Coronel Sapucaia
Há 45 anos, Adriane vive em corpo que não reconhece como seu
Após anos escondendo a dor, ela sonha com a cirurgia de redesignação de sexo para conseguir ser feliz
NATáLIA OLLIVER / CAMPO GRANDE NEWS
Há 45 anos, Adriane André de Moura vive em um corpo que não reconhece como seu. Nos olhos anestesiados pela dor em ter que conviver com isso, uma trajetória de fugas, julgamentos e esperança. Este último sentimento é novo para ela. Depois de chegar ao extremo para se livrar do órgão genital, Adriane enfim conseguiu se desamarrar do medo para entrar na fila da cirurgia de redesignação de sexo oferecida pelo SUS (Sistema Único de Saúde). A angústia da espera piora o cenário que já é delicado.
A atitude demorou pelo peso de ter nascido nos anos 1980 e por achar que conseguiria suportar a existência assim. Ela nunca conheceu a felicidade. No sofá da casa onde mora com a mãe, ela relata como conseguiu lidar com tudo.
“Eu nasci uma mulher com a cabeça de mulher e com o sexo masculino. Eu acho que é horrível você nascer assim, é muito difícil conviver com isso. Cheguei a um ponto que não aguento mais essa situação. Eu não aceito, meu corpo não aceita e minha cabeça não aceita'.
Durante a vida, não faltaram dedos apontando para ela e dizendo o quão feia, desrespeitadora e anormal Adriane era. A batalha para existir do jeito que é sempre foi uma luta árdua e, para ela, a única salvação é a cirurgia. Só assim ela diz que poderá ser feliz. Adriane tem pressa, não quer passar mais tempo nesse corpo errado.
“Estou com expectativa de poder realizar essa cirurgia. Psicologicamente eu não posso dizer que estou bem. Sempre foi uma luta muito grande, comigo mesma, com a sociedade, com a minha família. Com eles eu não tive grandes problemas porque eles me viram crescer e viram crescer de uma maneira diferente. Sempre tem uma pessoa ou outra que critica e julga, mas de modo geral minha família sempre me apoiou'.
Em relação às pessoas fora do círculo social e aos poucos amigos que ela tem, os dias foram difíceis.
“Tive muitos problemas, das pessoas te olharem como se você fosse uma pessoa de outro mundo. Eu tenho amigos desde a época do colégio. É um sacrifício muito grande você estar lutando contra você mesma e contra a sociedade, contra o julgamento, preconceito, por pensar que sou assim porque quero, que é uma escolha.
Para viver os dias em paz, ela acaba se restringindo a ficar em casa. Por ali, lê, passa um tempo no celular, cuida da mãe que está com problemas de saúde. Mesmo depois de todo o sofrimento, Adriane ainda olha com carinho para si mesma.
“Sou uma pessoa lutadora e lá no fundo tenho uma esperança muito grande de ser feliz. A minha felicidade depende dessa mudança de sexo. Eu gosto de ler romances, fico muito na internet, cuido da casa, da minha mãe, acompanho ela nos médicos'.
Ela confessa que não trabalha, que nunca conseguiu encarar a vida com esse corpo. Fala que até completar os estudos foi complicado.
“Não cheguei a fazer nenhum curso ou faculdade. Estava muito difícil pra mim. Eu sou dos anos 80, naquela época era muito difícil, chegou um ponto que se tornou insustentável estar em sociedade. Cheguei a apanhar em colégio, de “colegas', também na rua. Acho que só depois da cirurgia vou estar pronta para encarar o mundo, a vida e ser feliz, porque nunca fui'.
Adriane veio de uma família pequena e rígida. O amparo de que ela precisou veio apenas da mãe. “Sofria muitos castigos por ser muito feminina. Com 18 anos eu procurei um tratamento hormonal, mas os médicos falaram que em Campo Grande não existia. Com 35 anos eu consegui fazer, fiz por 5 anos e parei e agora estou batalhando pela cirurgia. Quero fazer porque isso não me pertence, não foi algo que eu escolhi. Se eu pudesse escolher seria um caminho mais fácil, não esse que é tão difícil, tão sofrido'.
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