• Domingo, 23 de Agosto de 2026

Cercas reduzem atropelamentos de jacarés em 70%, mas efeito varia entre espécies

Estudo na BR-262 constatou queda com cercamentos longos, mas o resultado não se repetiu para outros mamíferos

INARA SILVA / CAMPO GRANDE NEWS


Jacaré encontrado morto na BR-262, animal está na lista das maiores 'vítimas' da rodovia (Foto: Arquivo)

Cercas com mais de 3 quilômetros instaladas em trechos da BR-262, entre Anastácio e Corumbá, reduziram em 70,4% os atropelamentos de jacarés-do-pantanal, mas a mesma eficácia não foi constatada para cachorros-do-mato e capivaras. O resultado faz parte de um estudo científico publicado recentemente que avaliou a mortalidade de animais na rodovia e a eficácia de estruturas destinadas a impedir o acesso da fauna à pista.

A pesquisa analisou 278,3 quilômetros da BR-262, em áreas de Cerrado e Pantanal de Mato Grosso do Sul, e reuniu dados de monitoramentos realizados em períodos descontínuos entre 2011 e 2021. Parte do trabalho também comparou áreas da rodovia antes e depois da instalação de cercas.

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Os resultados foram publicados no artigo científico 'From roadkill monitoring to evidence-based wildlife mitigation in the Brazilian Pantanal', em tradução livre, 'Do monitoramento de atropelamentos à mitigação da fauna baseada em evidências no Pantanal brasileiro', na revista internacional 'Global Ecology and Conservation'.

O estudo é liderado pela pesquisadora Fernanda D. Abra e reúne 20 autores ligados a instituições brasileiras e estrangeiras, entre elas Smithsonian National Zoo Conservation Biology Institute, ViaFAUNA Estudos Ambientais, ICAS (Instituto de Conservação de Animais Silvestres), UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), UFPA (Universidade Federal do Pará), DNIT (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes), WWF (Fundo Mundial para a Natureza) e IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza). A equipe também inclui profissionais vinculados à Superintendência Regional do DNIT em Campo Grande.

Cercas longas - Para medir a eficácia do cercamento, os pesquisadores utilizaram o modelo BACI (Before-After-Control-Impact), sigla em inglês. O método compara o que ocorreu antes e depois de uma intervenção, considerando locais que receberam a medida e áreas semelhantes onde ela não foi implantada.

Na BR-262, foram analisados trechos antes e depois da instalação das cercas, ocorrida em junho de 2019. A pesquisa considerou cinco segmentos com cercas curtas e dois com cercas longas. Para cada trecho submetido à intervenção, foi selecionada uma área de controle com a mesma extensão e características ambientais semelhantes, localizada a pelo menos 2,5 quilômetros de distância.

Foram classificadas como curtas as cercas com menos de 300 metros, que tinham extensão média de 263 metros. As longas ultrapassavam 3 quilômetros e apresentavam média de 3.573 metros.

A análise estatística se concentrou nas três espécies com maior número de registros nos segmentos avaliados: jacaré-do-pantanal, cachorro-do-mato e capivara. Nos trechos com cercas longas, a mortalidade de jacarés caiu 70,4%. O resultado apresentou significância estatística, indicando associação entre a redução observada e a intervenção avaliada.

Para cachorro-do-mato e capivara, entretanto, não foi encontrada redução estatisticamente significativa nos trechos com cercas longas. Nas cercas curtas, também não houve efeito significativo sobre os atropelamentos de cachorros-do-mato. No caso de jacarés e capivaras, a quantidade de registros nesses segmentos foi insuficiente para uma análise estatística conclusiva.

Eficácia varia entre espécies - A diferença nos resultados indica que a eficácia do cercamento depende não apenas da extensão das estruturas, mas também do comportamento dos animais que vivem no entorno da rodovia.

Espécies capazes de cavar ou escalar, como alguns tatus e mamíferos arborícolas, podem ultrapassar as barreiras. Outros animais podem evitar determinadas passagens subterrâneas. Cervos e queixadas, segundo a discussão apresentada no artigo, tendem a preferir ambientes mais abertos e podem utilizar estruturas mais largas, como pontes, em vez de passagens estreitas. Os resultados reforçam, portanto, que uma mesma solução não produz necessariamente o mesmo efeito para diferentes espécies.

Manutenção das estruturas - Durante a pesquisa, foram encontrados problemas nas cercas existentes, como buracos, espaços entre a tela e o solo, postes caídos e partes da malha danificadas. Essas falhas podem permitir que animais continuem acessando a rodovia mesmo nos segmentos cercados.

O artigo ressalta a necessidade de manutenção contínua, pois vegetação sobre as estruturas, trechos derrubados, danos e até furto de materiais podem comprometer a capacidade das cercas de manter os animais afastados da pista.

Jacaré lidera registros - A avaliação das cercas faz parte de uma pesquisa mais ampla sobre a mortalidade da fauna na BR-262. Ao reunir três bases de monitoramento, os pesquisadores contabilizaram 9.157 vertebrados de 238 espécies encontrados mortos durante 73 meses de campanhas realizadas em períodos descontínuos entre 2011 e 2021.

Somados, os levantamentos representaram mais de 109 mil quilômetros de esforço de amostragem ao longo da rodovia. Os mamíferos responderam pela maior parcela dos registros, com 4.326 animais, ou 47,24% do total. Em seguida aparecem os répteis, com 2.828 registros; as aves, com 1.797; e os anfíbios, com 206.

Embora os mamíferos tenham formado o grupo mais atingido, a espécie individualmente mais registrada foi o jacaré-do-pantanal, com 1.604 ocorrências. Na sequência aparecem o tatu-galinha, com 738; o cachorro-do-mato, com 710; o tatu-peba, com 670; e o carcará, com 473.

O levantamento também registrou espécies ameaçadas de extinção, entre elas 196 tamanduás-bandeira, 38 queixadas, 32 antas, 16 jaguarundis e 14 cervos-do-pantanal.

Subnotificações - Os 9.157 animais registrados não representam necessariamente toda a mortalidade ocorrida no período. Os próprios autores apontam limitações inerentes ao monitoramento de atropelamentos.

Carcaças pequenas podem desaparecer antes da passagem dos pesquisadores, ser retiradas por animais necrófagos ou pelo tráfego e também ser lançadas para fora da pista. Esse processo pode levar à subestimação principalmente de aves, anfíbios e outros animais de menor porte.

Uma comparação entre métodos demonstrou como a forma de monitoramento interfere na capacidade de detectar as carcaças. Nos levantamentos realizados de carro, foram encontrados, em média, 0,12 animais atropelados por quilômetro percorrido. Nas buscas feitas a pé, a taxa chegou a 0,58 por quilômetro, 4,8 vezes maior.

Isso não significa, porém, que a mortalidade real seja 4,8 vezes superior aos registros disponíveis. Os métodos possuem características e esforços de amostragem diferentes, e a comparação mostra principalmente que as buscas a pé permitem identificar animais menores que dificilmente seriam percebidos por equipes em veículos.

Áreas prioritárias - Os pesquisadores também analisaram a distribuição espacial dos atropelamentos e identificaram 589 agrupamentos considerados hotspots. Esses pontos podem se sobrepor, já que as análises foram realizadas separadamente para diferentes grupos da fauna.

Entre eles, 86 hotspots envolvendo grandes animais foram classificados como Prioridade 1 para medidas de mitigação. Esses segmentos concentraram 45,3% dos registros considerados nessa análise, indicando que os atropelamentos não se distribuem de maneira uniforme ao longo da rodovia.

Os resultados ajudaram a embasar o plano de mitigação para a BR-262, que prevê cercamento e criação ou adaptação de estruturas para permitir a travessia dos animais sem acesso direto à pista. O planejamento inclui 170 quilômetros de cercas, aproveitamento de 44 pontes e 22 passagens inferiores existentes, além de dez novas passagens subterrâneas, sete pontes aéreas para fauna arborícola e outras estruturas de segurança.

Para os pesquisadores, os resultados mostram que as medidas de proteção precisam ser planejadas de acordo com as espécies, a paisagem e as características de cada trecho da rodovia. No Pantanal, esse planejamento também precisa considerar as cheias, os períodos de seca e os incêndios, que podem alterar tanto as condições das estruturas quanto o deslocamento dos animais.

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