• Quinta, 01 de Outubro de 2026

Dois almoços e até vitamina com fígado batido: Flaco López ganha 10kg e se transforma no Palmeiras

Muito além da massa muscular, atacante ganhou densidade óssea e 3kg de adaptação hídrica, que ajuda a aguentar mais de 90 minutos no jogo: mostramos o que o clube fez para atingir auge físico

GLOBOESPORTE.COM / CAMILA ALVES, EDGAR ALENCAR E LAURA FONSECA


Flaco López comemora gol do Palmeiras contra o São Paulo — Foto: Marcos Ribolli

Durante quase um ano e meio, desde a chegada ao Palmeiras, em junho de 2022, Flaquito, como era chamado, levou marmitas para casa. Fazia dois almoços, dois jantares e bebia quase um litro de vitamina por dia, com granolas, castanhas e até pedaços de fígado batido, para dobrar o volume de calorias nas refeições.

Com 74kg e um índice de ferro baixo, Flaco não conseguia criar músculos e gastava, nos treinos e jogos, absolutamente tudo que comia. O Palmeiras, contudo, tinha um plano.

– Ele chegou a fazer dois almoços. O daqui (do clube) e o que levava em marmita, comia quase que no meio da tarde. A gente começou a colocar diferentes preparações, com batata e carnes, e vitaminas fortalecidas, com aveia, granola, castanhas – afirmou Mirtes Stancanelli, nutricionista do clube.

Começava assim, com alimentação e tecnologia, o trabalho de bastidor para transformá-lo em um dos principais atacantes do futebol brasileiro (e argentino) na atualidade.

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Em quatro anos, López, como passou a ser chamado, mudou o metabolismo, o sistema digestório, ganhou 10 kg (entre músculos, densidade óssea e até volume de água no corpo) e potencializou, com essas mudanças, características que têm impacto direto em seu estilo de jogo.

– Sabíamos da característica de preparação de jogadas, muitas vezes atrás do nove, mas pela estatura, percebemos que haveria um potencial grande de desenvolvimento de outras exigências do futebol moderno – explica o coordenador do Núcleo de Saúde e Performance, Daniel Gonçalves.

Mas como o Palmeiras monitora essa evolução?

No caso de Flaco, foram as avaliações físicas que deram sinal.

Desde os 21 anos, passou a ser monitorado em dois aspectos: de composição corporal, com a tecnologia DXA (um equipamento adaptado ao esporte para medir gordura, músculos e até ossos do corpo), e de níveis de potência, medindo a evolução dos saltos, das acelerações e dos agachamentos, por exemplo, nos treinos de força.

A ciência por trás do plano...

Para atingir esses níveis de potência, Flaco precisou passar primeiro por uma transformação alimentar.

Mirtes Stancanelli divide esse processo em duas partes: uma adaptação metabólica, que precisaram de um ano e meio para conquistar, e só depois a mudança estrutural, iniciada enfim em 2024.

É por isso, inclusive, que até o fim de 2023 o centroavante nem sequer tinha mudanças visíveis no próprio corpo.

– Ele veio com um padrão alimentar muito restrito, treinava e tinha uma gripe, então precisava primeiro ter um sistema de defesa mais eficiente, um sistema digestório que conseguisse suportar a quantidade de alimentos que ele tem que comer e um processo de hidratação melhor – explica Mirtes.

Foi assim que as três refeições de Flaco viraram cinco, com arroz, feijão, carnes, saladas, diferentes preparações de batata, e vitaminas fortalecidas, batidas com granola, aveia, castanhas e os citados pedaços de fígado, colocados para aumentar as taxas de ferro no sangue do atacante, por ser um mineral importante para a produção de músculos.

E somente esse processo, de adaptação para ele conseguir comer tudo que precisava comer em um dia, durou um ano e meio, até o fim de 2023.

Então é a partir de 2024 que os profissionais conseguem começar a desenvolver a estrutura do corpo de Flaco, e com isso, só nos últimos dois anos, ele enfim transfere o ganho de potência para o campo de jogo.

– A gente desenvolve algumas situações, de sustentação, de pivô, de aproveitar esse desenvolvimento corporal do Flaco para ele transferir isso para o jogo. Porque, no início, ele não fazia. Mas, por que ele não fazia? Porque não tinha a composição corporal para a sustentação desse jogo. E por que ele não tinha? Porque era um atleta ainda numa fase de desenvolvimento – diz Daniel Gonçalves.

Mirtes mostra a diferença em uma grande tela digital colada na parede de sua sala, onde um gráfico detalha as alterações de peso do atacante durante os últimos quatro anos.

– Você vê que tem oscilações normais dos períodos de jogos, de ganho e perda de peso entre 74kg e 81kg até o fim de 2024, e sempre uma queda maior quando ele volta das férias, porque o corpo não segura o peso. Ou seja, ainda não tinha mudado a estrutura.

É justamente neste período que há uma mudança clara: o peso de Flaco salta da faixa dos 75kg a 80kg para passar a oscilar entre 80kg e 85kg, sem mais cair desse patamar, de forma contínua desde o meio do ano passado.

Ou seja, ele ganhou massa muscular, mas também desenvolveu a densidade óssea, que é o que determina a força e a resistência dos ossos, e a adaptação hídrica, que é o volume de água no corpo.

Quase 3kg dos novos 10kg de Flaco, explica Mirtes, são de água. É o que faz ele conseguir sustentar, por exemplo, 90 minutos ou mais em campo, algo antes raro de acontecer nos primeiros três anos de clube.

E ele ainda pode evoluir mais?

Agora aos 25 anos,F laco vive a melhor temporada da carreira, com 21 gols e nove assistências em 51 jogos, sendo 13 a menos que o necessário em 2025 para atingir números iguais.

Pelo desempenho, realizou o sonho da convocação na Argentina, disputou a Copa do Mundo pela primeira vez e hoje faz parte do ciclo de renovação da equipe, sendo convocado para a super Data Fifa de setembro. Não à toa, presenteou com uma camisa o técnico Abel Ferreira, que foi publicamente quem sempre assumiu as defesas, e os puxões de orelha, sobre o potencial do atacante.

Hoje mais próximo de seu auge físico e de rendimento, López ouve ter margem para crescer ainda mais.

– Ele está atingindo o teto – explica o coordenador do Núcleo de Saúde e Performance.

– Mas é perceptível nas próprias conversas, e alguns puxões de orelha que o Abel dá nele, que é um jogador que absorve muito bem as informações, então creio que ainda possa se desenvolver mais.

– A gente tem o exemplo do Piu, que qualquer centésimo de segundo é a diferença entre uma baita marca e o recorde mundial – diz, em referência a Alisson dos Santos, recordista dos 400m com barreiras.

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