• Quarta, 26 de Agosto de 2026

Voo de helicóptero na 7ª Divisão e hoje treinador em Portugal: as histórias de Sandro, ex-Inter e Tottenham

Ídolo do Colorado e do clube inglês, ex-volante de 37 anos assumiu recentemente o Sporting São João de Ver, da Terceira Divisão de Portugal

GLOBOESPORTE.COM / FRED GOMES


Sandro, ex-Tottenham e Internacional, é o treinador do Sporting Clube de São João de Ver — Foto: Sporting Clube de São João de Ver/Divulgação

Tornar-se treinador é situação comum ao pós-carreira de um ex-jogador. Se o profissional em questão venceu Libertadores, jogou Champions League, vestiu a Amarelinha e atuou no alto nível por anos na Premier League, o caminho para a realização desse objetivo é mais curto. Mas imagine que o insight nessa direção veio quando esse consagrado personagem acabava de jogar uma partida com a camisa de um clube da Sétima Divisão da Inglaterra, na qual chegou de helicóptero. Isso aconteceu com Sandro, ex-Internacional e Tottenham.

Hoje com 37 anos, o ex-volante assumiu recentemente o comando do Sporting São João de Ver, da Terceira Divisão de Portugal. Sandro queria ser treinador, estudou para tal, mas a certeza mesmo de que levava jeito para a coisa veio num jogo em que jamais cogitaria disputar.

Ex-atleta aos 33 anos por causa das lesões

Sandro encerrou a carreira de atleta muito jovem. Voltou ao Brasil em janeiro de 2020, aos 30 anos, para jogar perto dos amigos e da família. Tinha saudade das pessoas queridas, mas a pandemia impediu a proximidade. Resultado: deixou o clube no fim do ano e apostou num projeto pessoal. Casado com a portuguesa Vanessa e pai dos também lusitanos Matheus e Gabriel, acertou com o Belenenses em junho de 2021 para dar seus últimos passos como atleta e iniciar os estudos para se tornar treinador.

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Sim, com apenas 32 anos pensava em parar e assim o fez na temporada seguinte. Em 30 de abril de 2022, um mês e meio após o aniversário, disputava sua última partida, contra o Braga.

- Joguei mais um aninho depois que cheguei ao Belenenses. Eu já estava com o intuito de ser treinador há muito tempo. Então, eu estava jogando dentro de campo, mas já sendo um treinador. Sabe às vezes quando o treinador passa um exercício e você fala: "Qual é o intuito desse exercício aqui? O que a gente vai fazer? Por que não faz mais uma coisa mais voltada para a estratégia do jogo?"

- E às vezes quando eu entrava no campo também, realmente, a galera me escutava muito dentro de campo. A minha voz era muito presente. E muita coisa (do que falava) dava certo. Pensei: "Vou jogar mais esse ano e vou terminar, porque eu já também estava cansado, e vou começar a estudar (para ser técnico). Aí eu tive propostas no outro ano para continuar. Todo mundo falava: "Pô, você já vai terminar com 33 anos?".

Sandro confessara à família, desde os tempos de Tottenham, que queria parar cedo. O motivo? Muitas lesões que o jogavam para baixo. Dizia a amigos viver um montanha russa: euforia quando jogava e se destacava e depressão nos momentos de longa recuperação no departamento médico.

- Eu vou me aposentar cedo e vou fazer outra coisa. E depois que veio de dentro essa vontade de ser treinador. Mas desde muito tempo eu queria parar cedo de jogar bola. O treinador foi crescendo dentro de mim, foi crescendo essa voz. Às vezes eu estava no banco de reservas falando mais que o treinador e eu falava comigo mesmo: 'Pô, Sandro, calma, pelo amor de Deus. Está muito empolgado. Está falando mais com o treinador. Calma, essa não é tua posição'.

Estágio na Inglaterra e o inusitado convite da Sétima Divisão

O desejo de ser treinador era um fato, tirou a licença B da Uefa e, entre 2023 e 2024, Sandro voltou à Inglaterra para fazer estágio no Brighton com Roberto de Zerbi, italiano que o comandara na Premier League. Além disso, acumulava o trabalho de "Legend" do Tottenham. Como ídolo do clube, participava de eventos com torcedores.

- Ele (De Zerbi) é o treinador em quem me inspirei, foi o melhor treinador que eu tive. Então eu fiz o meu estágio com ele no Brighton. E aí depois do meu estágio o Brighton quis que eu começasse um trabalho de scout para eles. E como era dentro da análise, fiz para eu crescer como treinador.

- Só que passei um bom tempo na Inglaterra. Daí que veio a questão do Harborough Town. Comecei a fazer para o Tottenham esses trabalhos que eles chamam de "Legends", que é ir ao estádio, falar com a torcida, tirar foto. Ou às vezes vai a um evento que você vai representando o clube.

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O convite para voltar a jogar futebol profissional veio aos 35 anos, em festa na qual estava como um dos "Legends" do Tottenham. O ex-colorado jamais pensou que seria sondado por um clube da Sétima Divisão, principalmente no fim de 2024, dois anos após pendurar as chuteiras.

- Num desses eventos um torcedor do Tottenham disse "The Beast", porque assim eles me chamavam. "The Beast", a fera. Você está muito bem fisicamente, você não pode vir jogar no meu time? Aí eu sou da resenha e falei: "Você tem time? Que legal".

Sandro não levou fé num primeiro momento, mas foi dando corda ao fã que o chamara de "The Beast".

- E levei ali na brincadeira. Mas quando ele falou: "Sandro, mas agora é sério. Você não poderia só ir lá, jogar um pouco para nós? E nós vamos disputar a FA Cup?". Eu falei: "Então isso é mesmo sério. Você joga a FA Cup?" Aí ele falou: "Não, mas é bem no início da FA Cup. E seria bom se fosse lá conversar com os jogadores". E esse time era de Sétima Divisão, era tipo amador.

Sandro resolveu dar uma chance ao Harborought Town, então da Sétima Divisão. Sentia saudades da bola e entendia o significado que tinha para o fã ter um ídolo representando o time da cidade.

- Imagina jogar um joguinho que significa muito para eles e que para mim vai ser legal também, suar um pouco e tal? E aí eu falei: "Olha, pode contar comigo".

Ida de helicóptero para Harborough surpreende

Sandro tinha de cara um empecilho para jogar. Fora expulso na última partida como profissional, em abril de 2022, contra o Braga, e portanto era desfalque para o duelo com o Tonbridge Angels, na estreia pela FA Cup. Pensou: "Eles não vão nem vencer o jogo". Enganou-se, e o Harborough goleou por 4 a 1. Sem ritmo de jogo, destreinado e acumulando funções em Brighton e Tottenham, o brasileiro teria que enfrentar o Reading, da Terceira Divisão.

- Foi um susto muito grande, porque aí já é um jogo muito grande. Eu não queria essa responsabilidade, velho. Eu dois anos e meio sem correr, sem pegar na bola. E aí o que acontece? Na Inglaterra todo mundo estava falando disso: ah, o Sandro, ex-Tottenham, vai jogar por um time de nona divisão ou oitava divisão. Cara, pô, eu dei muita entrevista, a galera amando, porque deu muita fama para o clube.

- Aí eu senti essa pressão, porque eu não estava levando a sério. Eu não me preparei para o jogo. E uma das coisas mais especiais foi que, mesmo não me preparando para o jogo... Porque eu estava trabalhando, às vezes eu não tinha nem tempo. Como eu trabalhava no Brighton, eu viajei para o Brasil para fechar um jogador que o Brighton queria e estava fazendo várias coisas.

Muito ocupado com suas funções, Sandro não sabia como encontrar tempo para atravessar Londres rumo à cidade de Market Harborough em viagem de carro que exigia cinco horas no volante.

- Quando chegou perto do jogo, eu também estava trabalhando no Brighton. Eles falaram: "Sandro, a gente precisa que você treine pelo menos uma vez, né? Para conhecer e tal. Logo nesse dia eu estava trabalhando no Brighton. E o Brighton para esse time, lá para o Harborough Tower são cinco horas de carro.

- Você não acredita que os caras mandaram um helicóptero me buscar lá, cara? Eu falei: "Meu Deus, que pressão é essa? Os caras estão levando muito a sério isso aí". E aí foi onde que eu comecei a pensar: "Pô, velho, eu posso ferrar com a brincadeira deles, né? Porque eu não me preparei".

Estratégia faz time vencer um tempo e é o insight de Sandro

Sandro resolveu jogar a real para o técnico Mitchell Austin e sentiu a veia de treinador aflorar ao demovê-lo da ideia de pressionar alto. Traçou uma estratégia para segurar o Reading, muito superior, ao conversar com Austin e seus novos colegas de time.

- Treinador, se você for pressionar alto, não conta comigo. Eu não me preparei, eu estou fazendo meus trabalhos. Agora, se você jogar baixinho, a gente pode fazer alguma coisa. Eu estava super nervoso, mas revivendo tudo aquilo: indo no ônibus, palestra, preleção. E aí, quando eu entrei no vestiário foi uma sensação única.

- Conversei com a galera que estava do meu lado: "Fica perto de mim. Eu não estou bem fisicamente, mas eu ficando aqui no meio de vocês, vai ser difícil eles passarem por mim. Então me protege e deixa eles virem dentro aqui, que eu não deixo passar, porque eu sou forte. Eu vou para a academia, eu não estou correndo, mas eu estou forte. Eles não passam aqui. Essa é a estratégia.

Sandro só tinha condições de atuar por 45 minutos e escolheu jogar o primeiro tempo da partida. Não queria entrar num cenário muito desfavorável. A estratégia deu certo, e o brasileiro foi ovacionado ao ser substituído por Joel Carta, no intervalo.

- E aí o que acontece? A gente sai ganhando de 2 a 1 no primeiro tempo. Uma coisa louca, com 3 mil torcedores do Harborought Town gritando meu nome. Isso foi a minha despedida do futebol.

O Reading avançou com vitória por 5 a 3 após empate por 2 a 2 no tempo normal. Sandro não se conforma de um time da Sétima Divisão ter sido submetido a uma prorrogação apesar de toda a desvantagem física diante de um rival tradicional.

- Essa foi a minha despedida do futebol. E depois disso, eu já tinha meu curso de Uefa B. E aí eu falei assim: "Pô, está vendo que dá para ser treinador? Está vendo que é na estratégia? Porque naquele dia eu convenci o treinador. Eu falei: vamos mudar de estratégia, porque nós não podemos pressionar o Reading lá na casa deles, lá em cima. Com um time de sétima divisão, os caras vão dar um balaio na gente.

Sandro, o treinador de forma oficial

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Sandro foi anunciado em junho como novo treinador do Sporting Clube São João de Ver, da Terceira Divisão, e a empolgação é grande.

- E foi depois que veio essa oportunidade aqui, de trabalhar aqui no São João de Ver, pela parte do Daniel Alves. E pronto, uma experiência incrível que eu estou vivendo. Estou desfrutando de cada treino. É uma paixão mesmo, né? Você tem ou você não tem. É bater na tecla, entender, entrar na mente dos jogadores, passar essa confiança. É um trabalho de formiguinha.

Outros tópicos:

Você orienta seus jogadores com histórias de Modric, Bale e Kane?

- Eu não gosto de me gabar, mas faz parte da curiosidade dos atletas. Eles perguntam muito. Olha, quando eu estava dentro de campo, eu fazia assim. Eu falava com meus volantes. Olha, eu fazia assim, assim que eu pensava. Se faz sentido para você, né? Em outros momentos, falando com um atacante, digo: "Olha, o Harry Kane gosta de fazer assim. É assim que ele faz".

- Então eu uso essa minha vivência com grandes jogadores para trazer para eles, para falar assim: olha, o jogador de alto nível faz essas coisas aqui. Para aprimorar isso, o que eles fazem? É repetição, é repetição. Sente o jogo, joga fácil. O Modric gostava de fazer muito isso. Às vezes o jogo começava, eram uns toquinhos. É só ele tirando essa confiança, entrando no jogo, é como se fosse um aquecimento dele. Aí depois ele começa a fazer já as coisas mais difíceis. É um passe entre linhas. É um passe onde ele consegue ver mais lá na frente. Depois ele vai aumentando o campo dele. Eles querem aprender. É bacana trazer essas histórias do futebol, dos jogadores com que eu já joguei, para dar esse exemplo.

Histórias curiosas vividas no futebol europeu

Velório no vestiário, e enquadrada de Igor Tudor técnico da Udinese

- Por exemplo, na Itália, uma coisa que chamou muita atenção. Parece que é um velório. É nitidamente um velório dentro do vestiário. E isso mexia muito comigo, porque para nós, brasileiros, ir para um jogo é uma festa, é música. No Brasil, é música. Na Inglaterra também era música. Aí eu colocava um fonezinho de ouvido. E aí teve um treinador meu na Itália. Eu estava com o meu fone sem atrapalhar a "vibe" de ninguém, mas eu precisava dessa "vibe". E aí um treinador chegou no meu ouvido, até falta de educação, tirou e falou assim: "Olha, na minha época, eu não concentrava assim. Você está escutando a música, né?" Eu falei: "Ô, mister, mas esse é o meu jeito de concentrar para o jogo. Esse é o meu jeito. Já que não tem música aí, eu não estou colocando. Eu estou na minha".

- Cara, ele já me olhou, eu retruquei porque eu não estava fazendo isso para mim, entendeu? E ele já veio, tirou o meu fone. E cara, eu achei isso deselegante, mas é cultural deles.

Vinho na concentração do Benevento

- E outra coisa da Itália: antes do jogo, na concentração, na noite anterior, eles tomando vinho. Jogador tomando vinho. E aí, no meu primeiro jogo, eu falei: "Isso é isca para mim". Muito estranho. Não eram todos os jogadores, e eu gosto de vinho também (risos). Poxa, deu aquela vontade. Falei: "Estão me testando, não vou cair nessa, não".

"Segurança de Van der Vaart" e enfrentamento com Drogba

- Tem muitas histórias legais. Teve uma vez que o Rafael Van der Vaart, jogador de seleção holandesa, Real Madrid, resolveu brigar com o Benoît Assou-Ekotto, um camaronês. Eu disse: "Rafa, não vai nessa". Acabou que eu o ajudei e acabaram me vinculando como o "segurança do Van der Vaart" (risos). Joguei também contra o Drogba, um jogador com quem eu jogava pouco antes no Playstation e agora estava enfrentando. Lembro que dei umas porradas nele, ele virou para mim, mostrou o nome da camisa e falou "Respect (respeito)". Eu falei: "Vai tomar banho". Mas tudo bem, são essas coisas que me fazem pensar e falar: "Eu cheguei. Fui campeão da Libertadores, joguei na Seleção e agora estou na Europa".

Sonho de voltar ao Internacional

- Com certeza (três vezes), eu sonho em voltar, porque eu dei minha última entrevista na final lá da Libertadores e eu falo: "Um dia eu vou voltar". E eu não tive essa oportunidade de voltar como jogador porque eu queria voltar como jogador, mas não me deixaram viver esse sonho. Então está vivo ainda e quem sabe como treinador viver isso tudo de novo, porque eu conheço. Eu sei o que é o Inter, sabe, isso é um sonho, é um sonho meu, porque a identidade que eu tenho com eles. E chegar em Porto Alegre é como voltar no teu passado e onde tudo deu certo. São muitas lembranças boas.

A final da Libertadores de 2010, o dia mais especial como colorado

- A mais especial foi realmente a Copa da Libertadores, aquele momento que o juiz apita é muito forte, parece que você não acredita num momento. Porque eu era muito jovem, e tinha muita pressão. É muito forte você jogar uma final de Libertadores na tua casa. Às vezes você fica ali meio bobo no início, nos cinco primeiros minutos, aí depois parece que a ficha cai.

- Aí você vê a torcida. O momento foi quando a gente chegou no estádio para o jogo. Quando a gente teve que andar ali, bem próximo da torcida, para entrar no nosso vestiário. Eu ainda tenho clipes assim dos caras me agarrando, olhando no meu olho, chorando, mostrando tatuagem com fogo. A gente passou num túnel de fogo e a torcida nos tocando. Sei lá, 20 metros, 10 metrinhos, e eu acho que o Ito fez isso de propósito. E a galera ali naquela câmera lenta, a galera falando, aquela gritaria, e você olha no olho de um cara e vê aquela loucura. O cara falando, aí o outro beija o símbolo do clube, o outro faz assim uma cara agressiva, e aí é aquele momento ali. Foi um dos momentos mais bonitos que eu vivi no futebol de emoção, de sensação, de viver e de sentir o momento. Eu pagaria tudo para viver aquele momento de novo de sentir essa emoção.



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