• Quarta, 27 de Maio de 2026

Operação da PF expõe diferença de transparência entre previdências de MS

Angélica detalha aplicação no Master, mas Fátima do Sul ainda cobra nota do instituto

KAMILA ALCâNTARA / CAMPO GRANDE NEWS


Entrada principal da Iprefsul, o instituto previdenciário de Fátima do Sul (Foto: Reprodução)

A operação da PF (Polícia Federal) sobre aplicações de institutos previdenciários municipais no Banco Master expôs uma diferença de transparência entre as duas autarquias investigadas nesta quarta-feira (27). Foram apreendidos 13 celulares, seis computadores, quatro HDs, quatro pendrives e uma pasta com atas de reuniões relacionadas à instituição financeira.

Enquanto o IPA (Instituto de Previdência dos Servidores Públicos Municipais de Angélica) mantém relatórios mais recentes sobre os investimentos e divulgou nota informando o resgate dos recursos, o IPREFSUL (Instituto de Previdência dos Servidores Municipais de Fátima do Sul) tem informações públicas menos acessíveis e dados mais atualizados localizados pela reportagem ainda referentes a 2023.

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As operações Zehirut e Charitzut apuram aplicações feitas pelos dois regimes próprios de previdência municipal em letras financeiras do Banco Master. Ao todo, os investimentos somaram R$ 9 milhões, sendo R$ 2 milhões em Angélica e R$ 7 milhões em Fátima do Sul. A PF cumpriu mandados de busca nas duas cidades e também em São Paulo (SP). As medidas incluem ainda a suspensão cautelar do exercício das funções públicas de alguns investigados.

No caso de Angélica, o portal do instituto permite acompanhar a presença do Banco Master na carteira de investimentos. No relatório de novembro de 2024, o IPA informava R$ 2.081.746,89 aplicados no banco, o equivalente a 5,09% das participações. Na última declaração localizada pela reportagem, referente a agosto de 2025, o valor aparecia em R$ 2.276.887,05, ou 4,80% da carteira.

Em nota oficial, a Prefeitura de Angélica afirmou que o IPA é uma autarquia municipal, com personalidade jurídica própria, autonomia administrativa e financeira, e competência exclusiva para gerir os recursos do RPPS (Regime Próprio de Previdência Social). A administração municipal também declarou que as decisões sobre credenciamento de instituições financeiras, análises de investimentos, aplicações e resgates são tomadas pelo Comitê de Investimentos e pelo Conselho Curador do instituto, sem interferência do Executivo.

A nota diz ainda que a aplicação financeira de R$ 2 milhões em letras financeiras do Banco Master foi totalmente resgatada em 12 de novembro de 2025, sem prejuízo financeiro ao instituto ou aos beneficiários. Segundo a Prefeitura, os procedimentos seguiram a política de investimento vigente, a orientação da consultoria financeira do IPA e foram registrados em ata.

O prefeito de Angélica, Edinho Cassuci (PSDB), reforçou ao Campo Grande News que a prefeitura não faz a gestão do instituto e que os celulares de integrantes da diretoria foram levados durante a operação. “O Instituto é uma autarquia. Ele tem autonomia administrativa e financeira. É totalmente independente', afirmou. Segundo ele, a aplicação teria sido retirada antes da liquidação do banco, após orientação da assessoria financeira.

“Quando o Banco Master começou a dar sinais de não honrar os compromissos, eles sacaram o recurso uma semana antes. Então, em Angélica, não houve prejuízo do capital', disse. Na entrevista, porém, o prefeito também tratou o instituto como “entidade privada', ponto que exige ressalva técnica: o próprio comunicado oficial da administração define o IPA como autarquia municipal, ou seja, uma entidade pública com autonomia administrativa e financeira.

Já em Fátima do Sul, a situação é menos clara. O prefeito Wagner Wagner Roberto Ponsiano (PSDB) afirmou que a prefeitura não recebeu informação oficial detalhada sobre a operação e que o instituto estava fechado após a presença da PF. “A princípio, de momento, a gente está sabendo o que vocês estão sabendo. A Polícia Federal parece que esteve lá no instituto', disse.

Segundo ele, a administração municipal aguarda uma manifestação do próprio IPREFSUL. “Não chegou informação oficial. Nem com o pessoal do instituto nós conversamos ainda', afirmou.

Wagner afirmou que a prefeitura não foi alvo da investigação e que não há servidores da administração municipal envolvidos. Ele também defendeu que a ida da PF pode ajudar a esclarecer o caso. “Para nós, essa vinda da polícia, da investigação, é a melhor coisa do mundo. Já esclarece e coloca os fatos às claras', declarou. “Eu acho que o instituto tem que oficializar, fazer uma nota', completou.

Diferentemente de Angélica, onde a reportagem localizou relatórios mais recentes com a posição do Banco Master na carteira do instituto, o portal do IPREFSUL apresenta consulta menos acessível e informações mais antigas. Até a atualização desta reportagem, os dados públicos mais atualizados encontrados eram de 2023, antes da aplicação de R$ 7 milhões informada na investigação.

O próprio prefeito de Fátima do Sul reconheceu que espera uma explicação oficial do instituto. Ele disse ser servidor público há 25 anos e contribuinte da previdência municipal. Também afirmou que o caso não afeta diretamente os repasses dos servidores, mas admitiu que o instituto busca formas de tentar reaver os valores aplicados no Banco Master. “Foi um recurso que foi feito na aplicação do Banco Master, no qual o Banco Master deu esse calote. O instituto está vendo as formas de tentar reaver. A gente acha que é difícil', disse.

Após o Banco Central liquidar o Banco Master, o banco enfrenta investigação por suspeita de maquiar rendimentos de aplicações financeiras feitas por diversos institutos de previdência municipais. A captação em fundos de previdência foi uma das frentes do banco depois de restrições impostas a operações voltadas a investidores pessoas físicas, principalmente por meio de CDBs (Certificados de Depósito Bancário).

Operações Zehirut e Charitzut fazem referência, em hebraico, aos princípios de prudência e diligência na gestão de recursos públicos. A investigação agora mira justamente se esses dois critérios foram observados nas aplicações feitas pelos institutos municipais de Mato Grosso do Sul.

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