• Quarta, 12 de Agosto de 2026

Futura escola leva cultura terena das paredes ao jeito de usar os espaços

Aprovado pela comunidade, projeto ainda depende de etapas técnicas e recursos para sair do papel

AMANDA SANTOS / CAMPO GRANDE NEWS


A arquitetura foi pensada em conjunto com os usos que a comunidade pretende dar ao espaço. (Foto: Paulo Francis)

Depois de anos vendo cerca de 400 crianças saírem da Aldeia Urbana Água Bonita para estudar em outros bairros, a comunidade agora tem no papel a escola que gostaria de ter dentro de casa. O projeto, desenvolvido por professores e estudantes de Arquitetura e Urbanismo da Uniderp, foi pensado junto com os moradores, carrega referências da cultura Terena e prevê espaços que poderão ser usados por toda a aldeia. A proposta já foi aprovada pela comunidade, mas ainda precisa avançar nas etapas técnicas e conseguir recursos para virar obra.

A ideia surgiu durante uma visita técnica à comunidade. O que inicialmente seria uma oportunidade para os acadêmicos conhecerem outra realidade urbana acabou revelando uma demanda antiga de ter uma escola dentro da própria aldeia.

Segundo a coordenadora do curso, Gisele Yallouz, cerca de 400 crianças precisam se deslocar para bairros vizinhos para estudar. A partir da conversa com os moradores, os estudantes passaram o semestre desenvolvendo o projeto.

O trabalho envolveu acadêmicos de diferentes semestres, além de uma estudante do Trabalho Final de Graduação e integrantes do Escritório Modelo de Arquitetura e Urbanismo. Eles participaram de diferentes etapas, incluindo desenhos e a produção de uma maquete física.

O resultado prevê seis salas de aula, dois espaços multiuso, laboratório de informática, áreas administrativas e um grande refeitório.

Os espaços multiuso são uma das características que diferenciam a proposta. Eles poderão ser adaptados para atividades como aulas de línguas indígenas, artesanato e trabalhos manuais. A ideia surgiu da preocupação da comunidade em fazer da escola também um espaço de preservação cultural.

“Eles querem fortalecer a cultura, eles querem trazer a língua indígena', explica Gisele.

Outro destaque é a integração entre o refeitório, o espaço de convivência e a quadra esportiva. A organização permite que diferentes áreas sejam utilizadas mesmo quando não há aula. O refeitório, inclusive, foi pensado como o “coração' da escola, segundo a coordenadora.

A identidade indígena também aparece na própria arquitetura. As fachadas foram desenhadas com grafismos inspirados na cultura Terena, com formas geométricas, linhas, losangos e desenhos em preto sobre as paredes claras. Os padrões se repetem em diferentes blocos e ajudam a fazer com que a escola seja reconhecida visualmente como parte da comunidade. A construção também aposta em estruturas de madeira aparentes, grandes coberturas e espaços conectados e abertos para a circulação.

Para Gisele, essa foi uma das características mais interessantes trazidas pela própria comunidade. “A intenção é que os ambientes possam ser utilizados aos fins de semana e que o prédio não fique restrito às crianças de segunda a sexta-feira', explica.

A proposta também prevê áreas externas mais permeáveis, facilitando a circulação e permitindo que a comunidade utilize o espaço em diferentes momentos.

Auder Romeiro, de 45 anos, presidente da Associação de Moradores da Água Bonita, conta que os ambientes multiuso poderão receber rodas de conversa e atividades para adultos durante a noite.

'Acho fundamental a comunidade preservar a língua Terena e o grafismo. Viver na cidade tem contribuído para que essas referências sejam perdidas, e a escola pode ajudar a evitar que isso aconteça.'

O projeto ainda leva em conta o clima de Campo Grande. Entre as soluções previstas estão a ventilação cruzada e uma parte mais alta da construção para melhorar o conforto térmico, reduzindo a necessidade de ar-condicionado.

Para o professor Kleber Gomes, de 46 anos, um dos idealizadores, a arquitetura precisa estar acompanhada de uma proposta pedagógica que preserve a identidade indígena.

 'A intenção é que a escola seja bilíngue e trabalhe a cultura e a escrita dos povos indígenas dentro do contexto urbano.', diz.

A expectativa dele é que a obra possa começar em 2027. Até lá, a planta representa o primeiro passo concreto para transformar uma reivindicação antiga em um espaço de educação e cultura.

A cacica Alicinda também destaca a importância de manter a língua materna próxima das crianças. Para ela, ter uma escola dentro da comunidade ajuda a preservar conhecimentos que podem se perder quando os alunos estudam longe da aldeia.

O projeto apresentado ainda está na fase de estudo preliminar.  A concepção já foi definida e aprovada pela comunidade, mas ainda são necessárias as etapas de anteprojeto e projeto executivo. A construção depende da busca por recursos junto ao poder público.

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