Esportes
Estádios inviáveis, dívidas e má gestão: como o mesmo dono levou Bordeaux e Boavista à falência
Veja como empresário Gerard López levou equipes campeãs nacionais de França e Portugal ao colapso e entenda esperanças para o futuro
GLOBOESPORTE.COM / CAíQUE ANDRADE
Nos últimos anos, notícias sobre falência de tradicionais clubes europeus chamam atenção. Os casos de Boavista, em Portugal, e Bordeaux, na França, acumulam semelhanças. Ambos chegaram ao colapso nas mãos do mesmo proprietário: o empresário espanhol-luxemburguês Gerard López. O atual executivo de futebol do Vasco, Admar Lopes, trabalhou nos dois projetos.
Boavista e Bordeaux, que acumularam rebaixamentos administrativos por problemas financeiros, estão excluídos dos calendários profissionais em seus países e aguardam na Justiça definições sobre seus futuros (veja mais detalhes do panorama atual e das esperanças para o futuro abaixo).
Gerard López também foi responsável pelo fim do clube Royal Excel Mouscron, da Bélgica, e teve administrações deficitárias no Lille e na equipe Lotus, da Fórmula 1 . Mas como um mesmo homem pôde ser responsável por tantas quebras? O ge explica.
Os negócios de Gerard López
Filho de pais espanhóis, Gerard López nasceu em Luxemburgo, em 1971. Aos 19 anos, fundou a Mangrove Capital Partners, uma empresa de capital de risco dedicada a investir em empresas que apresentam soluções inovadoras. Entrou no esporte em 2009, quando criou a Genii Capital, especializada em gestão de marcas e tecnologias de futuro, e comprou a Lotus Team, da Fórmula 1.
Na equipe de automobilismo, atraiu grandes patrocínios e o marcante retorno de Kimi Räikkönen. Porém, o trabalho resultou em grave crise financeira e venda simbólica da Lotus à Renault por 1 euro.
Ele se aventurou no futebol em 2017, quando comprou o Lille, da França, e teve o grande acerto de sua trajetória: contratou Luis Campos, português com passagens por scouts de Real Madrid e Monaco, para liderar sua estrutura de futebol . O sucesso de Campos foi tanto que o Lille acabou sendo campeão francês em 2021, e hoje ele é responsável pelo futebol do PSG, bicampeão da Champions. Mas a administração de Gerard López não foi boa, o Lille viveu grande crise financeira, agravada pela chegada da Covid-19, e o empresário precisou vender o clube no fim de 2020.
Em 2020/21, López decidiu adquirir outros três times de futebol. Mas, ao contrário de quando assumiu o Lille em situação econômica estável, optou por comprar clubes que acumulavam dívidas e problemas financeiros. Bordeaux, da França, Boavista, de Portugal, e Royal Excel Mouscron, da Bélgica, foram os escolhidos .
O clube belga, que adquiriu inicialmente para servir de destino a jovens do Lille, foi o primeiro grande desastre. Meses depois de comprar o Mouscron, López vendeu o time francês e passou a não cumprir compromissos básicos. O Royal Excel Mouscron foi rebaixado em 2021 e, no ano seguinte, teve falência decretada e fechou as atividades do clube após não conseguir licença profissional.
As crises prévias de Bordeaux e Boavista
Bordeaux e Boavista eram os times mais tradicionais de Gerard López. Os franceses, hexacampeões da Ligue 1, em 2010 disputaram as quartas de final da Champions League e em 2013 venceram a Copa da França. Já os portugueses foram campeões nacionais em 2001 e em 2003 disputaram a semifinal da Copa da Uefa (atual Liga Europa).
Muito antes de Gerard López, as duas equipes tiveram erros em comum: aproveitaram as boas fases para se comprometerem com gastos com os quais não seriam capazes de arcar. Assim surgiram a reforma do Estádio do Bessa, que pertence ao Boavista, e foi revitalizado para a Eurocopa de 2004, em Portugal, e a mudança do Bordeaux para o estádio Matmut Atlantique, que pertence à prefeitura da cidade e foi feito para a Euro de 2016, na França. As grandes e modernas arenas não acompanhavam os tamanhos das equipes.
Para mandar seus jogos no moderníssimo estádio, o Bordeaux se comprometeu financeiramente no projeto com um pagamento de direitos de entrada estimado em 20 milhões de euros e uma taxa anual de aluguel de cerca de 3,75 a 4,5 milhões de euros pagos ao governo local.
Já a remodelação do Estádio do Bessa para a Euro 2004 custou cerca de 41 milhões de euros. De acordo com fontes ligadas ao clube ouvidas pela reportagem, o Boavista tinha a promessa de que o governo local financiaria a revitalização do estádio, o que não se cumpriu .
Os dois clubes passaram a se endividar desenfreadamente a partir daí. O caso do Boavista foi agravado por uma derrota jurídica em 2008, que rebaixou o clube à segunda divisão por supostamente ter pressionado árbitros anos antes. Com gastos lá no alto e queda de faturamento na segundona, a situação piorou e a equipe caiu ao terceiro escalão nacional. Em 2014, conseguiu em tribunal direito de voltar à primeira liga, mas o estrago já estava feito.
As administrações de Gerard López
Apesar de assumir Bordeaux e a SAD (Sociedade Anônima Desportiva, como são chamadas SAFs em Portugal) do Boavista em situações de grande endividamento, Gerard López adquiria duas equipes de primeira divisão, com ativos esportivos valiosos, receitas de TV importantes e capacidade de gerar dinheiro com transferências.
— É uma estratégia muito comum nas empresas tradicionais. Comprar empresa com dificuldade financeira, reestruturar e tentar extrair valor dessa operação. No futebol isso não funciona. Não lembro de casos em que alguém tenha conseguido comprar um clube muito endividado e reorganizá-lo. Especialmente porque, na Europa, você tem dificuldade de entrar numa recuperação judicial e permanecer competindo. No futebol, é difícil você crescer receita, sua base de torcedores é estável, o dinheiro da TV é um dinheiro de longo prazo. Você não tem crescimentos exponenciais todo ano — opina o especialista César Grafietti.
Boavista
Em conversa com o ge , um sócio e ex-funcionário do Boavista, que preferiu preservar sua identidade, revelou que, apesar de afirmar ter investido 30 milhões de euros no clube português, Gerard López injetou o dinheiro como credor. Desta forma, cerca de 20% dos 150 milhões de euros de dívidas do Boavista são destinados ao próprio proprietário da SAD.
Muitos sócios do clube eram contrários à venda da SAD, mas, com o Boavista tendo a "corda na garganta", Gerard López conseguiu convencer a administração do clube. De acordo com apuração do ge, o empresário fez diversas promessas de aporte financeiro que jamais foram cumpridas. Também chamaram atenção decisões questionáveis, como a criação de uma equipe sub-23, na qual jogadores recebiam salários 20 vezes maiores que os habituais da categoria.
Em 2024/25, acumulando dívidas superiores a € 100 milhões, o Boavista fez péssima campanha na Primeira Liga de Portugal, terminou na 18ª e última posição, com apenas 24 pontos em 34 jogos, e foi rebaixado. Dois meses depois de cair em campo, o clube foi incapaz de apresentar as garantias financeiras exigidas pela Liga Portugal para disputar a Liga 2 e foi excluído das competições nacionais, passando a disputar a quinta divisão, um torneio regional.
Bordeaux
Quando Gérard Lopez assumiu o Girondins de Bordeaux, em 2021, a torcida recuperou esperanças, já que o clube se encontrava à beira da falência. No entanto, a desilusão veio rápido. Com uma campanha desastrosa em 2021/22, a pior defesa da competição e forte crise de vestiário, o Bordeaux terminou na lanterna na Ligue 1. Foi rebaixado no campo após 30 anos consecutivos na elite.
Na temporada seguinte, veio o fracasso na tentativa de retornar à Ligue 1. Enquanto isso, o caos financeiro do clube se aprofundava, com a receita caindo consideravelmente na segunda divisão. Essas dificuldades levaram a equipe a ser rebaixada para a quarta divisão francesa em 2024, por decisão da justiça, e, mais recentemente, a ser excluída das ligas nacionais.
— A passagem de Gérard Lopez foi um desastre, mas não pegou ninguém de surpresa. Suas experiências anteriores com o Lille, a equipe de F-1 Lotus e o Royal Excel Mouscron haviam sido catastróficas. Isso sem falar no Boavista. A situação do Bordeaux deteriorou-se visivelmente sob a gestão de Lopez e, infelizmente, esse esteve longe de ser seu primeiro fracasso. Hoje, Gérard Lopez é persona non grata em Bordeaux e no futebol francês de modo geral — disse ao ge o jornalista Florian Sermaise, que cobre o Bordeaux na revista Onze Mondial.
Gestões de Admar Lopes pré-Vasco
Admar Lopes começou a trabalhar com Gerard López em 2016/17, quando integrou o projeto no Lille. Inicialmente na equipe de recrutamento e depois virou o coordenador de scouting do clube, cargo que exerceu até 2020.
Em 2020/21, Admar Lopes se tornou a figura de Gerard López dentro do Boavista no primeiro ano de administração da SAD do clube português. Ele não era diretor de futebol, mas uma espécie de supervisor. Não determinava as contratações da equipe, mas geria o dia a dia do futebol e acompanhava a equipe de perto .
O ge apurou que, nos primeiros meses da gestão de Gerard López no clube, Admar era porta-voz de boas notícias. Qualquer investimento corriqueiro que se precisasse no futebol da equipe era atendido rapidamente e melhorias institucionais foram percebidas.
Em meados de 2021, quando Gerard López comprou o Bordeaux, Admar se tornou diretor de futebol da equipe francesa. Lá, passou a ter papel direto na montagem da equipe e nos resultados obtidos em campo. De acordo com o site Transfermarkt, entre 2021 e 2024, o Bordeaux arrecadou € 62,3 milhões em vendas de atletas. Gastou € 30,4 milhões em reforços, o mais caro foi Alberth Elis, do Boavista, por € 6 milhões.
A reportagem procurou a assessoria do Vasco, para ouvir Admar Lopes sobre os trabalhos em Bordeaux e Boavista, mas o dirigente não teve interesse em falar sobre o tema.
O futuro de Boavista e Bordeaux
Boavista
Em 2026/27, a SAD do Boavista abdicou oficialmente de inscrever a equipe no campeonato regional amador para onde havia sido rebaixada. A atividade do futebol do clube foi reduzida ao mínimo indispensável e concentrada exclusivamente na equipe Sub-19. Agora, o clube português aguarda uma provável liquidação da SAD pela Justiça, para poder recomeçar.
A Câmara Municipal do Porto e forças políticas locais iniciaram tratativas para tentar proteger o Estádio do Bessa de leilões judiciais desordenados, buscando garantir que as infraestruturas sigam associadas ao clube. O estádio foi colocado a leilão, mas teve um resultado aquém das expectativas mínimas de 32 milhões de euros. Já o complexo esportivo adjacente foi arrematado por 6,5 milhões de euros.
Torcedores organizados fundaram um outro clube, a fim de representar o Boavista no futuro. O Panteras Negras FC nasceu como uma espécie de “plano B' diante do colapso do clube. Mas a ideia não tem apoio da maior parte dos sócios e torcida do Boavista. Sendo assim, a maior esperança de futuro é que, após uma liquidação da SAD, o clube recomece do zero.
Bordeaux
A DNCG, órgão de fiscalização financeira do futebol francês, e a Federação Francesa de Futebol (FFF), excluíram o Bordeaux das competições nacionais profissionais devido à incapacidade de apresentar garantias financeiras sólidas. No início de agosto, Gerard López vendeu o clube ao fundo britânico Sparta Capital, pelo valor simbólico de 1 euro .
Os novos donos aportaram € 10,6 milhões no clube e recorreram à decisão no Tribunal Administrativo de Paris, tentando manter o Bordeaux no nível profissional, que vai até a quarta divisão. No entanto, nos últimos dias, a proposta foi recusada, o aporte da Sparta Capital foi considerado insuficiente, e o hexacampeão francês vai ter que disputar a sexta divisão, totalmente amadora e regional.
Caso o grupo investidor retire o apoio após a queda para a 6ª divisão, o Tribunal de Comércio de Bordeaux pode decretar a liquidação judicial, o que decretaria a extinção completa da estrutura da empresa do clube. O jeito também seria recomeçar do zero.
Outros casos de falência e retomadas
Nos casos de Fiorentina e do Napoli na Itália, o modelo de resgate passou pela falência controlada do CNPJ antigo e pelo uso da Cláusula Lodi, artigo do regulamento da Federação Italiana que permite a refundação de um clube insolvente a partir do último nível profissional.
A Fiorentina faliu em 2002 com mais de 20 milhões de dólares em dívidas e renasceu como Florentia Viola na quarta divisão. Adquirida pelo empresário Diego Della Valle, a estratégia se baseou em rápida injeção de capital, recompra dos direitos do nome/escudo histórico e estabilização operacional, subindo rapidamente de divisões até voltar à elite em 2004.
Já o Napoli teve sua liquidação decretada em 2004 e foi comprado pelo produtor de cinema Aurelio De Laurentiis. Rebatizado temporariamente como Napoli Soccer, o clube recomeçou na terceira divisão. A tática de De Laurentiis focou em sustentabilidade financeira rígida, aproveitando a enorme massa de torcedores para alavancar receitas de bilheteria e direitos de TV, o que permitiu o retorno à Serie A em apenas três anos.
Fora do cenário italiano, houve o caso do Rangers, da Escócia. Em 2012, com pesadas dívidas fiscais, o clube teve falência decretada pela Justiça. A estratégia foi criar uma nova entidade comercial que comprou as marcas, o nome e o Estádio Ibrox. Como a federação escocesa não permitiu a manutenção na elite, o Rangers teve de reiniciar na 4ª divisão em 2012/13. A torcida foi importante para a retomada e bateu recordes de público em divisões inferiores. A volta à primeira divisão demorou quatro anos.



