Coronel Sapucaia
MS já tem projetos em mercado de carbono que pode movimentar R$ 2,36 bilhões
Estudo estima potencial de 314,3 milhões de créditos no agro brasileiro até 2035
ANDERSON VIEGAS / CAMPO GRANDE NEWS
Mato Grosso do Sul já abriga projetos agropecuários inseridos no mercado de carbono, setor que pode abrir uma nova fonte de receita para o campo nos próximos anos. Estudo estima que o agronegócio brasileiro tenha potencial para gerar até 314,3 milhões de créditos de carbono entre 2025 e 2035.
Em um dos cenários traçados pelos pesquisadores, a comercialização internacional de apenas 5% desse potencial poderia movimentar R$ 2,36 bilhões. Em outro cenário considerado pelo levantamento, o valor poderia chegar a R$ 3,54 bilhões. Os montantes são estimativas para todo o agronegócio brasileiro, e não exclusivamente para Mato Grosso do Sul.
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O levantamento foi elaborado pela consultoria Carbonn Nature, com apoio do Instituto Equilíbrio e do IEAG (Instituto de Estudos do Agronegócio), da ABAG (Associação Brasileira do Agronegócio). A análise considera projetos capazes de reduzir ou retirar gases de efeito estufa da atmosfera e transformar esses resultados em créditos de carbono.
Cada crédito representa uma tonelada de CO₂e (dióxido de carbono equivalente) que deixou de ser emitida ou foi removida da atmosfera. É esse ativo que, cumpridas as regras previstas para o mercado, pode ser comercializado.
O estudo trabalha com três cenários de desenvolvimento desse mercado. O mais amplo, que considera projetos já registrados e outros ainda em diferentes fases de desenvolvimento, chega aos 314,3 milhões de créditos até 2035.
A possibilidade de transformar todo esse potencial em receita, entretanto, ainda depende da regulamentação brasileira, da autorização para transferência internacional dos créditos e das condições de preço e demanda.
MS já aparece entre os projetos
Mato Grosso do Sul está entre os estados alcançados pelas iniciativas mapeadas pelo estudo. No levantamento, aparece na faixa de mais de nove projetos, embora os pesquisadores façam uma ressalva: algumas iniciativas abrangem simultaneamente mais de um estado, portanto o número não representa necessariamente projetos exclusivos de MS.
Duas experiências ajudam a mostrar como esse mercado já funciona dentro do agronegócio sul-mato-grossense. Uma está ligada à agricultura regenerativa e ao armazenamento de carbono no solo. A outra utiliza dejetos da criação de suínos para capturar metano e produzir biogás.
Em Cassilândia, a Fazenda Flórida integra o NaturAll Carbon Program, desenvolvido pela NaturAll Carbon. A iniciativa remunera resultados obtidos a partir de mudanças no manejo agrícola capazes de reduzir emissões ou aumentar a quantidade de carbono armazenada no solo.
Entram nesse modelo práticas como cobertura permanente do solo, rotação de culturas e pastagens, melhoria do manejo e uso mais eficiente de fertilizantes. Para participar, as propriedades também precisam atender a critérios relacionados ao histórico de utilização da área.
A experiência de Cassilândia já produziu resultado concreto. A Fazenda Flórida gerou 5.632 créditos de carbono e, segundo a NaturAll, protagonizou a primeira emissão brasileira certificada pela metodologia VM0042 e a segunda emissão mundial sob esse padrão.
O projeto foi estruturado para crescer. A proposta da NaturAll prevê a incorporação de outras propriedades, com possibilidade de alcançar 150 mil hectares.
É justamente esse modelo de manejo agrícola que concentra a maior parcela do potencial identificado pelo estudo. Foram encontrados 17 projetos brasileiros utilizando a metodologia VM0042, em diferentes estágios de desenvolvimento.
Considerando todo esse conjunto, a estimativa chega a 312,1 milhões de créditos de carbono até 2035, praticamente todo o potencial de 314,3 milhões calculado para as duas metodologias analisadas.
Dejeto de suíno também vira crédito
A outra frente já presente em Mato Grosso do Sul está dentro das granjas de suínos. O Brascarbon Methane Recovery Project BCA-BRA-17 utiliza os efluentes produzidos em sete granjas de suínos de Mato Grosso do Sul para capturar o metano que seria liberado durante a decomposição dos dejetos e transformá-lo em biogás.
O processo permite reduzir a emissão de um gás de forte efeito estufa e, ao mesmo tempo, aproveitar o biogás, inclusive para produção de energia nas próprias propriedades.
O projeto utiliza a metodologia internacional AMS-III.D, criada para medir a redução de emissões obtida com a recuperação do metano produzido pelo manejo de dejetos animais.
Segundo o estudo, o BCA-BRA-17 tem capacidade estimada de reduzir 55.560 toneladas de CO₂ equivalente por ano. Seu período de geração de créditos vai de fevereiro de 2021 a fevereiro de 2028.
O projeto sul-mato-grossense integra um universo de 43 iniciativas brasileiras identificadas pelo levantamento que utilizaram essa metodologia de recuperação de metano.
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