Confira a galeria de imagens:

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