• Sexta, 10 de Julho de 2026

Quanto vale quem não serve mais

GILLIANNO MAZZETTO (*) / CAMPO GRANDE NEWS


Caro(a) conviva,

Ninguém vira inseto da noite para o dia. A gente vai virando, prestação por prestação, rotina por rotina, até que um dia olha no espelho e não reconhece mais quem sustenta a casa. Foi assim com Gregor Samsa, o caixeiro-viajante que Kafka transforma, numa manhã qualquer, num inseto monstruoso. E é assim, silenciosamente, com muita gente que você conhece, talvez com você mesmo.

A cena mais cruel de 'A Metamorfose' não é a transformação. É o que vem depois: a família, aos poucos, deixando de ver Gregor como filho e passando a vê-lo como estorvo. Ele não morre no primeiro parágrafo. Morre todos os dias, um pouco, à medida que deixa de ser útil. Há aqui uma crueldade: a do utilitarismo funcional, normalizado com o passar do tempo. Os dias passam e o mal se torna banal.

Eu me lembro de uma reunião em que discutíamos o desligamento de um profissional que havia dado trinta anos de vida à instituição. Alguém disse, sem malícia, quase com pena: 'ele já não entrega o que entregava'. A frase me atravessou, porque era verdade, e porque era exatamente a lógica dos Samsa. Ninguém ali era mau. Todos éramos, apenas, eficientes. E a eficiência, quando vira critério único de valor humano, é uma forma elegante de crueldade. Ela se livra sem titubear. Há nela uma consciência de dever cumprido.

Antes de virar inseto, Gregor já não se via como filho, irmão ou homem com direito ao repouso. Via-se como provedor da família. Sua identidade estava reduzida a uma função muito antes da metamorfose física acontecer, o inseto é só a revelação visível de algo que já havia se instalado por dentro. Essa é a inversão que Kafka nos obriga a fazer: não é Gregor quem se torna monstruoso. É a família. É o pai que atira maçãs contra o próprio filho. É a irmã, Grete, que primeiro cuida dele com ternura e depois, exausta, declara que é preciso 'se livrar dele'. A verdadeira metamorfose do livro é a da família, que se transforma de gente em contabilidade. Cada gesto de cuidado vira custo. Cada minuto perdido com ele vira minuto perdido de vida própria. O provedor vira peso, porque deixou de ser útil.

E aqui uma dura realidade da natureza humana: em geral, tendemos a amar as pessoas pelo que elas fazem por nós até o dia em que precisamos amá-las pelo que elas são, e é nesse dia que a maioria de nós fracassa.

É fácil apontar o dedo para os Samsa e esquecer que carregamos, dentro de nós, o mesmo cálculo silencioso. O colega que já não rende como antes. O pai idoso que virou um problema logístico. O amigo em crise que passamos a evitar porque sua dor exige tempo que não temos. Nelson Rodrigues diria, sem pudor, que todos nós temos um pouco de família Samsa escondido no armário da consciência, e que a hipocrisia começa exatamente na certeza de que jamais seríamos capazes disso. Porque, afinal, são os outros que fazem assim.

Gregor morre sozinho, num quarto trancado, esquecido pela própria família que sustentou por anos. A cena final é quase insuportável em sua indiferença: os pais e a irmã, aliviados com a morte dele, saem para passear e planejar o futuro. A vida segue. É sempre assim que a vida segue quando alguém deixa de ser útil: sem drama, sem culpa, só um leve e despudorado alívio disfarçado de luto.

E aí, caro(a) leitor, fica a pergunta para você: quando alguém ao seu redor parar de 'render', por doença, idade, fracasso ou simplesmente cansaço, que tipo de família você vai ser? A que atira maçãs, ou a que continua vendo gente onde os outros só enxergam um inseto?

Pense nisso.

(*) Gillianno Mazzetto é filósofo e doutor em psicologia.

Os artigos publicados com assinatura não traduzem necessariamente a opinião do portal. A publicação tem como propósito estimular o debate e provocar a reflexão sobre os problemas brasileiros.

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