Coronel Sapucaia
Trad e Catan convergem contra Riedel, mas divergem sobre o Estado
Oposição ao modelo econômico e político une candidatos que tentam romper o domínio de Reinaldo Azambuja
VASCONCELO QUADROS, DE BRASíLIA / CAMPO GRANDE NEWS
Um fosso ideológico separa os candidatos ao governo, Fábio Trad (PT) e João Henrique Catan (Novo), mas eles têm também entendimento e objetivos convergentes. Os dois sabem que, para levar a eleição ao segundo turno, precisam tirar uma lasca do capital eleitoral acumulado pelo governador Eduardo Riedel (PP e mais oito partidos), favorito nas pesquisas.
Os principais flancos a serem atacados são o modelo econômico e o projeto político que os dois identificam como concentrador e uma tentativa de prolongar o domínio do grupo liderado pelo ex-governador Reinaldo Azambuja (PL), candidato ao Senado, sobre o poder em Mato Grosso do Sul.
- Leia Também
- Enquete mostra que 42% não acompanham candidatos durante campanha eleitoral
- Em primeiro corpo a corpo com eleitores, Fábio Trad ouve demandas sobre saúde
Trad é mais direto e corrosivo sobre as causas. Atribui à falta de oposição nos últimos 15 anos a dificuldade de a sociedade enxergar a possibilidade de uma alternativa que combine desenvolvimento e proteção social.
“O modelo de Reinaldo e Riedel massacrou a oposição por intimidação, truculência e cooptação', afirma. Embora frise que há exceções entre jornalistas e veículos de comunicação, ele diz que a ascensão do grupo contou ainda com “uma certa complacência da mídia', produzindo “um monopólio opressivo que envenenou o oxigênio da democracia no Estado'.
Catan não usa a mesma linguagem. Sua crítica parte da direita e da experiência de quem rompeu com o campo político que hoje apoia Riedel. Ele reivindica para si o papel de representante da “verdadeira direita' e diz não querer administrar o Estado tal como está, mas “reformá-lo'. A convergência entre os dois, portanto, não é ideológica. É a percepção de que a eleição oferece uma oportunidade para contestar uma estrutura de poder que, embora por razões diferentes, ambos consideram necessário modificar.
Depois dos números - A crítica mais interessante que emerge das duas entrevistas que os candidatos deram ao Campo Grande News está na maneira como olham para o crescimento econômico de Mato Grosso do Sul. Nenhum dos dois nega a expansão do agro, da celulose, da infraestrutura ou dos investimentos privados. O que recusam é a transformação desses resultados em prova suficiente de que o modelo de governo deve continuar sem alterações ou como “monopólio', já que, no grosso dos investimentos, há também uma presença forte do governo federal e da iniciativa privada.
Trad pergunta quem participa dos efeitos desse crescimento. Ao falar do agronegócio, toma o cuidado de não transformá-lo em adversário, mas faz distinção entre a atividade concentradora de riqueza e a que produz impactos sociais positivos. O problema, para o candidato, é que o agro precisa “agregar valor' à produção para criar empregos de qualidade, e não apenas postos de trabalho sub-remunerados ligados à atividade agroexportadora.
A crítica se estende às comunidades que, segundo ele, ficaram fora da agenda econômica. Na experiência que acumulou na pré-campanha, Trad afirma ter encontrado entre indígenas, assentados, acampados, quilombolas e trabalhadores rurais uma “sensação de abandono'. E não atribui isso simplesmente à falta de dinheiro. “O Governo do Estado fez uma escolha', diz. É, segundo ele, uma “deliberação de modelo econômico' marcada pela “preterição, o alijamento, a exclusão dessas comunidades da mesa'.
Catan chega à avaliação parecida por outro caminho. Sua dúvida é quanto dos grandes resultados econômicos pode ser creditado à ação específica do governo. A expansão de setores como celulose e agro e a chegada de grandes investimentos, na sua avaliação, não podem ser automaticamente transformadas em demonstração de eficiência administrativa.
Há uma diferença, sustenta, entre o Estado criar condições para a atividade econômica e atribuir a si próprio o mérito integral pelo que resulta da iniciativa privada. “Somos contra a ideia de que basta anunciar bilhões em investimentos para considerar que todos os problemas do Estado foram resolvidos.' Sua estratégia é mostrar que grandes investimentos “são resultado da combinação de capital privado, decisões federais, estaduais e municipais, e não patrimônio político de um único governo'. Ele lembra que grandes projetos hoje materializados tiveram início há 30 anos.
Caminhos da mudança - A distância entre os dois aparece quando a pergunta passa a ser o que fazer depois da crítica.
Trad não quer desmontar o papel do Estado. Quer ampliá-lo justamente onde identifica precariedade. Sua tese é que o desenvolvimento precisa ser acompanhado de políticas sociais e de participação efetiva dos segmentos que considera excluídos. “Vou insistir na tese de que é possível, sim, um modelo democrático em que todos os segmentos da sociedade participem', afirma.
Catan propõe a direção contrária. Se Trad enxerga insuficiência na presença do Estado, Catan enxerga excesso, ineficiência e distorções. A reforma que propõe passa por reduzir burocracia, rever incentivos, combater privilégios e criar condições para que a iniciativa privada tenha mais liberdade para produzir. Seu argumento não é que Mato Grosso do Sul deva deixar de crescer, mas que o governo não deve se apropriar de tudo o que cresce nem ocupar espaços que poderiam ser preenchidos por quem produz.
A diferença pode ser resumida pelo próprio vocabulário dos dois. Trad fala em “cuidado com as pessoas que mais sofrem' e atribui ao Estado um compromisso ético de intervir diante de “precariedades estruturais'. Catan fala em reformar o Estado para torná-lo mais eficiente e menos pesado para quem produz.
A ruptura que os dois oferecem, portanto, não é a mesma. Trad pretende corrigir o modelo pela dimensão social; Catan, pela dimensão liberal.
A hegemonia como problema - A concentração política é outro ponto em que revelam mais do que o discurso público já conhecido.
Trad transforma a ausência de oposição em uma das explicações para a força do modelo. Não fala apenas de vitória eleitoral ou de maioria parlamentar. Diz que a oposição foi “massacrada' por diferentes mecanismos e que isso produziu uma espécie de anestesia na sociedade. “A gente anestesiou a percepção da sociedade', afirma. Fábio Trad filiou-se ao PT em agosto do ano passado, dois meses depois que o partido, para atraí-lo, decidiu deixar o governo estadual, entregando cargos que ocupou por 30 meses, o que contribuiu decisivamente para que Riedel governasse sem oposição.
Trad ressalva que há exceções, mas avalia que o domínio político também contou com a complacência de parte da mídia e que se criou “uma espécie de monstro', um “monopólio opressivo' que teria sufocado o ambiente democrático. A acusação é uma das mais duras feitas pelo candidato e ajuda a explicar por que sua campanha pretende apresentar não apenas uma alternativa de governo, mas uma alternativa de poder.
Catan chega ao tema por sua própria trajetória. A ruptura com o grupo político que apoia Riedel ocorreu dentro da direita. Ao deixar o PL e migrar para o Novo, passou a disputar justamente o eleitor que considera que o governador não representa a direita que deveria ocupar o governo. Sua crítica, portanto, não é a de quem quer deslocar o Estado para a esquerda, mas a de quem considera que o campo da direita também precisa de uma alternativa ao arranjo atual.
Os dois questionam a hegemonia por motivos diferentes: Trad vê a continuidade como problema porque considera que o crescimento não incorporou suficientemente a dimensão social e porque a hegemonia política reduziu o espaço da oposição, além de fechar as portas para a alternância no poder, princípio saudável à democracia. Catan vê a continuidade como problema porque considera que o Estado precisa ser reformado e que a direita, com seu leque de perfis, precisa de uma alternativa própria ao grupo que hoje governa.
É essa combinação que pode dar densidade à disputa pelos votos de oposição. Trad e Catan não formam uma frente comum e tampouco oferecem o mesmo projeto. O que os une é a tentativa de abrir uma brecha no projeto de poder representado por Reinaldo e Riedel. Se contarem com a ajuda dos outros cinco candidatos e conseguirem quebrar o favoritismo do grupo dominante, o imponderável ditaria a formação do tabuleiro num eventual segundo turno.
Leia mais


Primeira página

