• Quarta, 12 de Agosto de 2026

Resignados, vizinhos de minicracolândias aprendem a conviver com a insegurança

Espaços perderam a função original e passaram a acumular lixo e abrigar pessoas em situação de rua

IZABELA CAVALCANTI / CAMPO GRANDE NEWS


Mateus olha para imóvel abandonado em frente à sua casa no Bairro Tiradentes (Foto: Osmar Veiga)

Em diferentes bairros de Campo Grande, terrenos abandonados, áreas verdes e imóveis que perderam a função original passaram a concentrar pessoas em situação de rua e usuários de drogas. São pontos que, aos poucos, entram na rotina dos moradores e comerciantes, juntamente com o lixo, o movimento constante e o receio de circular pelas ruas.

Para quem vive ou trabalha perto desses locais, a convivência se tornou uma espécie de adaptação forçada. Portões fechados, câmeras e o cuidado redobrado ao sair de casa passaram a fazer parte da rotina para quem não tem outra opção.

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No bairro Tiradentes, na Rua Francisco Lopes da Silva com a Dalva de Oliveira, funcionava o lava-jato do Gordão. O nome ainda aparece no resto de muro que sobrou, já que o resto da estrutura foi demolida e virou ponto de descarte de lixo e dormitório para moradores de rua.

Mateus Cáceres, de 25 anos, conta que a área próxima à casa onde mora mudou completamente nos últimos anos. Hoje, a residência tem concertina para aumentar a segurança.

“Vai fazer 2, 3 anos desse jeito. Funcionava um lava-jato, depois desmoronaram e virou um ponto de droga. Tem sujeira, bagunça. A gente fica sem segurança, o pessoal entra e sai toda hora, vira uma bagunça. Às vezes sai briga entre eles', comentou.

A presença constante de pessoas no local também alterou a rotina da família. Mateus afirma que evita sair de casa e permanece mais tempo dentro da residência. “Evito sair de casa, fico só para dentro. Junta muita gente na esquina.'

Na mesma região, Isabela Nogueira, que tem um espaço de design de unha há 2 anos, acompanhou a transformação do imóvel.

“Quando eu mudei para cá, era um lava-jato, era bem cuidado ali. O rapaz que tinha o lava-jato ali saiu, ainda ficou limpo, tinha portão. Quando ele saiu, começaram a jogar lixo. Fica um monte de usuários de drogas aí dentro, parece que fica aquele movimento de buscar droga.'

A movimentação também passou a ser percebida pelos clientes. “Tem algumas clientes que ficam preocupadas. Eu já estou acostumada, não vejo muito perigo, nunca tentaram entrar aqui. Eu comecei a ficar incomodada depois que os lixos começaram a aparecer. Já teve cliente que chegou aqui e perguntou se não é perigoso. Eu só fico de porta fechada aqui. Eu meio que me acostumei', pontuou.

No Parque dos Novos Estados, a situação é antiga. Quando a reportagem chegou ao local, já encontrou alguns andarilhos em frente às casas de madeira construídas na esquina das ruas Pinhão e Charim. Na calçada, os entulhos tomam conta e há um 'entra e sai' constante.

Mateus Augusto, de 25 anos, trabalha como atendente na loja de utilidades do pai. Conforme ele conta, um casal era dono de uma área verde que acabou sendo invadida e teve casas e barracos construídos.

Fotos do Google Maps confirmam a história. Em 2011, por exemplo, ainda havia mato e um cercado de madeira.

Apesar das reclamações de alguns vizinhos, Mateus afirma que nunca teve problemas diretamente com as pessoas que permanecem por lá.

“Eles nunca mexeram com a gente. Eles são educados, mas acabam tumultuando, tem vizinho que não gosta. Eles consideram muito o meu pai, meu pai é pastor. A gente não trata como alguém à margem da sociedade, quanto mais trata uma pessoa como delinquente, pior ela fica. Meu pai dá água, dá as coisas, eles pedem oração às vezes', disse.

A própria organização do grupo, segundo ele, faz com que situações como o acúmulo de lixo sejam resolvidas de maneira informal.

“Eles próprio vão se resolvendo, o lixo vem, daqui a pouco alguém manda tirar o lixo. Eles têm a regra deles.'

A rotatividade também é grande, mas alguns rostos já são conhecidos por quem vive no entorno.

“É bem rotativo, tem gente que não conhece, tem gente que fica aqui, a gente até sabe o nome. Os outros vizinhos já se queixaram e reclamam, isso é mais um problema social e do bairro.'

Mateus afirma que, apesar da tentativa de convivência, ainda existe cautela entre os moradores.

“Teve um vizinho que até cortou a árvore, porque tinha uma sombra, então para eles era favorável. Sempre tem que estar com pé atrás com eles, mas não tem o que fazer, a gente tenta conscientizar, falar da palavra de Deus', pontuou.

Na Vila Nhanhá, a situação já é velha conhecida por quem vive na região. Um sobrado abandonado na Travessa Novo Rumo, quase na esquina com a Avenida das Bandeiras, transformou-se em um cenário degradante e desolador ao longo do tempo, marcado pelo abandono, pelo acúmulo de lixo e pela sensação de insegurança, deixando a rua com aspecto de 'beco'.

Por diversas vezes, o imóvel já foi alvo de força-tarefa da Prefeitura, que retirou quilos de lixo, entulhos e objetos acumulados no local, numa tentativa de impedir que o espaço voltasse a ser utilizado como moradia improvisada. As ações, no entanto, parecem não ter sido suficientes. A situação sempre volta a se repetir.

A vendedora Joyce Trindade, de 38 anos, se mudou para o bairro em março e relata que a presença de pessoas em situação de rua e usuários de drogas interfere principalmente na rotina durante a noite.

“Fica meio complicado por causa desses sem teto que ficam na rua, esses usuários, é bem difícil a noite, muita bagunça na rua, andam a noite inteira, arrasta carrinho, botando fogo nas coisas para tirar o ferro dos fios.'

A sensação de insegurança fez com que a família adotasse medidas para tentar se proteger.

“A gente coloca câmera em casa, porque é o que tem. Nunca sentamos aqui na frente, só dentro de casa. Não ando a pé', disse.

Apesar do cenário, Joyce afirma que não pensa em deixar a casa. A estratégia, segundo ela, é conviver com a situação e redobrar os cuidados. “Acaba convivendo, tem que se cuidar', finalizou.

Medidas - A SAS (Secretaria de Assistência Social) informou que a Rede de Assistência Social do município desenvolve trabalho de abordagem por meio do Seas (Serviço Especializado em Abordagem Social) para pessoas em situação de rua.

O serviço atua por meio das equipes, 24 horas por dia, nos sete dias da semana, realizando abordagens em todas as sete regiões da Capital.

As ações são realizadas por meio de buscas ativas, denúncias pelos dois celulares e mapeamento das regiões conforme as demandas, a fim de ofertar os serviços às pessoas em situação de rua.

“Destacamos que o indivíduo tem por opção aceitar ou não o acolhimento. As recusas de atendimento por parte da população em situação de rua são um direito garantido pela Constituição Federal de 1988, em seu Art. 5º, Inciso XV', disse em nota.

No caso dos usuários de substâncias psicoativas, quando abordados pelo SEAS, muitos recusam o acolhimento em comunidades terapêuticas alegando a dificuldade, no momento, de iniciarem um tratamento.

“Nesses casos, nossas equipes intensificam as abordagens diárias nestes pontos já mapeados na tentativa de criar um vínculo com a pessoa e, aos poucos, convencê-la dos perigos de ficar nas ruas, oferecendo vaga em uma de nossas unidades de acolhimento ou da rede cofinanciada pela Prefeitura', completou.

Ainda de acordo com a SAS, foi criada a Gerência de Proteção Social para a População em Situação de Rua.

O objetivo é desenvolver ações por meio de um planejamento, que inclui elaboração de fluxos de trabalho integrados com a rede, a partir de reuniões intersetoriais; análise e proposta de criação de um Comitê Executivo Intersetorial para a População em Situação de Rua para fortalecer a articulação entre as políticas públicas; estudo para a criação de um Sistema Integrado de Regulação de Vagas e estabelecimento de parcerias com universidades para projetos de extensão e programas de estágio.

Para denunciar pessoas em situação de rua, basta acionar o Seas pelos telefones (67) 99660-6539, 99660-1469 e 156.

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