Esportes
Lembra dele? Campeão mundial, Lenísio usa lições do futsal para mudar de profissão aos 50 anos
Em entrevista ao ge, ex-pivô da Seleção passa trajetória a limpo, relembra título e conta como perfil de jogador o ajuda a crescer no mercado imobiliário
GLOBOESPORTE.COM / LUíS FELLIPE BORGES
Depois de duas décadas dando trabalho para defesas pelo mundo, Lenísio hoje ataca o mercado imobiliário. Um dos maiores pivôs da história do futsal brasileiro e campeão mundial em 2008, o agora ex-jogador aproveita a experiência que obteve dentro da quadra para impulsionar a mudança de carreira, iniciada aos 50 anos.
Em entrevista ao ge no dia em que completa meio século de vida, Lenísio relembrou os momentos mais marcantes da trajetória como jogador e explicou como o esporte o ajuda na transição profissional. O ex-pivô também recordou a passagem pelo time de campo do Atlético-MG, contou sobre a relação com Carlos Alberto Parreira e revelou bastidores do título da Copa do Mundo: "Momento mais especial da minha vida".
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Com anos de dedicação ao esporte, o cuiabano decidiu explorar um novo ramo em 2026. Inspirado na esposa Andrea e convidado por amigos, o ex-jogador se capacitou para trabalhar no mercado imobiliário e atua há dois meses em uma empresa que assessora construtoras no lançamento de empreendimentos em Uberlândia.
— A gente acaba tendo contato com as construtoras, com as imobiliárias, com os corretores, é um outro tipo de trabalho. É muito novo para mim também, mas estou muito feliz com o desafio. Não é nada diferente do esporte, a gente só tem que saber as regras do jogo. É só identificar realmente quem é o adversário, qual é a competição, qual é o objetivo, qual o gol que você vai fazer, o gol que você tem que defender. É assim que eu levo minha vida — explicou.
"Eu vivi 20 anos da minha vida só no futsal, me dediquei muito, renunciei muitas coisas para estar no futsal, e eu acredito que essas experiências são importantes".
A vasta bagagem no futsal, no entanto, não é desperdiçada. Lenísio aponta que a preocupação com os dados — algo comum na nova rotina - o acompanha desde a época dele como jogador, vivida em um período em que a estatística ainda não era valorizada na formação e no dia a dia dos atletas.
— Eu gosto muito da área de análise de dados, e isso foi fundamental na minha carreira, porque eu sempre fui muito observador. Eu via a maneira como o goleiro se portava, com quem eu atuava, com quem eu interagia. Tudo isso fez parte da minha vida, da minha carreira.
"Na época, era muito empírico, era caneta e papel. Muitas vezes, eu fazia análise ali comigo mesmo, de alguns dados, algumas informações. Mas era muito manual, não era tecnológico como é hoje".
— No futsal, você tem que tomar muitas decisões muito rápidas. E quanto mais informações você possui, mais repertório você tem, e fica melhor tomar as decisões. O meu grande diferencial realmente foi poder observar, antecipar uma jogada. Quanto antes você antecipa, você ganha um, dois, três segundos a mais, e isso impacta diretamente no resultado de uma decisão — acrescentou.
Aposentado das quadras desde 2012, Lenísio se formou em Educação Física e cursou pós-graduação em treinamento de futsal. O ex-pivô integrou as comissões técnicas de Jaraguá e Corinthians, no futsal, e foi analista de desempenho do Uberlândia Esporte Clube, no campo, em 2026.
Com a visão do lado de fora das quadras, ele afirma torcer para que a análise de dados se torne um foco cada vez maior para as equipes no Brasil.
— Se eu pudesse escolher um sonho para o futsal, é que as pessoas olhassem para essa área com um pouco mais de carinho, um pouco mais de amor, e que fosse tão importante como é a parte da preparação física, a parte técnica com os treinadores, a parte de gestão, a parte psicológica, a parte nutricional — destacou.
Enquanto se redescobre na nova profissão, Lenísio não descarta voltar a trabalhar com futsal e disse sentir gratidão por tudo que construiu no esporte.
— Sempre que eu posso e sempre que eu sou chamado, não é um convite, é uma obrigação que eu tenho com a minha modalidade. É uma convocação, porque tudo que eu tenho, eu devo ao futsal. Não é só a parte material, a parte financeira. Mas os valores, tudo que eu vivi. Foram 20 anos no futsal, eu tenho obrigação em contribuir e ajudar.
"O futsal sempre foi minha vida, é uma paixão à primeira vista. Para mim foi muito mágico, e desde o primeiro dia que eu entrei numa quadra, eu não quis sair".
Início no futsal e chance no Atlético-MG de Parreira
Natural de Cuiabá, Lenísio morou em várias cidades do Brasil por conta do trabalho do pai em uma empresa de ônibus. Entre Presidente Prudente, Uberlândia e Araçatuba, o menino descobriu a paixão pelo futsal e alimentou o sonho de jogar bola.
— Minha mãe fala que eu nasci com uma bola na mão. Eu sempre tive esse sonho de me tornar um atleta profissional, e o futsal complementou o que eu gostava na época. No futsal, a gente pega muitas vezes na bola, tem muitas oportunidades de gol, é muito dinâmico, é muito rápido. Eu tive várias oportunidades para estar no futebol de campo, mas o que me fez apaixonar pelo futsal foi o dinamismo e as oportunidades que eu tive, de estar na hora certa, no lugar certo, com as pessoas certas — relembrou.
Lenísio despontou para o futsal brasileiro no time histórico do Atlético-MG no final dos anos 1990, que também contava com Falcão e Manoel Tobias. Em 2000, o pivô foi o artilheiro da Liga Nacional com incríveis 50 gols e chamou a atenção do time de campo do Galo.
Na época, o Atlético era comandado por Carlos Alberto Parreira, que treinou Lenísio ao lado de Marques, Guilherme e Veloso, entre outros nomes. O pivô passou três meses com o elenco, mas optou por retornar às quadras. Mesmo assim, levou consigo as lições que aprendeu com o treinador.
"Algumas pessoas falavam que eu poderia permanecer no futebol, mas eu, dentro de mim, achava que não estava no nível do Atlético Mineiro, até porque era um nível muito alto".
— O Parreira tinha muito conhecimento do futsal. Ele considerava também o futsal muito importante como formador dos atletas. A gente tinha uma relação muito legal. Fui muito bem recebido por ele. E aprendi muito, principalmente sobre gestão de grupo — contou.
Apesar da passagem curta nos gramados, Lenísio fez valer a fama de artilheiro e balançou as redes pelo Galo em um amistoso contra o Independente Vespasiano, vencido pelo Atlético por 4 a 1. O ge não encontrou vídeos que mostrem o lance, mas o autor da jogada garante que foi um golaço típico de futsal.
— Eu tenho uma característica de fazer um gol por cobertura no futsal, e esse gol foi uma cavadinha também. Colocaram a bola entre os zagueiros, e eu acabei tendo a felicidade de fazer um gol de cavada, que era uma característica que eu tinha no futsal e consegui replicar ela no futebol — detalhou Lenísio.
Campeão mundial ao lado do irmão
A escolha pelo futsal em definitivo rendeu frutos a Lenísio, que construiu uma carreira vitoriosa e se consagrou como um dos maiores artilheiros da modalidade. Ao todo, o ex-pivô foi o maior goleador da Liga Nacional em cinco oportunidades.
O sucesso no Brasil o levou ao futsal europeu. Na Espanha, foi artilheiro e eleito o melhor jogador da liga em três oportunidades, com passagens pelos times de Murcia e Cartagena.
Para Lenísio, o ponto mais alto da carreira aconteceu em 2008. Ao lado de nomes históricos do futsal brasileiro - como Falcão, Schumacher, Tiago e companhia - e do irmão mais novo, Vinícius, que era o capitão do time, ele foi campeão da Copa do Mundo de Futsal no Rio de Janeiro.
— O Brasil vai continuar sendo campeão mundial, favorito, uma referência na nossa modalidade. Mas jogar uma Copa do Mundo no Brasil, com a sua família, os seus amigos, com o seu irmão de capitão, é realmente um privilégio para poucos — disse o ex-pivô.
"Eu tive esse privilégio de me tornar campeão mundial com o meu irmão. Com certeza, é o momento mais especial da minha vida".
Na decisão, o Brasil bateu a Espanha nos pênaltis, após empate por 2 a 2 no tempo normal no Maracanãzinho. A euforia com o título foi tamanha que Lenísio não resistiu: levou para casa, escondido, a bola usada na conquista da Seleção.
— Quando o Franklin faz a defesa, todo mundo vai comemorar com o Franklin, e a bola vem, vem, vem, e para na minha mão. Eu consigo pegar a bola, escondi, já dei para o meu pai, ele conseguiu esconder também. O pessoal foi atrás da bola, mas a gente conseguiu negociar, e ela ficou comigo durante muitos anos. Depois, eu doei para um amigo que tem uma clínica de fisioterapia lá em Jaraguá do Sul— contou.
Os anos de convívio na seleção e de encontros por clubes fortaleceram a união dos membros daquele time, que mantém contato até hoje, segundo Lenísio.
— A gente tem uma relação bem legal, e é sempre muito especial quando a gente encontra e relembra. Agora o papo é outro. Qual é a lesão que cada um tem, quantos quilos acima, se o pessoal está careca ou não. É bem legal, é bem divertido — disse.
Paixão familiar
Após o título mundial, Lenísio jogou por mais quatro anos em alto nível. Em 2012, no entanto, uma lesão grave no joelho forçou o pivô a encerrar a carreira aos 36 anos.
— Eu tive duas cirurgias no joelho e, na segunda cirurgia, eu não consegui me recuperar. Tive um problema de cartilagem, hoje eu tenho uma artrose — contou o ex-atleta.
"Eu não me arrependo de nada. A gente tem que tomar as decisões quando tem que tomar. Olhando para trás, não me faltou nada com relação a títulos, conquistas. Os sonhos que eu tinha, eu consegui realizar".
A paixão pelo futsal, compartilhada com o irmão Vinícius, também foi transmitida para os filhos de Lenísio após a aposentadoria. O mais velho, Vini Lanza, seguiu os passos do pai e joga no futsal europeu. A mais nova, Letícia, cursa design gráfico e atua no mercado audiovisual com foco em esportes.
Com 50 anos completos e uma bagagem repleta de lições, Lenísio espera inspirar os filhos, também, a crescerem como pessoas.
— Meu sonho é poder ter saúde e me tornar um ser humano melhor, ajudar as pessoas que precisam, ter capacidade de ser útil para as pessoas. A gente muda com o passar do tempo. Quando a gente é mais novo, a gente pensa nas nossas conquistas, nos nossos sonhos, nos nossos objetivos — afirmou.
"Os 50 anos te trazem isso: na verdade, a vida é para o outro. A gente consegue se doar para o outro, ser uma pessoa melhor para o outro, ajudar o próximo".
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